Heroicas vitórias que ninguém assistiu
O futuro exige coragem para mudar e humildade para reconhecer erros. Exige ousadia para enfrentar estruturas injustas e generosidade para construir pontes
Não tem sido simples defender ideias progressistas atualmente, muito menos reconhecer-se de esquerda. Talvez porque, durante mais de quatro décadas, o pensamento neoliberal exerceu enorme influência sobre a sociedade, apresentando-se como uma espécie de caminho inevitável para o desenvolvimento e o bem-estar.
Nesse período, muitas contradições do capitalismo foram suavizadas, normalizadas ou invisibilizadas, enquanto uma ou duas gerações cresceram sob a predominância de uma narrativa que tratava o mercado como solução para praticamente todos os problemas humanos.
A tarefa da esquerda tornou-se ainda mais difícil diante dos seus próprios erros, cometidos por alguns de seus representantes, que tiveram comportamentos que os aproximaram justamente daquilo que historicamente criticavam. Como observou Jaques Wagner, ao dizer que alguns dos nossos "se lambuzaram", certas condutas acabaram oferecendo argumentos aos adversários e enfraquecendo a credibilidade de projetos comprometidos com a transformação social.
Esse cenário também foi marcado por acontecimentos históricos de grande impacto, como a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, apresentados por muitos como a "vitória definitiva da liberdade sobre o autoritarismo". De fato, os regimes do leste europeu carregaram marcas profundas de burocratização, repressão e ausência de democracia. A experiência soviética esteve distante dos ideais de emancipação humana que inspiram o socialismo, transformando-se em um modelo estatal marcado pela concentração de poder, mesmo tendo tirado a Rússia, praticamente, da Idade Média.
Entretanto, a história do Ocidente também revela contradições profundas, pois a própria formação da democracia liberal carrega um paradoxo: enquanto proclama valores como liberdade e igualdade, convive com estruturas de exclusão, exploração e dominação, e faz vistas grossas a ditaduras sanguinárias quando lhe interessa.
A história dos Estados Unidos é um exemplo evidente dessa contradição. Lá, a democracia liberal desenvolveu-se em meio a uma sociedade que, ao mesmo tempo em que defendia direitos individuais, mantinha a escravidão de milhões de pessoas negras e promovia a expulsão e a violência contra povos indígenas.
Muitos dos fundadores da nação americana eram proprietários de escravos, e conceitos como liberdade e cidadania foram inicialmente construídos dentro de limites muito restritos.
Por isso, compreender a ideia de liberdade presente no liberalismo exige olhar também para essas raízes históricas. Não se trata de negar conquistas importantes das democracias modernas, mas de reconhecer que elas foram construídas em meio a conflitos, exclusões e disputas por reconhecimento.
A humanidade ainda carrega as marcas de uma história em que interesses econômicos frequentemente se sobrepuseram à dignidade das pessoas. A expansão colonial, por exemplo, foi muitas vezes justificada por teorias racistas que buscavam legitimar a exploração e a dominação de povos considerados inferiores.
Diante dessa realidade, o desafio do nosso tempo é construir novos caminhos.
Precisamos criar um Brasil pensado a partir das pessoas, especialmente daquelas que historicamente foram excluídas dos processos de decisão. Uma sociedade mais humana, ética, solidária, inclusiva, democrática e sustentável não nasce apenas de discursos; ela depende de uma nova forma de fazer política — daí a importância da eleição de Lula e Alckmin.
É necessário fortalecer processos participativos, horizontais e colaborativos, permitindo que os cidadãos sejam protagonistas das escolhas coletivas. A política precisa recuperar seu sentido mais nobre: transformar palavras como dignidade, saúde, educação, ciência, trabalho, paz, cultura, sustentabilidade e respeito à diversidade em experiências concretas na vida das pessoas.
O futuro exige coragem para mudar e humildade para reconhecer erros. Exige ousadia para enfrentar estruturas injustas e generosidade para construir pontes.
Somente assim poderemos superar a crise moral e humana que ameaça nossas instituições e empobrece o espírito coletivo de uma sociedade. A construção de um país melhor depende da capacidade de unir ética, solidariedade e compromisso com a vida.
Escreve, escrevo e pouca gente lê, por isso...
Sigo assim
separado de tudo
sem sombra e à sombra
acompanhado de mim
Sigo, enfim
acreditando nas pequenas batalhas
heroicas vitórias que ninguém assistiu.
Sigo aqui e ali
sem eira, nem beira
e apesar de ridículo
apesar de nada
apesar de anônimo
apesar da sombra
o coração e a coragem seguem
intactos como o dos jovens guerreiros
Essas são as minhas reflexões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




