Impostura pública
O abuso extrapola a areia, já não mais no que diz respeito a preço. Comerciantes do asfalto estão fazendo das ruas extensão dos seus estabelecimentos
É sabido que a mudança climática vem afetando a vida de todas as espécies do planeta em diferentes aspectos. Num inverno do Rio de Janeiro, o carioca viu o termômetro digital de uma rua de Ipanema marcar 11 graus. Foi chocante, tanto a friaca na praia da garota mais cantada no mundo como a constatação de que a mão grande do uso predador do capital estava roubando a nossa especiaria tropical.
Agora chegou o Verão, com letra maiúscula, e começaram as implicâncias com as altas temperaturas. O noticiário impresso e digital alardeia os 40 graus como se fosse novidade. Em 1955 o grau foi título de filme, e de música em 1992. Em 1941, a marchinha Allah-lá-ô, conhecida como ‘Ai que calor’, foi e segue sendo uma das mais tocadas no carnaval do Rio de Janeiro. Vêm de longe as altas temperaturas nesse sudeste. Em 1887, consta que os termômetros marcaram 29 graus em alguns pontos da região.
Todo esse prolegômeno é para dizer que o que esquenta mesmo o verão são as imposturas públicas que pegam carona nessa estação tão brasileira. Em Porto de Galinhas, sul de Pernambuco, casal de banhistas e barraqueiros se enfrentaram em luta corporal por discordância de combinado no preço do aluguel de cadeira e guarda-sol. Os dois clientes saíram feridos, um foi parar no hospital, e todos acabaram na delegacia. O caso fincou nas areias a bandeira vermelha de alerta contra abusos.
A Secretaria Nacional do Consumidor, vinculada ao Ministério da Justiça, anunciou a elaboração de um manual de boas práticas para vendedores e banhistas. Foram acionados Procons e Secretarias Municipais de Ordem Pública, Seop. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes determinou aos técnicos da Seop estudo sobre base jurídica para tabelar os preços dos serviços oferecidos nas praias, e acabar com o que chamou de “enorme abuso nos preços”. Medida apreciada por turistas e locais, com razão. No Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste da cidade, é de R$ 850,00 a diária de um sofá na areia, como se já não fosse uma aberração um sofá na areia. Em Ipanema, barraqueiro está cobrando R$ 100,00 por espreguiçadeira.
Mas o abuso extrapola a areia, já não mais no que diz respeito a preço. Comerciantes do asfalto estão fazendo das ruas extensão dos seus estabelecimentos. Em Ipanema há um caso literal. Conhecida rede de bar e restaurante, localizado na esquina da rua Farme de Amoedo com a avenida da praia, ocupou com mesinhas e guarda-sóis uma faixa da rua destinada ao trânsito de veículos. Não podendo tomar toda a calçada, deu o jeitinho de transformar outro trecho da coisa pública em seu espaço privado. Informação de funcionário da Subsecretaria de Operações, ligada à Secretaria Municipal de Ordem Pública, que coordena e fiscaliza o ordenamento urbano, diz que o proprietário tem autorização. Pode isso, prefeito? Se pode, cai muito mal, seja ou não em ano eleitoral.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



