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Helena Iono

Jornalista e produtora de TV, correspondente em Buenos Aires

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Indio Solaro morre para viver

Indio Solari morre para dar vida e nova canção ao povo argentino

Indio Solari (Foto: Reprodução I Divulgação)
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A morte do cantor de rock argentino e compositor, Índio Solari, um ídolo cultural, social, filosófico e político que emanava amor, resistência e solidariedade juvenil, emergindo desde 1976 nos anos sombrios da ditadura, capaz de aglutinar e comover multidões, impactou o povo argentino, o despertou para a vida e o renascimento de sua história e consciência. Índio Solari morreu para dar visibilidade aos ausentes.

Em 18 horas, durante este domingo histórico, 7 de junho, 1 milhão de pessoas provindas de todo o país caminharam, a brados e cantos, por 90 quarteirões da grande avenida na Vila Domínico, em Avellaneda, rumo ao velório do ídolo, no Estádio José Maria Gatica, dentro do Parque dos Direitos do Trabalhador. As portas, para um ato de tal dimensão histórica, foram abertas e organizadas pelas gestões peronistas da prefeitura local e do governo da Província de Buenos Aires, Axel Kicillof. O governo nacional não concedeu a honra a um prócere da dimensão de Índio Solari de ser velado no Congresso Nacional. Independentemente da ideologia, personagens populares da dimensão de Maradona, Mercedes Sosa, receberam velatório de Estado como Peron, Evita, Nestor Kirchner e outros grandes. Tal negativa, não conteve, ao contrário, estendeu a decisão dos fãs e da cidadania em confluir em avalancha popular ao estádio Gatica e dar protagonismo histórico ao fenômeno Índio.

Tristeza e lágrimas convertidas em alegria e vontade de luta coletiva

Para ter dimensão da força comovedora desta homenagem popular, só estando presente, ou navegando entre gravações realizadas por Rádios ou TVs, C5N, Ar12 e tantas outras vozes independentes da cultura. Muitas lágrimas, mas muitos abraços de alegria pelo grande reencontro de um povo consigo mesmo, como nos momentos em que o Índio Solari e sua banda musical Ricotera juntavam multidões energéticas, davam mensagens de amor e superação em momentos difíceis. Juventude em massa, fãs de segmentos transversais, trabalhadores e classe média; famílias inteiras, dado que Índio abarcou várias idades e três gerações. Suas canções animavam avós e netos da juventude roqueira argentina, dita ricotera.

Os pronunciamentos e cartazes na fila do velório dizem tudo.

Jovens que diziam: “Indio me traz a nostalgia do que não vivi”.

“Nos fez sentir que vale a pena e que somos todos iguais”

“Um artista a favor do povo”

“O amor se vai transmitir. Amo a escola pública. Hoje é um dia mobilizador!”

“É um momento complicado, nos sentimos órfãos. Que o povo deixe de votar com ódio. Obrigada índio, você conseguiu unir o povo.”

“Índio deu visibilidade aos ausentes”

“Ele fez sorrir aos filósofos, e chorar aos burgueses”

“Fora Milei!”, “Viva Peron!”

“Cristina Livre!”

A frase mais ouvida foi: “O Indio me salvou a vida”. Muitos casos expressos com a emoção de Pitu Salvatierra, líder de bairro, deputado (UP) da cidade de Buenos Aires.

Marcelo Figueira, biógrafo e amigo do Índio comenta nesta entrevista: “Índio foi desenvolvendo pedagogia com todas essas pessoas desamparadas, desprotegidas que não encontravam contenção. Dizia-lhes para tomarem cuidado, pois o Estado não os iria ajudar”. “Ele era um líder social e político, porque além da sua obra, ele gerou liderança com seus fatos, com gestão, autogestão e exemplo.”

Axel Kicillof, governador da Província de Buenos Aires disse: “Despedimos ao Índio com uma enorme tristeza. Ele foi muito mais que um artista; foi um herói argentino. Deu voz, ideias e poesia a muitas gerações. Nos resta sua obra e suas bandeiras: a busca da verdadeira liberdade, a alegria e a convicção de que sempre há um futuro.”

A sensação de perda de um representante do povo é maior, sobretudo agora, diante da necessidade de uma liderança política de massas com programa alternativo para superar o difícil momento atual. Mas, o Índio deixou um legado mobilizador para o povo argentino, peronista, seguir cantando pensando uns nos outros.

Veja sua canção: Encontro com um anjo amador . Aí ele diz: “Mais de uma vez me ouvi dizer que na resistência reside toda a nobre coragem da vida. Não posso mais cumprir as façanhas que prometi. Só esperarei cantando”. Outra das canções muito amadas é Juguetes perdidos (Brinquedos perdidos) com versos que transcenderam, como: “Bandeiras no teu coração. Eu quero vê-las, ondeando. Brilhe ou não o sol. Bandeiras vermelhas, bandeiras negras, de lenço branco no teu coração.”....”Quando a noite é mais escura, nasce o dia no teu coração”. Tudo isso, o ritmo do rock argentino.

Quem era Índio Solari

Índio Solari teve uma importância cultural-social nacional gigantesca. Não é popularmente conhecido no Brasil e no mundo como merecia. Talvez por sua opção pessoal e da banda Ricotera de não optar pelo esquema artístico empresarial.

Índio Solari cantava muitas das suas poesias e composições com recitais chamados “Missas ricoteras”, junto com a banda de rock argentino “Patricio Rey e seus Redonditos de Ricota” até 2001 que marcou o seu fenômeno. Já nos últimos anos atuou com a banda Os Fundamentalistas do Ar Condicionado (desde 2004). Há 10 anos foi vítima do início da enfermidade de mal de Parkinson. Isso foi limitando sua atuação pública, mas não deixou de cantar, pensar, escrever e opinar. Reservado e dedicado à vida familiar, à sua companheira de vida e ao filho único, amou o ser humano compondo e cantando canções; alentou os marginalizados pelo sistema a viver, a amar e a se respaldar no coletivo. Índio deixou uma obra escrita: “Onde houver dor, haverá canções”

Alguns dos pensamentos emitidos pelo Índio Solari em suas entrevistas: “Música e revolução. Que surja algum gênero que volte a recarregar seu pensamento. Música é um difusor de ideias suficientemente ambíguas; que o músico não se transforme em um tirano de si mesmo e dos demais. Eu creio que é preciso usar a música para combate, não para entretenimento. Não me parece certo estar entretendo as pessoas, enquanto lhes mete as mãos nos bolsos.” ... “Prefiro reiterar algo que já disse há algum tempo. A última que disse, tem a ver com tudo o que está ocorrendo agora”. Uma das suas frases que ecoou forte é: “Violência é mentir”. Ou, “mentiras ao gosto do poder real”. Veja Análise de Lijalad no ElDestape

Muitos conceitos sobre a vida e a morte deixadas pelo Índio aos seus fãs nos últimos anos, fazem recordar o poeta espanhol Miguel Hernández, “eu quero morrer vivendo”. Ou seja, o seu legado transcende a morte física, e a sua obra de amor se reproduz na forma de vida.

Em uma de suas entrevistas disse: “Dizem que sou K.... Sim, sou um pouco kirchnerista, assim como sou um pouco peronista, um pouco comunista e um pouco socialista ... O que não sou é neoliberal”.

Divulgou-se um dos escritos finais do Índio Solari que, no seu aparente silêncio, deixava mais sólido e explícito o seu legado de ideias:

“Na Argentina, ouve-se o tilintar de pratos vazios.

Um som áspero.

Como elevadores despencando em hospitais escuros.

Como giz quebrado em lousas desgastadas em escolas que já não conseguem se manter.

E enquanto os que estão no topo vendem histórias financeiras mirabolantes com sorrisos televisionados, lá embaixo, a realidade devora as pessoas.

Aposentados contam moedas como se fossem balas que sobreviveram a uma guerra perdida.

Suas vidas foram lentamente liquefeitas.

Primeiro os remédios.

Depois a comida.

Depois a dignidade de ter que escolher entre aquecimento ou um pacote de arroz.

E ainda assim, pregadores da austeridade aparecem, dizendo que o sofrimento “era necessário”.

Como se a fome fosse matéria de universidade.

Como se ver idosos vasculhando descontos fizesse parte do equilíbrio fiscal.

Os trabalhadores também não conseguem fechar as contas.

Os salários duram menos que um sinal verde.

O consumo despencou porque as pessoas não estão mais comprando: estão apenas sobrevivendo.

A geladeira parece um teatro abandonado depois do saque.

E nas ruas, as persianas abaixadas como pálpebras cansadas.

Construções paralisadas.

Fábricas respirando pelos canos.

Lojas vazias onde antes se ouvia o tilintar de moedas e o cheiro de pão quente.

A recessão avança como fuligem grudada nas paredes.

Silenciosa.

Infiltrando-se nos lares enquanto alguns influenciadores do mercado comemoram números como se a economia fosse um videogame sem cadáveres.

Eles também meteram serrote elétrico na educação e na saúde.

As universidades estão sufocadas.

Os hospitais universitários lutam por suprimentos básicos.

Professores exaustos lecionam em meio a orçamentos devastados e telhados com goteiras.

Mas na televisão falam de liberdade.

Sempre liberdade.

Mesmo que milhões estejam cada vez mais aprisionados pelo medo, pelas dívidas e pela ansiedade de perder o emprego.

E então vem o grande truque do circo:

fazer você acreditar que crueldade é bravura.

Que insultar é governar.

Que destruir é ser honesto.

Que a austeridade imposta aos corpos exaustos do povo é uma espécie de purificação divina.

Há fanáticos aplaudindo o fogo enquanto a fumaça se infiltra por baixo de suas portas.

Pessoas defendendo carrascos porque aprenderam a odiar mais do que a pensar.

E o mais sombrio não é o personagem delirante gritando no palco.

O que é verdadeiramente sombrio é uma sociedade exausta, fragmentada, furiosa…

que começou a normalizar a destruição da alma dos mais vulneráveis, enquanto chama esse colapso de “mudança”.

A Argentina não está apenas ficando sem dinheiro.

Está ficando sem alma.

Sem paciência.

Sem futuro.

E cuidado…

porque quando um povo deixa de sentir a dor dos outros,

o monstro deixa de governar de cima.

Ele começa a viver dentro de cada um.

INDIO

Últimos escritos

Manifestação gigantesca em Buenos Aires, "Nenhuma Menos"

Dois dias antes da morte do Índio Solaris, no dia 03 de junho houve outra gigantesca manifestação em toda Argentina, sobretudo na praça do Congresso da Nação contra o brutal feminicídio da jovem Agostina (Córdoba) e de tantas outras vítimas. Não foi uma manifestação de feministas, mas de mulheres e homens que diziam: BASTA! de feminicídio, violência social-econômica contra os pobres. Basta de justiça patriarcal de classe, cúmplice da violência do poder político corrupto! Chuvas de cartazes de protestos alçados por jovens adolescentes!! “Quem de nós morrerá em 30-40 horas?” “Porque questionam minha vida, mais que a minha morte?”. “Que ser mulher não nos custe a vida”. “É um país tão pobre que gritamos Gool mais forte do que Injustiça”. “Nem uma a menos. O governo é responsável”. “Não queremos que o patriarcado manipule a justiça”. “Cristina Livre!”

Hoje, 10 de junho, ao se completar 1 ano da condenação da ex-presidenta, Cristina Kirchner, prevê-se outra manifestação massiva frente à sua prisão domiciliar na rua San José, 1111; simultaneamente, haverá protestos de movimentos sociais e sindicatos em várias cidades do país, exigindo sua libertação.

A dimensão dos protestos na Argentina no arco de uma semana, após o anterior dos estudantes universitários contra a não aplicação da Lei do financiamento da educação, reiterada pelo Congresso, estão sinalizando uma decisão popular de por um limite com o sinal vermelho em todos lados. O povo argentino nas ruas sinaliza um Basta! à violência econômica, institucional, cultural e de gênero. Basta à supressão de direitos, trabalho, aposentadoria, educação, saúde e moradia. A morte do Índio sintetizou o todo o estado social. Sacudiu a inércia e a memória para que o povo e as lideranças peronistas se ponham de acordo para recuperar os bons tempos de justiça e igualdade social de Perón/Evita e Néstor/Cristina.

Para finalizar esta homenagem, transcrevo um pensamento certeiro de J. Posadas, em novembro de 1980, que permite compreender a função e a dimensão histórica que cumpriu o Índio Solaris, a ponto de morrer movendo milhões de argentinos para lutar pela vida e pelo futuro:

“O canto é parte integrante da atividade e da luta pelo progresso da sociedade humana e, consequentemente, para o progresso rumo a relações superiores e harmoniosas entre os seres humanos, com a natureza e o universo. O canto desempenha a função de dar às lutas o sentido harmonioso da vida. Contribui a sentir que a luta não se trata de uma conquista imediata para melhorar a vida, mas para dar o sentido de uma necessidade para superar as limitações da vida. É assim que o canto harmoniza e eleva a qualidade, o sentimento, a consciência do lutador no objetivo que se persegue; o faz sentir representante consciente do porvir da humanidade”

“Toda luta pelo progresso humano foi acompanhada pelo canto; a morte foi sentida e expressada também pelo canto. Era o modo pelo qual se expressava o sentimento da morte, mas não o fim da vida. O canto cria e mantém a ligação unitária entre a morte e a vida. O canto não é uma atividade humana alheia à luta de classes. Ele provém das origens da vida, mas é na luta de classes que assume conotações claras como continuidade da luta, do movimento harmonioso rumo ao progresso da humanidade”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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