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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Inferno astral do STF tem nome: Master

A sucessão de decisões no STF abre o Banco Master desloca o foco da investigação para a Corte

Segurança do lado de fora do Banco Master, após a prisão do acionista controlador do banco, Daniel Vorcaro, em São Paulo - 18 de novembro de 2025 (Foto: REUTERS/ Amanda Perobelli)

A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, deveria ter encerrado um capítulo sensível do sistema financeiro brasileiro. O que se seguiu, porém, foi a abertura de um processo muito mais amplo, com ramificações financeiras, institucionais e políticas que passaram a tensionar não apenas o mercado bancário, mas o próprio sistema de Justiça. A sequência de desdobramentos — que incluiu a posterior liquidação da REAG e do Will Bank, braço digital do mesmo conglomerado — transformou um episódio bancário em um teste de resistência das instituições.

Os números dão a dimensão do problema. 

Estimativas consolidadas ao longo das investigações indicam que as operações envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) superam R$ 12 bilhões, valor que expõe o grau de comprometimento entre o banco liquidado e uma instituição financeira pública. Além disso, projeções preliminares apontam que a quebra do Master pode gerar impactos da ordem de R$ 40 bilhões, com possível acionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Não se trata de cifras abstratas: são recursos capazes de afetar a estabilidade do sistema financeiro e a confiança nos seus mecanismos de proteção.

Nesse contexto, o BRB deixa de ser coadjuvante e passa a ocupar posição central. A instituição manteve relações financeiras relevantes com o Banco Master, incluindo operações que colocaram seu então presidente, Paulo Henrique Costa, no núcleo das apurações. 

A presença do BRB no caso não é acessória; ela conecta o escândalo ao setor público e amplia a responsabilidade institucional. Ignorá-la é reduzir o problema a uma falência privada, quando os fatos apontam para algo mais complexo.

As investigações da Polícia Federal, conduzidas no âmbito das operações Compliance e Compliance 2.0, avançaram sobre o coração probatório do caso. Foram apreendidos dezenas de celulares, computadores, documentos, dinheiro em espécie, veículos e registros eletrônicos. 

É a partir desse material que se podem reconstituir fluxos financeiros, cadeias decisórias e eventuais ilícitos. Em processos dessa magnitude, a cadeia de custódia não é formalidade: é a espinha dorsal da credibilidade investigativa.

A partir do início de 2026, contudo, o caso passou a produzir efeitos diretos sobre o Supremo Tribunal Federal. O ministro Dias Toffoli, relator de procedimentos relacionados ao escândalo, assumiu protagonismo incomum na condução da apuração. 

Suas decisões — da retirada inicial da custódia das provas da Polícia Federal, com repasse à Procuradoria-Geral da República, ao posterior recuo parcial; da determinação de acareação entre personagens centrais em fase considerada precoce; à nomeação direta de quatro peritos de sua escolha pessoal para analisar o conteúdo dos aparelhos apreendidos — passaram a ser observadas não apenas sob o prisma jurídico, mas também sob o impacto institucional que produziam.

O desconforto se intensificou com fatos ocorridos no entorno temporal da liquidação. Poucos dias antes da decisão do Banco Central, Toffoli realizou uma viagem a Lima, no Peru, entre 28 e 30 de novembro de 2025, para assistir à final da Copa Libertadores, em 29 de novembro. A viagem ocorreu em aeronave particular utilizada por empresários e contou com a presença de Augusto Paredes, advogado e sócio de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master naquele momento já submetido a severa pressão regulatória. O episódio ganhou relevância não pelo futebol, mas pela coincidência temporal e pelas relações diretas com o núcleo empresarial investigado.

Nas semanas seguintes, vieram à tona informações sobre relações financeiras envolvendo familiares do ministro e estruturas de investimento associadas ao Banco Master, incluindo aportes em um empreendimento turístico do tipo resort. Em entrevista pública, o senador Alessandro Vieira afirmou que o empreendimento seria, na prática, de propriedade do próprio Toffoli — declaração grave, feita de forma categórica, que ampliou a cobrança por esclarecimentos institucionais. 

Até o momento, tais afirmações permanecem no campo do debate político e jornalístico, sem respostas proporcionais à sua gravidade.

Aqui, a filosofia deixa de ser capa de livro empoeirado e passa a cumprir uma função que o bom jornalismo reconhece bem: disciplinar a mente investigativa contra o autoengano do poder. 

Platão não escreveu sobre abstrações etéreas, mas sobre mecanismos de defesa diante da luz. A alegoria da caverna descreve um padrão recorrente: quando a verdade ameaça a ordem, ela não é enfrentada — é administrada, relativizada ou deslocada. Para o jornalismo, essa lição é método: desconfiar das zonas de conforto institucionais, insistir no fato verificável, resistir às versões convenientes.

Nietzsche aprofunda essa intuição ao lembrar que a verdade exige força para não perder o controle do enredo. No exercício do poder, essa força é rara. A verdade cobra custos reais — reputacionais, institucionais, políticos — e, por isso, tende a ser contida por tecnicalidades, excepcionalidades procedimentais e rearranjos de competência que preservam a aparência de legalidade enquanto produzem opacidade.

O caso Banco Master tornou-se, assim, mais do que um escândalo financeiro. Ele inaugurou o inferno astral do STF em 2026, ao colocar a Corte no centro de uma narrativa em que decisões judiciais passaram a ser lidas também como gestos políticos. O risco é evidente: quando a Suprema Corte parece hesitar diante da verdade factual, não é apenas um processo que se fragiliza, mas a confiança pública na instituição.

Algo precisa ser feito — e com urgência. 

O Supremo Tribunal Federal tem papel decisivo na consolidação do Estado Democrático de Direito no Brasil pós-2022. Preservar essa conquista exige transparência, previsibilidade e apego rigoroso aos ritos. Não para satisfazer críticos ocasionais, mas para proteger a própria Corte de um desgaste que não lhe convém nem lhe faz justiça.

Platão nos alertaria: está na hora de sair da caverna. Nietzsche, com seu desprezo característico, acrescentaria que isso exige uma coragem que poucos possuem. A Alegoria da Caverna permanece cruelmente atual — continuamos odiando quem nos arrasta para a luz do sol e preferindo as ilusões confortáveis que nos mantêm acorrentados. 

A frase falsamente atribuída a Nietzsche apenas escancara o óbvio: somos, em nossa maioria, fracos demais para engolir a verdade sem o adoçante das mentiras. O problema maior é quando quem vende o adoçante das mentiras é o próprio Banco Master.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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