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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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IGP-10 dispara em abril com pressões de combustíveis e atacado; Varejo mostra crescimento moderado

Os dados de comércio e serviços apontam para uma economia em expansão moderada, em linha com projeções de crescimento do PIB entre 1,5% e 1,6% para o ano

Posto de combustível (Foto: Reuters/Andrew Kelly)

A divulgação do IGP-10 de abril sinaliza uma mudança relevante no cenário inflacionário brasileiro. O índice, calculado pela FGV com base em preços coletados entre 10 de março e 10 de abril, registrou alta de 2,94% no mês, revertendo a deflação de 0,24% observada em março. Em 12 meses, o acumulado ainda é modesto, em 0,56%, mas a forte aceleração recente acende um alerta sobre a dinâmica de preços no curto prazo. 

A principal pressão veio do atacado, responsável por 60% do índice. O IPA avançou 3,81%, refletindo sobretudo a elevação dos preços de combustíveis, como gasolina, diesel e querosene, diretamente impactados pela alta do petróleo. Produtos agropecuários também contribuíram para a elevação, influenciados por fatores sazonais. O movimento indica um choque de custos relevante, com potencial de transmissão para os preços ao consumidor nos próximos meses. 

No varejo, o IPC subiu 0,88%, evidenciando que a pressão já começa a atingir o consumidor final, especialmente via transportes, que registraram alta expressiva de 2,31%. Esse repasse reforça a percepção de que o ambiente inflacionário se deteriorou em relação ao cenário mais benigno observado anteriormente. 

O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), com peso de 10% no IGP-10, também apresentou alta de 0,88%. Materiais e equipamentos subiram 0,98%, refletindo o impacto dos derivados de petróleo em insumos como tintas, asfalto e petroquímicos. Serviços e mão de obra igualmente mostraram aceleração, indicando disseminação das pressões inflacionárias no setor. 

Apesar de alguma melhora recente no cenário externo, com o preço do petróleo recuando para abaixo de US$ 100 e o real se apreciando para níveis próximos a R$ 5 por dólar, os efeitos do choque já se refletem na inflação doméstica. As expectativas também se ajustaram: a projeção de inflação para o ano subiu de 3,70% para 4,70%, segundo o relatório Focus. 

No campo da atividade, os dados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) mostram um crescimento moderado. O varejo avançou 0,6% em fevereiro frente a janeiro, abaixo das expectativas, e registra alta de apenas 0,2% na comparação anual. No acumulado em 12 meses, o crescimento é de 1,4%, sugerindo perda de fôlego. 

O varejo ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, apresentou desempenho marginalmente melhor na comparação mensal, com alta de 1%. No entanto, na comparação com fevereiro de 2025, houve queda de 2,2%, evidenciando volatilidade e fragilidade na demanda. 

Os dados de comércio e serviços apontam para uma economia em expansão moderada, em linha com projeções de crescimento do PIB entre 1,5% e 1,6% para o ano. O conjunto de indicadores sugere um cenário de atividade resiliente, porém sem dinamismo expressivo, ao mesmo tempo em que a inflação volta a ganhar força, pressionada principalmente por choques de custos. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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