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Endividamento das famílias cresce e governo busca crédito mais barato

Alta no uso de cartão e crédito pessoal pressiona renda e leva Planalto a estudar medidas para aliviar dívidas e estimular linhas mais acessíveis

Endividamento das famílias cresce e governo busca crédito mais barato (Foto: © Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

247 - O avanço do endividamento das famílias brasileiras, impulsionado principalmente pelo uso de cartão de crédito e empréstimos pessoais, acendeu um alerta no governo federal, que agora avalia medidas para reduzir o comprometimento da renda e incentivar linhas de crédito mais baratas, segundo reportagem do jornal O Globo. O diagnóstico interno aponta que houve uma migração relevante para modalidades mais caras, o que tem agravado a sensação de sufoco financeiro entre os consumidores.

A avaliação do Palácio do Planalto é que o aumento das dívidas impacta diretamente a percepção econômica da população e também a popularidade do governo. Dados do Banco Central indicam que o estoque de financiamentos no cartão de crédito cresceu 16,1% nos últimos 12 meses, enquanto o crédito pessoal não consignado apresentou ritmo semelhante. Já o rotativo do cartão — considerado a linha mais cara — avançou 31% no mesmo período.

Esse movimento ocorre em paralelo à perda de atratividade de opções mais baratas, como o crédito consignado. Modalidades com desconto em folha, especialmente voltadas a aposentados do INSS, ficaram estagnadas, enquanto outras, como a antecipação do saque-aniversário, perderam espaço. O governo vê nesse cenário a necessidade de estimular uma migração inversa, incentivando o uso de linhas mais acessíveis para aliviar o orçamento das famílias.

Entre as alternativas analisadas está o fortalecimento do consignado privado, que tem apresentado crescimento após medidas recentes, embora ainda tenha um volume inferior ao de operações com aposentados. O estoque desse tipo de crédito supera R$ 83 bilhões, cerca de um terço do segmento voltado ao INSS.

No caso do consignado, o governo estuda atuar contra taxas consideradas abusivas. A proposta de estabelecer um teto de juros perdeu força, e a estratégia em discussão passa a ser a identificação e punição de preços considerados fora do padrão de mercado, com base na média das taxas praticadas.

Apesar da criação de regras para limitar o crescimento das dívidas no cartão de crédito, a avaliação interna é de que a política teve eficácia limitada. O saldo dessa modalidade aumentou 31% desde o fim de 2023, antes da entrada em vigor da medida. As taxas seguem elevadas: passaram de 442% ao ano no final de 2023 para 424% em janeiro deste ano, mesmo após leve recuo recente.

O endividamento total das famílias também avançou. Em dezembro de 2025, chegou a quase 50%, ante 48,4% no mesmo período do ano anterior. Já o comprometimento da renda com dívidas bancárias subiu de 27,5% para 29,2% em um ano, reforçando a pressão sobre o orçamento doméstico.

Estudos que circulam entre técnicos do governo apontam que o ganho real de renda do trabalho pode cair pela metade quando considerado o peso das dívidas. Esse cenário, combinado com outros fatores, como a desaceleração na queda dos preços dos alimentos e a redução do impacto positivo da inflação mais baixa, tem limitado os efeitos de medidas econômicas recentes.

A preocupação levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a reunir integrantes da equipe econômica e estrategistas políticos para discutir possíveis soluções. A expectativa é que propostas sejam apresentadas nos próximos dias.

Entre os pontos analisados está a percepção de que políticas de controle de juros, como as aplicadas ao consignado para aposentados, podem ter reduzido a oferta de crédito. Além disso, investigações sobre fraudes em descontos associativos no INSS também teriam contribuído para afastar consumidores dessas linhas, empurrando-os para alternativas mais caras.

No governo, a prioridade declarada é reduzir o comprometimento da renda das famílias e aliviar a sensação de pressão financeira, ainda que isso possa ter como efeito indireto o estímulo ao consumo. Há também uma avaliação crítica em relação à política monetária, com o entendimento de que a manutenção de juros elevados contribui para o aumento do endividamento no país.

Diante desse cenário, o Planalto busca um equilíbrio entre ampliar o acesso ao crédito e reduzir os custos para os consumidores, em uma tentativa de reorganizar as finanças das famílias e melhorar o ambiente econômico.

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