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Florestan Fernandes Jr

Florestan Fernandes Júnior é jornalista, escritor e Diretor de Redação do Brasil 247

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Globo e o PowerPoint das omissões

PowerPoint da GloboNews ignora personagens-chave e evidencia um padrão de cobertura que privilegia narrativas em detrimento da apuração completa dos fatos.

Globo e o PowerPoint das omissões (Foto: Reprodução)

O programa Estúdio i, da GloboNews, exibiu, na edição desta sexta-feira (20/03), mais um PowerPoint que reforça a narrativa da emissora de que o governo Luiz Inácio Lula da Silva seria o principal elo de Daniel Vorcaro na maior fraude bancária da história do país.

No centro da apresentação, a imagem do banqueiro; ao redor, em destaque, o presidente Lula, os ex-ministros Ricardo Lewandowski e Guido Mantega, o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, além da bandeira do PT. Completam o quadro os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, acompanhados de figuras recorrentes da política vinculadas a partidos de direita. O foco central é nitidamente direcionado.

Sob o signo de uma pretensa futura delação premiada, o jornalismo da Globo incorre, de forma consciente, em omissões relevantes que comprometem a isenção jornalística. Por que Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas foram poupados da teia de conexões? Ambos receberam doações milionárias de campanha do cunhado de Vorcaro, seu operador financeiro. Também ficou de fora o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, cuja gestão não apenas autorizou o funcionamento do Banco Master, como hoje é alvo de questionamentos por possível omissão na fiscalização das empresas ligadas ao banqueiro.

Há ainda o silêncio sobre governos estaduais e prefeituras que destinaram bilhões de reais de fundos de pensão à compra de títulos de alto risco do banco, assim como sobre agentes do mercado financeiro, especialmente da Faria Lima, que recomendaram, de forma irresponsável, esses produtos a seus clientes. Não deixa de causar estranheza, ainda, a ausência de qualquer menção ao próprio grupo Globo, que, em maio de 2024, teve em Vorcaro o principal patrocinador e palestrante no evento de 25 anos do Valor Econômico, realizado em Nova York.

Ficam, portanto, algumas perguntas inevitáveis: qual foi o volume de recursos aportado pelo Banco Master nesse evento? Quanto a instituição investiu em publicidade nas empresas do grupo Globo? E por que não se questiona a relação de Vorcaro com o diretor-geral do Valor Econômico, Frederic Zoghaib Kachar, a quem o próprio banqueiro se referiu publicamente como “grande amigo”?

Essas indagações deveriam vir à tona com a mesma ênfase dedicada a outras conexões. Também merecem transparência episódios como os contratos do escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, e a venda do resort Tayayá, ligado à família de Dias Toffoli, ao grupo Master.

Mais do que um erro pontual, o que se revela é um padrão seletivo de apuração, em que a escolha do que mostrar — e, sobretudo, do que omitir — molda a narrativa antes mesmo que os fatos sejam plenamente conhecidos. Quando o jornalismo abdica da isonomia e passa a operar por recortes convenientes e pela espetacularização, deixa de cumprir sua função pública essencial: a de esclarecer, e não direcionar, o juízo da sociedade.

O país já viu e sentiu, em sua democracia, os efeitos de uma cobertura marcada pela manipulação da notícia durante a Operação Lava Jato. A memória desse período impõe cautela: quando a narrativa se antecipa às provas, o risco é transformar exceções em método.

Resta saber se, desta vez, não tentarão novamente construir um “caso exemplar”, capaz de produzir efeitos políticos antes mesmo de sua comprovação, tendo como alvo preferencial o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, por extensão, o próprio PT.

A expectativa em torno de uma eventual delação, tratada como “bala de prata”, sugere menos prudência investigativa e mais a busca por um desfecho previamente desejado. Na mesma lógica lavajatista muito bem descrita por Lenio Streck — “atirar a flecha e depois pintar o alvo”. Se for esse o caminho, não estará em jogo apenas o destino de Lula, líder sindical que ascendeu ao poder, mas também a própria integridade do Estado Democrático de Direito.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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