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Reimont Otoni

Deputado federal (PT-RJ), presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara

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IA pode virar arma política de alta destruição

A explosão de deepfakes e mentiras geradas por IA ameaça eleições, destrói a confiança nas instituições e exige reação urgente do TSE e da sociedade

IA pode virar arma política de alta destruição (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Em janeiro deste ano, o Relatório de Riscos Globais 2026, do Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, alertou para a ameaça crescente da desinformação e da Inteligência Artificial (IA) à estabilidade democrática e às instituições. Não foi uma crítica aleatória.

As pesquisas mais recentes mostram que o Brasil, de modo acelerado, desponta como um território sensível e chave nesse processo. É o que revela o levantamento inédito do Observatório Lupa, na primeira edição do Panorama da Desinformação no Brasil, mostrando que o uso de IA para criar conteúdos falsos disparou no país. Divulgado esta semana, o estudo mostra que as informações falsas geradas com IA cresceram 308% no país, no curto espaço de um ano — de 2024 para 2025.

Os conteúdos falsos saltaram de 39 casos, em 2024, para 159, em 2025, com a IA transformada em poderosa e estratégica ferramenta do mais baixo marketing político que já vimos: quase 45% desses conteúdos, em 2025, já tinham esse viés.

O presidente Lula e o nosso governo são as maiores vítimas, com a direita liderando a produção da mentirada; o topo desse material enganoso são as deepfakes, aqueles vídeos falsos que parecem reais, simulando com perfeição até a voz das pessoas. Outro truque é editar uma fala usando trechos que distorcem inteiramente o que é dito.

Dois exemplos clássicos são o vídeo gerado por IA em que o ministro Fernando Haddad diz que “gosta de taxar os mais pobres”, comprovadamente falso, e a edição criminosa da fala em que Lula critica as elites por serem contra a educação para os pobres — editada de modo a parecer que era ele o contrário à educação para os pobres, justamente o presidente que mais investe em inclusão pelo ensino.

Com a proximidade das eleições, a tendência é piorar. O que parte da sociedade pressente é confirmado pela pesquisadora responsável pelo estudo da Lupa, Beatriz Farrugia. Segundo ela, os dados sugerem que a utilização de IA deve aumentar ainda mais e impactar negativamente as eleições gerais no país, apesar das resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Também está no radar do Observatório uma nova onda de desinformação sobre a segurança das urnas.

“Observamos que a narrativa de descredibilizar as eleições virou uma constante. Foi tão amplamente usada pela extrema-direita que a dúvida foi plantada sobre o sistema de voto”, analisa a pesquisadora. “Esse é justamente o objetivo de toda campanha de desinformação: provocar o caos e afetar o discernimento para as tomadas de decisões. Esse discurso [da ‘fraude nas urnas’] não é exclusivo do Brasil, ele também circula em outros países. Portanto, eu diria que é como a narrativa antivacina: é quase como uma categoria de desinformação”, completa.

O Relatório de Riscos Globais alerta que a IA está por trás não só da produção como do impulsionamento dos conteúdos falsos. Ou seja, tanto gera quanto dissemina as fake news, sendo, por isso, considerada uma das maiores ameaças imediatas à estabilidade global, corroendo a confiança nas instituições democráticas. Ela facilita a criação de ataques narrativos em larga escala, amplifica a desinformação, dificultando a distinção entre notícias reais e falsas, e promove bolhas de (des)informação, enfraquecendo a coesão social essencial para a democracia.

O uso de IA em processos eleitorais gera grande preocupação, com seu potencial de manipular a opinião pública de forma rápida e barata. O combate a esse marketing político criminoso, antissocial e antidemocrático exige esforços de todos. Temos pela frente uma verdadeira guerra em defesa dos princípios democráticos e éticos.

O TSE tem o dever de coibir as fake news e ter mais ação. Pode iniciar se debruçando sobre os estudos que cito e convocando os especialistas no assunto para se capacitar tecnicamente a responder ao desafio.

Nós, dos partidos progressistas, temos que tomar as ruas com esse debate, insistir no assunto, criar projetos de combate à mentira como arma política e de fortalecimento da Democracia.

Na abertura da Quaresma e no lançamento da Campanha da Fraternidade de 2026 (Moradia e Fraternidade), em entrevista à TV 247, defendi a ideia de um Jejum de Fake News. Não foi uma figura de linguagem, uma alegoria. É uma necessidade, um direito básico da Humanidade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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