Impopularidade une 3 presidentes da direita: Milei, da Argentina, Kast, do Chile, e Paz, da Bolívia, têm reprovação popular
'Maioria não quer reeleição de Milei e Antonio Kast só tem 2 meses de governo. Já Rodrigo Paz tem 6 meses de gestão e pedidos de renúncia', destaca Marcia Carmo
Os governos dos presidentes da Argentina, Javier Milei, da Bolívia, Rodrigo Paz, e do Chile, José Antonio Kast, enfrentam forte queda nos índices de popularidade, de acordo com pesquisas de opinião. De certa forma, os motivos para estes resultados são parecidos. Ajustes que desagradam a população. Na Argentina, a motosserra de Milei provocou queda no consumo, com fechamento de comércios, e na indústria. No mês de março, o consumo caiu 5% em relação ao mesmo mês do ano passado, de acordo com levantamentos do setor privado. O país registra 14 meses seguidos de dados negativos neste ramo da economia. Desde que Milei tomou posse, em 10 de dezembro de 2023, cerca de 24 mil empresas fecharam as portas, segundo a Fundação Fundar, especializada em políticas públicas e baseada em Buenos Aires. A entidade realizou o relatório a partir de dados oficiais. Com o fim de empresas, mais trabalhadores ficaram sem seus postos de trabalho. Nos últimos 12 meses, foram perdidos quase 130 mil empregos, informou a Secretaria de Trabalho da Argentina.
Universidade pública e manifestação
O quadro social transformou, na semana passada, uma gigantesca marcha em defesa da universidade pública em ato contra o governo Milei. Os organizadores da manifestação estimaram que 600 mil pessoas participaram da concentração. Nos bastidores da Casa Rosada reconheceram a magnitude do encontro, mas publicamente o governo estimou que pouco mais de 100 mil compareceram ao ato em Buenos Aires. A manifestação reuniu multidões em vários pontos do país. Na Argentina, a universidade pública é vista como patrimônio nacional e um dos poucos pontos de consenso entre a direita e a esquerda. Milei, porém, vetou a lei aprovada – duas vezes – no Congresso Nacional que prevê aumento de recursos para as universidades (aumento que representa menos de 1% do PIB). O caso deverá ser resolvido pela Suprema Corte de Justiça, onde os magistrados costumam ter diploma de universidade pública.
Insultos
Por estas e outras medidas, a popularidade de Milei caiu. Pesquisas apontam que seu apoio varia entre 30% e 38% e que cerca de 60% não votariam nele na eleição presidencial do ano que vem. Nos últimos tempos, Milei retomou seu estilo de insultar publicamente opositores, empresários, jornalistas e eleitores (ele costuma brigar nas redes sociais com eleitores que o criticam). No fim do ano passado, após as eleições legislativas, ele tinha prometido que se controlaria e não insultaria mais ninguém. A promessa não está sendo cumprida.
Bolívia
Seis meses após a posse do presidente Rodrigo Paz, opositor dos ex-presidentes Evo Morales e Luis Arce, multidões passaram a protestar contra seu governo. Nos últimos dias, movimentos indígenas e sindicais bloquearam as estradas de acesso a La Paz, onde está o Palácio presidencial Queimado. A sede da Presidência tem esse nome porque foi literalmente queimada por manifestantes no século 19 em um dos fatos que marcou a trajetória do país andino. Outro momento marcante foi em 1946 quando a revolta popular levou à queda do presidente Gualberto Villarroel, que acabou morto e seu cadáver pendurado na Praça Murillo, em frente ao palácio presidencial.
País com pouco mais de 12 milhões de habitantes, a Bolívia enfrenta escassez de combustíveis, inflação alta (cerca de 20% anual) e perda salarial.
Com a sua produção de gás em baixa, o país ficou com recursos limitados, o que já vinha sendo registrado antes da eleição de Paz. Mas a situação piorou.
Paz, que é filho de um ex-presidente de esquerda e que nasceu na Espanha durante o exílio do pai, aplicou medidas que levaram à reação dos movimentos indígenas e sindicais.
Trump
A tentativa de mudar as regras na reforma agrária em vigor foi um estopim para a atual revolta. O aumento salarial para ele e seus ministros, segundo informou a imprensa local, contribuiu ainda mais para turbinar a insatisfação e os pedidos de sua renúncia. Visivelmente abatido, ele disse, em entrevista a uma televisão argentina, que busca o diálogo com os manifestantes. Nas últimas horas, trocou ministros e recebeu apoio de Milei e do governo Trump. Cristopher Landau, que é da equipe do secretário de Estado, Marco Rubio, disse que “há uma tentativa de golpe de Estado a partir de uma aliança entre a política e o narcotráfico”. O respaldo externo não impediu que o vice-presidente boliviano e seus aliados no parlamento criticassem Paz abertamente. Não está fácil para ele reverter este quadro de insatisfação popular.
Chile
O presidente chileno José Antonio Kast tomou posse há pouco mais de dois meses, no dia 11 de março. Hoje, segundo pesquisa da Cadem, de Santiago, somente 36% dos chilenos o apoiam. O índice de rejeição é de 57%, de acordo com o mesmo levantamento. Kast, amigo de Milei, também já fez mudanças no seu ministério, na tentativa de recuperar apoio popular.
Estudantes
Nos últimos dias, foram realizados protestos multitudinários de estudantes contra suas medidas de arrocho. A polícia os reprimiu fortemente. Em sua gestão, o presidente chileno já fez discurso na fronteira com o Peru, rodeado de militares, onde mandou construir valas para impedir a passagem de imigrantes dos países vizinhos. Também acionou um avião da Força Aérea chilena que transportou imigrantes expulsos. As medidas, que fazem parte de suas promessas de campanha, não contribuem, porém, para melhorar sua imagem. Desde o retorno da democracia no Chile, em 1990, após 17 anos de ditadura de Augusto Pinochet, Kast, da extrema-direita, é o primeiro presidente eleito que votou pela continuidade do ditador no plebiscito de 1988. No plebiscito, venceu o ‘no’ (não) a Pinochet, abrindo caminho para a eleição presidencial pelo voto direto, popular.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




