Ideias para renovar as esquerdas
Livro de Juliano Medeiros propõe novas formas de pensar classe, identidade, família e cuidado para renovar o debate das esquerdas
Não pude resistir à aventura de comentar esta obra. De escrita fluida, de coesão que não permite fugas, de conteúdo articulado e pensamento absurdamente contemporâneo, Ideias para renovar as esquerdas, de Juliano Medeiros, publicada pela editora Contracorrente, embora tenha menos de uma semana de lançamento, já reúne páginas fundamentais para que compreendamos o momento presente e nos lancemos à militância de hoje e de amanhã — se não com mais respostas, ao menos com as perguntas necessárias a serem feitas.
Juliano foi militante do movimento estudantil, presidente nacional do PSOL e hoje preside a federação Rede-PSOL, além de coordenar a Rede Futuro, uma plataforma militante de articulação que reúne militantes e dirigentes de movimentos sociais e organizações de esquerda de toda a América Latina. É a partir desse lugar de observação e atuação que, recorrendo a autores importantes da filosofia, da sociologia, da economia e da ciência política, ele aguça o olhar — como quem maneja estetoscópios, lupas e microscópios — para contribuir com este tão necessário debate sobre o futuro das esquerdas, em especial na América Latina.
A obra começa com uma observação fundamental que, na maioria das vezes, parece escapar à percepção de dirigentes e lideranças de esquerda: insistindo em repetir velhas análises e estratégias já desgastadas, muitos não percebem que o mundo mudou — e que, tendo o mundo mudado, as mulheres e os homens de hoje também são outros.
Juliano desmonta o falso debate que opõe “lutas de classe” a “lutas identitárias”. Sem afirmá-lo diretamente, deixa claro que essa separação é uma grande bobagem, pois hoje “a classe trabalhadora e o conflito entre capital e trabalho são atravessados por outras formas de opressão que são igualmente funcionais ao sistema do capital, como o machismo, o racismo e a homofobia”.
Nesse sentido, o autor sugere que não basta pensar a redistribuição da riqueza restrita à sua dimensão econômica. É aqui que entram, por exemplo, a questão climática e a redução da jornada de trabalho. E, no debate sobre o tempo destinado ao trabalho, Juliano insere categorias que considero fundamentais para pensarmos a atuação das esquerdas no Brasil e no mundo: família e cuidado. Não vou me alongar em discorrer sobre esses pontos, pois considero essencial que você, que lê estas poucas e mal traçadas linhas, beba diretamente da fonte e leia o livro. Mas destaco que a luz que Juliano projeta sobre essas duas categorias deveria estar presente nos capacetes de mineiro que usamos em nossos movimentos diários, emitindo raios de atenção sobre elas. Trata-se de uma disputa de grande envergadura, especialmente no Brasil, frente à apropriação indevida que o bolsonarismo fez de ambos os conceitos — transformando “família” em bandeira de conservadorismo moral e “cuidado” em discurso esvaziado de qualquer compromisso com políticas públicas efetivas.
A obra, no entanto, destaca diversas outras agendas que podem contribuir para a renovação das esquerdas — entre elas, a reinvenção das formas de organização política, o enfrentamento da crise de representação e a construção de novas narrativas capazes de dialogar com as subjetividades contemporâneas. Mas concluo, a partir da leitura, que família e cuidado podem ser a chave para retomarmos o diálogo revolucionário com os homens e mulheres de hoje.
Vale a leitura. E, acima de tudo, vale o debate que essa leitura certamente provocará. Sem verdades absolutas, mas com as provocações necessárias — afinal, nos últimos anos, a adoção de uma práxis pela práxis tem absorvido boa parte da capacidade de pensar e refletir do nosso campo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




