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José Reinaldo Carvalho

Jornalista, editor internacional do Brasil 247 e da página Resistência: http://www.resistencia.cc

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Governança global proposta pela China reforça mundo multipolar

Novo livro branco chinês defende multilateralismo, ONU fortalecida e maior participação do Sul Global nas decisões mundiais

Versões em chinês e inglês do livro branco sobre Iniciativa de Governança Global (Foto: Global Times )
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Por José Reinaldo Carvalho – Uma das mais importantes políticas da China de alcance internacional foi lançada no ano passado pelo Presidente Xi Jinping – a Iniciativa de Governança Global. A China propõe uma nova arquitetura para a governança global ao defender multilateralismo, a ONU fortalecida e uma maior participação do Sul Global nas decisões mundiais, em um momento em que crises sucessivas expõem os limites da ordem internacional vigente. O livro branco “Governança Global Mais Justa e Equitativa: Princípios, Propostas e Ações da China”, lançado nesta semana pelo Conselho de Estado da República Popular da China,  apresenta uma visão estruturada para reformar, aperfeiçoar e democratizar os mecanismos de decisão que afetam toda a humanidade.

O documento parte de uma constatação que não se pode ignorar: a governança global ainda reflete desequilíbrios históricos, assimetrias de poder e uma distribuição limitada da capacidade de decisão. A promessa de uma ordem internacional baseada em regras só pode ter legitimidade plena se essas regras forem construídas, interpretadas e aplicadas de maneira inclusiva e abrangente, sem privilégios para poucos países e sem marginalização da maioria do mundo.

A questão central não é apenas técnica ou institucional. Trata-se de definir quem participa das decisões, quais interesses são considerados e que tipo de futuro comum se pretende construir. Quando a governança global deixa de expressar a diversidade dos povos e passa a reproduzir hierarquias e hegemonias, ela perde autoridade política e eficácia prática.

Nesse sentido, a iniciativa chinesa aponta para uma reforma que busca tornar o sistema internacional mais representativo e funcional. A defesa da autoridade da ONU, do direito internacional e dos princípios da Carta da ONU indica que a proposta se apresenta como correção de rumo. O objetivo é impedir que a força substitua o direito e que a pressão unilateral se imponha sobre a cooperação.

A visão formulada pelo presidente Xi Jinping sobre uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade dá base política a essa orientação. Ao defender consultas amplas, contribuição conjunta e benefícios compartilhados, a China procura estimular a corresponsabilidade diante de problemas comuns.

A Iniciativa de Governança Global responde a duas perguntas decisivas: que sistema internacional deve ser construído e como ele pode ser reformado para enfrentar os desafios contemporâneos. A resposta chinesa se organiza em torno de cinco princípios: igualdade soberana, estado de direito internacional, multilateralismo, centralidade das pessoas e busca de resultados concretos.

Esses princípios têm relevância porque enfrentam algumas das distorções mais persistentes da política internacional. A igualdade soberana rejeita a ideia de que países mais poderosos tenham direito natural de comando. O estado de direito internacional limita o arbítrio. O multilateralismo exige decisões coletivas. A centralidade das pessoas desloca o foco das disputas geopolíticas para o bem-estar das populações. E a busca de resultados concretos impede que a diplomacia se reduza a declarações sem efeito real.

A governança global não pode ser confundida com a administração do mundo por um pequeno grupo de potências. Em sua formulação mais legítima, ela deve ser um processo de construção coletiva, capaz de incorporar diferentes histórias, sistemas sociais, culturas políticas e níveis de desenvolvimento. Mais de 190 países compõem a comunidade internacional, e nenhum modelo será duradouro se tratar essa diversidade como obstáculo, e não como base da convivência global.

A maior participação do Sul Global é, portanto, uma exigência de justiça e de eficiência. Países em desenvolvimento concentram grande parte da população mundial, enfrentam de maneira direta os impactos das crises econômicas, climáticas, sanitárias e de segurança, e têm direito de influenciar as regras que moldam seu próprio futuro. Ampliar sua voz não é concessão; é condição para que a ordem internacional corresponda ao mundo real.

A reforma do Conselho de Segurança da ONU, com atenção especial à representação dos países em desenvolvimento e às preocupações africanas, insere-se nessa lógica. Um sistema criado em outro contexto histórico precisa reconhecer a transformação do equilíbrio global. A legitimidade das instituições depende de sua capacidade de acompanhar a realidade, e não de congelar privilégios do passado.

Ao mesmo tempo, a valorização do Sul Global exige cooperação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Nações com maior capacidade econômica e tecnológica devem assumir responsabilidades compatíveis com seu peso, oferecendo recursos, bens públicos internacionais e compromissos concretos. Países em desenvolvimento, por sua vez, devem fortalecer sua coordenação, ampliar capacidades e participar de modo ativo das soluções comuns.

A proposta chinesa também recoloca o multilateralismo em seu sentido substantivo. Multilateralismo não é apenas reunir muitos países em torno de uma mesa. É reconhecer que decisões legítimas exigem consulta real, negociação equilibrada e respeito às diferentes necessidades nacionais. Sem isso, fóruns internacionais correm o risco de se transformar em vitrines diplomáticas sem capacidade de resposta.

O livro branco também enfatiza que os déficits de paz, desenvolvimento, segurança e confiança não serão superados por confrontação permanente. A estabilidade internacional depende de mecanismos capazes de prevenir conflitos, mediar controvérsias, promover desenvolvimento compartilhado e construir confiança entre Estados. Nesse ponto, a criação de instrumentos voltados à mediação internacional revela a importância de renovar práticas diplomáticas e ampliar canais pacíficos de solução de disputas.

A experiência acumulada pela China em iniciativas de cooperação, infraestrutura, desenvolvimento e diálogo internacional reforça a dimensão prática de sua proposta. A governança global será julgada não apenas pela coerência de seus princípios, mas pela capacidade de produzir resultados perceptíveis: redução de desigualdades, ampliação de oportunidades, respostas a emergências, estabilidade institucional e maior previsibilidade nas relações internacionais.

A adesão ou acolhimento da iniciativa por quase 160 países e organizações internacionais, bem como a participação de mais de 60 países no Grupo de Amigos da Governança Global, revela que há demanda por alternativas ao desequilíbrio atual. Esse apoio expressa uma percepção crescente de que a ordem mundial precisa ser reformada para atender às necessidades da maioria e não apenas preservar conveniências de poucos.

O momento histórico exige paciência estratégica, mas também decisão política. Reformar a governança global é tarefa complexa, atravessada por interesses diversos, tensões acumuladas e resistências de poder. Ainda assim, a direção apontada pelo documento chinês é clara: mais igualdade, mais cooperação, mais direito internacional, mais participação e mais resultados.

Uma governança global justa e equitativa não nascerá de imposições unilaterais, nem de discursos abstratos. Ela dependerá da capacidade dos países de perseverar diante das divergências, fortalecer a ONU, respeitar a soberania, valorizar o multilateralismo e colocar as necessidades concretas dos povos no centro das decisões. Nesse caminho, a proposta chinesa se apresenta como contribuição relevante para uma ordem internacional mais equilibrada, inclusiva e compatível com os desafios do século XXI.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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