Inflação resiste, Banco Central endurece tom e tensão externa volta a pressionar mercados
Pressões inflacionárias persistentes e riscos externos crescentes reforçam cenário de juros altos por mais tempo no Brasil
Na quinta-feira, 26 de março, os mercados voltaram a operar sob maior cautela, refletindo a retomada das tensões no Oriente Médio, ainda sem solução clara. O movimento pressionou ativos globais e sustentou o preço do petróleo em patamares elevados, adicionando incerteza ao cenário inflacionário internacional. No Brasil, o foco voltou-se para uma bateria relevante de indicadores, com destaque para o IPCA-15 e o Relatório de Política Monetária do Banco Central.
O IPCA-15, que mede a prévia da inflação oficial, veio acima das expectativas do mercado. Entre 15 de fevereiro e 15 de março, o índice registrou alta de 0,44%, desacelerando em relação aos 0,84% do período anterior, mas ainda superando a projeção de cerca de 0,29%. Em termos anuais, a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,10% para 3,90%, permanecendo dentro da banda da meta, porém ainda em nível elevado.
A composição do índice reforça um quadro de inflação persistente. A difusão — que mede o percentual de itens com alta de preços — subiu de 62,7% para 63%, indicando que a pressão inflacionária segue disseminada. Embora alguns núcleos de inflação tenham apresentado leve melhora, com desaceleração de 0,66% para 0,35% na margem, a inflação subjacente em 12 meses ainda gira em torno de 4,3%, sugerindo um componente estrutural relevante.
O grupo de alimentação voltou a exercer pressão significativa. Itens como açaí (alta de 29%) e feijão (20%) lideraram os aumentos, acompanhados por elevações em ovos, leite e carnes. Fatores climáticos e possíveis efeitos cambiais ajudam a explicar esse movimento. Em paralelo, despesas pessoais avançaram 0,80%, com destaque para serviços, enquanto passagens aéreas subiram expressivos 5,94%, reforçando a rigidez da inflação de serviços.
Esse conjunto de dados afasta a leitura de um cenário benigno para a inflação. Apesar de alguma desaceleração pontual, a dinâmica segue marcada por pressão disseminada e níveis ainda desconfortáveis para a autoridade monetária.
O Relatório de Política Monetária do Banco Central do Brasil confirmou esse diagnóstico. A instituição revisou para cima suas projeções de inflação para 2026, de 3,5% para 3,9%, sinalizando um ambiente mais desafiador. Segundo o Banco Central, aumentou significativamente o risco de a inflação ultrapassar o teto da meta, com maior probabilidade de surpresas inflacionárias do que de quedas mais intensas.
O documento também destaca o impacto do cenário externo, especialmente a alta do petróleo, sobre as expectativas inflacionárias. Ao mesmo tempo, aponta para uma atividade econômica ainda relativamente equilibrada em 2026, com crescimento estimado entre 2% e 2,5%, após um ano mais aquecido em 2025. Para 2027, no entanto, o modelo do Banco Central já sugere um hiato do produto negativo, indicando desaceleração econômica mais clara.
Em termos qualitativos, a mensagem do relatório é direta: a inflação não está fora de controle, mas permanece elevada, disseminada e resistente à convergência para níveis confortáveis. Trata-se de um quadro que exige cautela adicional na condução da política monetária.
Diante desse cenário, as perspectivas para a taxa Selic tornam-se mais restritivas. Com a taxa atualmente em 14,75%, o espaço para cortes adicionais parece limitado. Um cenário plausível passa a ser o de reduções marginais — possivelmente até 14% —, ainda assim condicionadas à evolução do quadro inflacionário e das incertezas externas.
Em resumo, a combinação de inflação persistente, piora nas projeções e riscos geopolíticos elevados sugere que o ciclo de flexibilização monetária, se ocorrer, será mais lento e cauteloso do que o inicialmente esperado. Para quem esperava juros caindo com facilidade, o Banco Central basicamente disse: não contem com isso tão cedo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



