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“Sem reindustrialização, o Brasil é condenado à quase irrelevância”, diz Elias Jabbour

Jabbour defende reindustrialização como eixo do projeto nacional e afirma que empregos industriais são centrais para enfrentar a falta de perspectiva

Elias Jabbour (Foto: Reprodução/YouTube/Podcast 3 irmãos)

247 - A reindustrialização do Brasil precisa voltar ao centro do debate político e econômico, na avaliação do professor de economia da Uerj e analista geopolítico Elias Jabbour. Para ele, a reconstrução da capacidade industrial do país é o caminho para gerar empregos de qualidade, recuperar a mobilidade social e enfrentar a falta de perspectiva que atinge sobretudo os jovens.

Em entrevista ao programa Ponto de Vista, da TV 247, Jabbour afirmou que o país atravessa uma crise prolongada de esvaziamento produtivo e de perda de dinamismo econômico. Segundo ele, esse processo impede o Brasil de oferecer horizontes concretos para a população. “O Brasil empobreceu muito nos últimos 10 anos, perdeu tração industrial e chegou a uma taxa de investimento de 16,8% do PIB”, disse. Na sua avaliação, esse quadro compromete a posição do país nas cadeias globais de valor e bloqueia avanços mais amplos no desenvolvimento nacional.

Ao concentrar sua análise na estrutura econômica, Jabbour sustenta que a perda de empregos industriais tem consequências que vão além da economia. “Ao não oferecer empregos industriais para a sua população, o Brasil acaba condenando essa população a não ter mobilidade social”, afirmou. Em seguida, associou esse cenário ao ambiente político e social do país: “Essa população não tem esperança, e isso acaba se transformando em um caldo de cultura por onde o fascismo se alimenta”.

Para o professor, a defesa de um projeto nacional não pode permanecer em nível abstrato. Ele argumenta que a reindustrialização deve funcionar como eixo organizador de uma estratégia de longo prazo, capaz de reposicionar o Brasil internacionalmente e, ao mesmo tempo, responder a demandas internas de emprego e renda. “Um projeto viável para o país é um projeto que coloque no centro do debate a necessidade de um projeto nacional de desenvolvimento”, declarou. Na sequência, reforçou o ponto que considera decisivo: “Nós temos a necessidade de ter como baliza desse projeto nacional o processo de reindustrialização do Brasil”.

Jabbour também atribui a esse processo uma função social direta. Segundo ele, a retomada industrial poderia abrir uma nova etapa para milhões de brasileiros. “Eu chamo de uma cruzada de geração, nos próximos 10, 15, 20 anos, de 10 a 20 milhões de empregos industriais no Brasil”, afirmou. Para ele, esse movimento permitiria que “as pessoas voltem a ter esperança, os jovens voltem a ter esperança”, além de recolocar a mobilidade social como realidade concreta.

Ao abordar os obstáculos para esse caminho, o economista citou o que considera amarras institucionais que limitam a ação do Estado. Entre elas, mencionou o arcabouço fiscal, a independência do Banco Central, o modelo de metas anuais de inflação e o tripé macroeconômico. Em sua leitura, sem rever essas bases, o país seguirá sem instrumentos para sustentar uma estratégia de transformação produtiva. “Um país que não pensa em termos de projeto nacional, que não pensa em termos de reindustrialização, é um país condenado à quase irrelevância”, afirmou.

A crítica de Jabbour também alcança o campo da esquerda. Ele disse considerar minoritária a corrente que trata o futuro do Brasil em termos de projeto nacional e menor ainda a parcela que enxerga a reindustrialização como elemento central dessa agenda. Por isso, defendeu uma disputa de orientação política e cultural dentro do próprio campo progressista. “As correntes nacional-desenvolvimentistas dentro da esquerda brasileira têm que travar uma luta cultural para que se tornem a corrente cultural hegemônica”, declarou.

Na entrevista, ele insistiu que a resposta à crise brasileira precisa partir de uma visão material do país, baseada em investimento, emprego e soberania produtiva. Sua formulação é que o enfrentamento da extrema direita não deve se limitar ao plano discursivo, mas se apoiar numa proposta concreta de reconstrução econômica. “A minha questão central é enfrentar a extrema direita a partir de uma visão de país que coloque a soberania nacional, a reindustrialização e a formação de uma nova maioria política de caráter patriótico e nacionalista como elemento balizador da minha ação política”, disse.

Ao resumir sua posição, Jabbour voltou ao ponto que atravessou toda a conversa: sem indústria, o Brasil perde capacidade de se desenvolver, de integrar sua população ao mercado de trabalho de qualidade e de oferecer um horizonte coletivo. Em sua síntese, a recuperação da base produtiva não é um tema setorial, mas uma condição para reorganizar o país. “A mobilidade social, que é o principal antídoto para enfrentar o fascismo, tem que se transformar de novo em uma realidade.”

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