"Gay for the Stay", o lado "B" da sexualidade!
Da sobrevivência no cárcere à performance nas redes, a fluidez sexual passa a ser consumida como estética
Durante décadas, a expressão “gay for the stay” circulou quase exclusivamente no universo prisional. Era usada para nomear relações entre pessoas do mesmo sexo em contextos de confinamento, marcadas menos por identidade e mais por sobrevivência emocional, companhia e proteção. Não se tratava, necessariamente, de uma redefinição subjetiva, mas de uma forma de existir dentro de uma estrutura extrema.
Hoje, porém, esse fenômeno saiu das celas e entrou no cotidiano.
Invadiu festas, redes sociais, realities, narrativas midiáticas e estratégias de engajamento. Freud nunca esteve tão atual: somos todos bissexuais constitutivos! O que antes era uma resposta ao confinamento tornou-se, no neoliberalismo digital, uma estética do afeto provisório. Beijos “heteroflexíveis”, casais de ocasião, performances queerizadas para likes, relações que existem enquanto rendem audiência.
O “gay for the stay” transformou-se em “gay for the feed”.
Ama-se enquanto engaja, deseja-se enquanto viraliza e, depois, desaparece-se quando deixa de dar retorno. Nesse contexto, o afeto deixa de ser vínculo e passa a ser conteúdo.
Entre homossociabilidade, desejo e mercado
A sociologia já nomeava parte desse fenômeno há décadas. A homossociabilidade descreve vínculos intensos entre pessoas do mesmo sexo que não se reconhecem como eróticos, mesmo quando atravessados por intimidade profunda. Já a homoafetividade envolve o reconhecimento do desejo como parte da identidade e da história de vida.
O que vemos hoje é uma zona cinzenta: uma homossociabilidade erotizada e uma homoafetividade frequentemente negada. Deseja-se sem assumir. Ama-se sem responsabilizar. Vincula-se sem compromisso simbólico sustentado.
Tudo é vivido como experiência.
Pouco é elaborado como identidade.
Quase nada é assumido como responsabilidade.
No capitalismo das plataformas, até o desejo virou mercadoria. Relações “flexíveis”, narrativas afetivas estrategicamente editadas, estéticas dissidentes sem política dissidente. É possível parecer transgressor sem enfrentar estruturas. É possível lucrar com a diferença sem defendê-la. É possível consumir diversidade sem transformar desigualdade.
O sistema não quer sujeitos.
Quer signos.
Não quer histórias.
Quer tendências.
Entre visibilidade e captura
É fundamental afirmar que experimentar afetos, romper normas e explorar desejos pode, sim, ser profundamente libertador. Ao longo da história, as dissidências sexuais abriram caminhos para formas mais amplas de existência, desmontando padrões rígidos de gênero, moral e família.
Como lembra Michel Foucault:
“Não se trata de descobrir quem somos, mas de recusar o que somos". (FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, H.; RABINOW, P. Michel Foucault: uma trajetória filosófica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995, p. 239.)
A liberdade, nesse sentido, não é adaptação a novos rótulos, mas a possibilidade permanente de reinvenção. Observamos hoje, inclusive, o que muitos chamam de “contaminação trans”: a ampliação dos modos de sentir, desejar e existir, que atravessa fronteiras identitárias rígidas e questiona a fixidez dos papéis. Diante dessa expansão da fluidez, torna-se legítima a pergunta: quem, afinal, ainda deseja permanecer totalmente fixo?
Ainda assim, é preciso insistir: a fluidez não é o problema!
O problema é a sua instrumentalização.
Quando o afeto existe apenas enquanto rende.
Quando o desejo vira estratégia.
Quando a diferença se transforma em moeda simbólica.
Nesse ponto, já não há liberdade, mas sua captura.
Enquanto afetos circulam como espetáculo, pessoas LGBTQIA+ reais continuam enfrentando violência, exclusão familiar, precarização do trabalho, desemprego e morte. O mesmo mundo que aplaude o beijo viral, a estética futurista, também ignora o corpo ferido. A mesma cultura que celebra a performance abandona a vida concreta.
A dissidência virou figurino, e a dor segue invisível.
Se antes o “gay for the stay” funcionava como estratégia de sobrevivência no cárcere, hoje vivemos o “gay for the feed”: uma dissidência moldada para o algoritmo, para o público, para o mercado.
Até a próxima tendência, “trans for feed”, mas isso é outra história!
Diante disso, a pergunta central permanece ecoando: estamos ampliando possibilidades reais de existir ou apenas criando novas formas de exploração? Estamos construindo vínculos duradouros ou produzindo performances descartáveis? Estamos reconhecendo sujeitos ou consumindo identidades? Está aí nossa questão com o identitarismo confuso, que definitivamente não me representa. Mas quem entende tais diferenças?
Enquanto isso, entenda que:
O afeto não é marketing.
O desejo não é figurino.
A identidade não é conteúdo.
A homoafetividade não é moda.
A homossociabilidade não é álibi.
A dissidência não é espetáculo.
Enquanto o mundo transforma diferenças em ruído, pessoas vulnerabilizadas seguem tentando viver com dignidade.
E isso não viraliza, mas importa!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



