Genoino: “Caiado sempre tratou Lula e o PT como inimigos”
José Genoino afirma que discurso de anistia a golpistas expõe alinhamento histórico de Caiado contra Lula e o PT
247 - José Genoino, ex-deputado constituinte e ex-presidente nacional do PT, avaliou que Ronaldo Caiado mantém há décadas uma postura de enfrentamento ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Partido dos Trabalhadores. Ao analisar o cenário político brasileiro e a movimentação antecipada para as eleições de 2026, Genoino associou a defesa da anistia a golpistas a uma lógica de impunidade e disse que a extrema direita atua para prolongar a crise institucional no país.
A declaração foi feita por José Genoino em entrevista ao programa Giro das Onze. Na conversa, o ex-dirigente petista tratou da crise política, da articulação da extrema direita, da disputa eleitoral de 2026, da defesa da soberania nacional e da necessidade de a esquerda reorganizar seu discurso e seu programa diante do avanço do negacionismo e do ódio político.
Ao comentar a atuação de Caiado, Genoino afirmou que o governador de Goiás jamais escondeu sua posição política em relação ao PT e a Lula. “O Caiado aparece como um candidato que critica o inominável. É uma crítica pela meia boca. Na verdade, o Caiado sempre tratou o PT e o Lula como inimigos. Sempre foi assim”, declarou. Em seguida, reforçou a avaliação ao recordar sua convivência com o político no Congresso: “Inclusive na Câmara, quando eu convivi com ele durante muito tempo na condição de deputado federal, ele sempre foi isso, ele nunca escondeu”.
Para Genoino, a fala de Caiado em defesa da anistia a envolvidos em ações golpistas é um dos elementos mais graves da pré-campanha. Na leitura do ex-presidente nacional do PT, esse discurso não busca pacificação institucional, mas a preservação de uma cultura de tolerância com ataques à democracia. “Essa promessa dele de campanha é uma das coisas mais constrangedoras”, afirmou. Em outro momento, resumiu sua crítica dizendo que setores da direita “se unem na ideia de um golpe continuado”.
Ao abordar o tema, Genoino resgatou referências históricas para sustentar que a conciliação com golpistas não produz estabilidade democrática. “O Juscelino anistiou os militares e os militares que o Juscelino anistiou deram o golpe de 64”, disse, ao mencionar o passado político brasileiro e advertir contra a repetição de medidas que possam abrir espaço para novas rupturas institucionais.
A análise de Genoino ultrapassou o caso de Caiado e alcançou o ambiente político mais amplo. Segundo ele, a extrema direita brasileira está ligada a uma engrenagem internacional e opera de forma articulada. “Essa extrema direita, ela está associada a um projeto internacional. É Trump, é Bukele, é Chile, é Argentina, é Paraguai. Portanto, essa articulação, ela tem nome e tem o líder máximo que é Trump”, declarou.
Dentro desse quadro, o ex-deputado constituinte defendeu que a soberania nacional ocupe papel central na disputa eleitoral. “Nós vamos ter que fazer enfrentamento ao defender a soberania nacional, que é uma questão central nessa eleição”, afirmou. Para ele, a resposta política ao avanço da extrema direita deverá envolver a defesa da democracia, da autonomia brasileira e de um projeto de desenvolvimento comprometido com direitos sociais.
Genoino também descreveu o atual momento do país como uma fase de degradação institucional, moral e política. Em sua avaliação, a expansão do obscurantismo, do negacionismo e da mentira no debate público exige uma reação profunda do campo democrático. “Nós estamos numa encruzilhada profunda”, disse. Em seguida, acrescentou: “Nós temos que fazer uma espécie de revolução dos corações e mentes, política”.
Ao longo da entrevista, o ex-presidente nacional do PT sustentou que a esquerda precisa qualificar sua intervenção pública e reconstruir sua capacidade de convencimento. “Nós da esquerda temos que falar a verdade, temos que convencer, temos que ter argumentos, temos que desmontar os argumentos da mentira, do negacionismo e da falta de pudor, da mentira como uma norma”, afirmou.
Na mesma linha, Genoino defendeu que a disputa de 2026 não pode ser reduzida a uma simples batalha eleitoral, mas deve se apoiar em um programa de mudanças estruturais. Para ele, a conquista do poder só tem sentido se estiver vinculada à transformação concreta da vida da população. “O poder é um meio. O poder tem que estar vinculado a um programa”, declarou.
Esse programa, segundo ele, deve incluir medidas como taxação dos super-ricos, defesa dos direitos sociais, valorização do salário mínimo, fortalecimento da saúde e da educação públicas, combate à jornada 6 por 1, ampliação da tarifa zero e formulação de uma política de segurança pública cidadã. Ao criticar soluções baseadas na violência, Genoino insistiu que a esquerda precisa se contrapor ao que chamou de “morticínio” como resposta para problemas complexos.
Na entrevista, ele também associou a crise do Rio de Janeiro a um quadro mais amplo de deterioração nacional. Para Genoino, o estado revela de forma aguda a combinação entre crime organizado, milícias, omissões institucionais e degradação da política. “O Rio de Janeiro é a ponta do iceberg de uma crise institucional”, afirmou.
Mesmo diante desse cenário, o ex-dirigente petista avaliou que ainda há espaço para mobilização e reconstrução de perspectivas políticas. Em sua visão, a esquerda precisa retomar a capacidade de dialogar com o povo a partir de causas concretas e de um horizonte de futuro. “Nós temos que libertar o futuro das amarras e das algemas do neoliberalismo”, disse.
Genoino também afirmou que o campo progressista não pode se limitar à administração das possibilidades oferecidas pela ordem vigente. Para ele, a acomodação enfraquece a disputa política e esvazia o sentido transformador da ação democrática. “Nós temos que prestar conta, nós temos que entregar, mas nós temos que dizer: nós queremos mais, porque o povo quer mais”, declarou.
Ao final, defendeu uma estratégia de mobilização que combine presença territorial, debate político e atuação nas redes. “Nós temos que organizar o nosso time, fazer um bloco de esquerda e ir para a campanha, ir para as ruas. Nós temos que ter rua, plenárias e redes”, afirmou, ao indicar o caminho que considera necessário para enfrentar a extrema direita e reconstruir um projeto democrático para o país.


