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Ao defender experiência, Caiado expõe fratura na direita e enfraquece ataque etarista contra Lula

Governador de Goiás usa trajetória administrativa para marcar distância de Flavio Bolsonaro e reposiciona debate em torno de capacidade de governo

Ronaldo Caiado (Foto: Divulgação)

247 – Ao assumir o discurso da experiência como eixo central de sua pré-candidatura à Presidência da República, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, abriu uma fissura relevante no campo conservador e, ao mesmo tempo, desmontou uma das insinuações mais recorrentes da extrema direita contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Escolhido pelo PSD para concorrer ao Planalto, Caiado procurou construir sua diferenciação em relação ao senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ) a partir de um argumento objetivo: a vivência concreta na administração pública. Aos 77 anos a serem completados em setembro, com cinco mandatos de deputado federal, oito anos como senador e oito anos como governador, Caiado sustentou que sua trajetória o credencia a oferecer governabilidade em um cenário político marcado por tensões e radicalização.

O ponto mais significativo de sua fala está no fato de que, ao valorizar experiência, preparo e acúmulo administrativo, Caiado acaba por esvaziar o ataque etarista frequentemente dirigido contra o presidente Lula. Afinal, se a idade deixa de ser tratada como fraqueza e passa a ser associada à maturidade política, ao conhecimento do Estado e à capacidade de liderança, cai por terra um dos expedientes mais superficiais mobilizados por setores da oposição.

O fracasso de Collor

Em sua exposição, Caiado relatou um episódio de 1989, quando decidiu disputar a Presidência na primeira eleição direta após a redemocratização. Segundo contou, seu pai, Edenval Caiado, tentou demovê-lo da ideia, argumentando que ele não poderia aprender a administrar no cargo mais alto da República e que seria necessário subir “degrau por degrau”. O hoje governador reconheceu, retrospectivamente, a pertinência do conselho. Disse que não ouviu o pai, concorreu, terminou em décimo lugar e relembrou que o vencedor daquele pleito, Fernando Collor, tinha a mesma idade que ele e fez um governo fracassado. “Deu no que deu”, comentou Caiado.

A declaração tem peso político porque recoloca no centro do debate uma questão essencial para qualquer projeto nacional: governar o Brasil exige formação política, experiência acumulada e domínio da máquina pública. Trata-se de uma realidade que, no caso do presidente Lula, é amplamente comprovada por sua trajetória à frente do país e por sua capacidade de reconstrução institucional em momentos decisivos da história recente.

Inexperiência de Flávio Bolsonaro

Ao mesmo tempo, a fala de Caiado atinge diretamente Flavio Bolsonaro, cuja imagem pública segue fortemente atrelada ao sobrenome que carrega e a uma trajetória muito mais limitada no terreno da administração. Conforme o texto original informa, o senador tem 44 anos e sua experiência de gestão se resume à administração de uma franquia da Kopenhagen no Rio de Janeiro, citada na reportagem como suspeita de lavagem de dinheiro. Nesse contraste, Caiado tentou se apresentar como alguém capaz de oferecer densidade política onde o bolsonarismo oferece apenas herança eleitoral, ruído ideológico e fragilidade administrativa.

Caiado também afirmou que derrotar o presidente Lula “é fácil” em uma eleição de dois turnos. Mas o trecho mais importante de seu raciocínio veio em seguida: segundo ele, o difícil é construir governabilidade sem experiência administrativa, de modo que Lula “nunca mais volte”. Ainda que a frase revele seu objetivo eleitoral, ela carrega uma admissão involuntária da centralidade política do presidente: Lula continua sendo a principal referência do cenário nacional, a liderança em torno da qual a oposição precisa se organizar e se definir.

Esse reconhecimento não é trivial. Ao tentar se viabilizar, Caiado admite, ainda que indiretamente, que a simples retórica agressiva ou o apelo identitário da extrema direita não bastam para enfrentar um líder com a envergadura institucional de Lula. Seu discurso, assim, expõe a insuficiência política de candidaturas construídas mais no ambiente digital e na radicalização de bolha do que na prática efetiva de governo.

Estratégia contra o bolsonarismo

Ao comentar a desvantagem nas pesquisas — segundo a análise, existem hoje dez eleitores de Flavio Bolsonaro para cada eleitor de Caiado —, o governador reagiu dizendo que “bolhas existem para serem furadas”. A frase sintetiza sua aposta: enfrentar a hegemonia momentânea do bolsonarismo no campo da direita com base em atributos de solidez, previsibilidade e experiência.

Há, nisso, uma contradição reveladora. Caiado não rompe com a direita nem com o eleitorado bolsonarista. Ao contrário, procura falar diretamente a esse público. A análise lembra que ele mantém posições duras, como o apoio à anistia aos golpistas de 8 de janeiro, além de uma trajetória política marcada por alinhamentos conservadores, da fundação da União Democrática Ruralista à defesa de pautas reacionárias em momentos-chave da história brasileira, passando pelo apoio ao golpe de Estado contra Dilma e à candidatura de Jair Bolsonaro em 2018.

Ainda assim, ao entrar em rota de colisão com Flavio Bolsonaro no terreno da competência administrativa, Caiado produz um efeito político relevante. Ele retira a disputa da caricatura e do slogan fácil, expondo a precariedade de uma candidatura que depende muito mais do capital político herdado do ex-presidente Jair Bolsonaro do que de realizações próprias. Seu movimento enfraquece a tentativa de transformar a juventude relativa de Flavio em virtude automática e reforça a ideia de que, em política, o critério decisivo deve ser a capacidade de governar.

Ganho indireto para Lula

Nesse sentido, sua fala termina por beneficiar também o presidente Lula no plano simbólico. Ao associar experiência à governabilidade, Caiado ajuda a desmontar a narrativa preconceituosa que busca reduzir a idade a um fator de desgaste. No caso de Lula, a experiência não é apenas biográfica. Ela se traduz em liderança internacional, capacidade de articulação institucional e reconhecimento popular acumulado ao longo de décadas de vida pública.

No esforço para se diferenciar de Flavio Bolsonaro, Caiado acabou tornando explícita a fratura na direita brasileira. De um lado, um campo que tenta reivindicar experiência, método e capacidade administrativa. De outro, uma corrente marcada por improviso, extremismo e dependência do sobrenome Bolsonaro. Ao defender a experiência, o governador de Goiás não apenas se fortalece na disputa interna da direita, como também contribui para desmontar um dos ataques mais rasos mobilizados contra Lula. No embate entre currículo e marketing político, Flavio sai menor.

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