“O Brasil já é alvo dos Estados Unidos”, afirma José Genoíno
Ex-presidente do PT diz que Washington mira as riquezas naturais brasileiras
247 – O ex-deputado federal e ex-presidente do PT José Genoíno afirmou que o Brasil já está na mira do “imperialismo americano”, mesmo sem que o governo federal tenha adotado uma postura de confronto direto contra os interesses de Washington. A declaração foi feita em entrevista à Sputnik Brasil, publicada nesta sexta-feira (26), na qual o dirigente petista analisou o cenário geopolítico, o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os erros históricos da esquerda brasileira.
“O Brasil é alvo. O Brasil já é alvo. O tarifaço prova isso. A conceituação de PCC [Primeiro Comando da Capital] e Comando Vermelho como organizações terroristas é uma demonstração desse alvo”, disse Genoíno à Sputnik Brasil.
Segundo ele, as ações militares dos Estados Unidos na Venezuela mostram a forma como Washington opera contra países que considera estratégicos. “Tem bomba, tem míssil, tem drone, tem destruição”, afirmou.
Para Genoíno, os Estados Unidos utilizaram sucessivamente as guerras contra as drogas, contra o terrorismo e contra a corrupção como instrumentos de pressão e desestabilização de governos progressistas na América do Sul. Apesar disso, avalia que o imperialismo norte-americano vem acumulando derrotas no cenário internacional.
Brasil na mira por suas riquezas naturais
Na avaliação do ex-presidente do PT, o Brasil se tornou alvo por sua dimensão territorial, sua força econômica, sua influência regional e suas riquezas naturais, como petróleo, terras raras, áreas agrícolas e biodiversidade.
“Quando o império entra numa crise de decadência, ele se torna muito agressivo, porque vai pro tudo ou nada, vai pro desespero, vai pra aventura, vai pro fascismo. Não tem limite”, declarou.
Genoíno também apontou vulnerabilidades internas do país, como a existência de um capitalismo dependente, sem autonomia nacional, e de setores da classe dominante que classificou como “vassalos”. Entre eles, citou o agronegócio, que, segundo ele, atua “sem sentimento nacional e que se vende para qualquer comprador”.
Ainda assim, o petista afirmou que a transição para um mundo multipolar não é uma escolha, mas uma realidade inevitável, embora ainda “confusa”.
Genoíno defende Lula 4 mais à esquerda
Ao avaliar o terceiro mandato de Lula, Genoíno disse que o governo apostou em uma política de conciliação e frente ampla, mas que “o resultado dessa tática não foi o melhor”. Para ele, um eventual quarto mandato do presidente deve fazer um balanço crítico da experiência atual.
“Lula 4 tem que fazer essa avaliação do Lula 3 e apostar num caminho mais à esquerda”, afirmou.
Como referência, Genoíno mencionou o segundo mandato de Lula, quando, após a crise do mensalão, o governo lançou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que ele considera uma inflexão em relação à agenda neoliberal.
Na entrevista, ele defendeu que o governo enfrente a privatização, a austeridade fiscal e “a financeirização sem limite”. Também afirmou que é preciso tocar no núcleo da concentração de riqueza no país.
“Nós temos que mexer nessa casa-mata da riqueza oligarca dos privilegiados históricos e de sempre do Brasil”, disse.
Para Genoíno, a esquerda precisa disputar a opinião pública para “ganhar corações e mentes” e fazer alianças eleitorais pontuais, sem abrir mão de seu programa.
Renovação da esquerda não é apenas questão de idade
Genoíno também criticou a ideia de que a renovação da esquerda dependa apenas da idade de seus quadros políticos. Segundo ele, a renovação deve ser ideológica, cultural e programática.
“Não podemos reduzir a renovação como se fosse uma questão etária. A questão etária tem que estar embutida numa questão ideológica, cultural, porque o futuro foi capturado pela subjetividade neoliberal. A renovação não é a gente se enfurnar numa rede social e achar que estamos renovados”, afirmou.
Mensalão, Judiciário e autocrítica
Durante a entrevista, concedida em sua casa, em São Paulo, Genoíno também tratou do escândalo do mensalão e disse que o PT precisa fazer autocrítica sobre sua relação com o sistema de justiça e com a grande mídia.
“Eu vivi intensamente a experiência do mensalão. Fui condenado pelo que eu era, não pelo que eu fiz. A gente cometeu ilusões em relação ao sistema de justiça, e o sistema de justiça promoveu a criminalização da política junto com a grande mídia”, declarou.
O mensalão foi o escândalo político que eclodiu em 2005, durante o primeiro mandato de Lula, a partir de denúncias de pagamento a parlamentares da base aliada em troca de apoio no Congresso. Genoíno foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal em 2012 e teve sua pena extinta pela Corte em 2014.
Na entrevista, ele classificou o julgamento no STF como um espetáculo político, com “ministros do Supremo em fila indiana para nos condenar sem nenhuma prova concreta”. Para Genoíno, o PT ficou na defensiva, o que teria facilitado a sequência de ataques que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff e na ascensão da extrema direita.
Os “monstrinhos alimentados pela cultura da Paulista”, afirmou, “viraram monstrões”.
“A esquerda tem que se livrar da toga, da batina e da farda”
Genoíno defendeu uma reforma profunda do Judiciário, incluindo mandatos para ministros do Supremo Tribunal Federal, e criticou o que vê como excesso de poder do Ministério Público.
“A esquerda tem que se livrar da toga, da batina e da farda. Tem que ser uma esquerda com relações com o movimento popular, que aposte na soberania popular como algo radical”, afirmou.
Segundo ele, a esquerda também errou ao tentar se alinhar à grande imprensa. Genoíno disse que não concede entrevistas à mídia tradicional e defendeu que o governo Lula valorize mais os veículos alternativos.
“Quando eles [grande imprensa] me ligam, eu digo: ‘Eu não falo com vocês. Eu só falo com a mídia alternativa’. Nasci de uma geração que lutava por causas e quero retomar a ideia de lutar por causas, por sonhos, e não por interesses, por privilégios, por situação material. Nunca foi tão correta aquela frase de Rosa Luxemburgo, de que é socialismo ou barbárie”, concluiu.



