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Diesel caro e escasso pressiona safra e pode elevar preço dos alimentos

Alta do petróleo após conflito internacional afeta transporte, colheita e plantio, com impacto direto no agronegócio brasileiro

Colheita de milho (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)

247 - A escalada nos preços internacionais do petróleo em razão das agressões militares de Estados Unidos e Israel ao Irã começou a provocar efeitos diretos no abastecimento de diesel no Brasil, afetando regiões produtoras e gerando preocupação no setor agropecuário. A escassez e o encarecimento do combustível já impactam o transporte de grãos e o funcionamento de máquinas agrícolas, em um momento crucial entre a colheita e o plantio da segunda safra, informa o jornal O Globo.

O problema atinge diversas regiões do país, do Sul ao Centro-Oeste, e já levanta alertas dentro do governo sobre possíveis reflexos nos preços dos alimentos, especialmente do milho, insumo essencial na ração animal, o que pode pressionar o custo das carnes. Entre as medidas em análise estão a redução de tributos sobre combustíveis, maior fiscalização de reajustes e a possibilidade de criação de uma linha emergencial de crédito.

Impacto no campo e na logística

O diesel é essencial tanto para o transporte da produção agrícola quanto para o funcionamento de tratores, colheitadeiras e plantadeiras. Com o aumento dos preços, produtores enfrentam custos mais elevados em toda a cadeia produtiva.

Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o preço do diesel nas bombas já acumula alta de 19,4% desde o início do conflito internacional. Esse movimento tem gerado efeito cascata sobre o frete, que subiu entre 10% e 12%, conforme explica José Vicente Caixeta, diretor da cAIxeta Inteligência Logística:

“O impacto não acontece apenas nos produtos que estão sendo colhidos, mas também naqueles que estão sendo plantados já que as plantadeiras e outras máquinas também usam o diesel”.

A pressão sobre o abastecimento também tem levado a um aumento na demanda antecipada. James Thorp, presidente da Fecombustíveis, afirmou que as distribuidoras estão limitando o fornecimento:

“As distribuidoras vêm atendendo os pedidos de acordo com a média do consumo dos postos. Pedidos extras não vêm sendo atendidos”

Regiões produtoras já enfrentam dificuldades

No Rio Grande do Sul, principal produtor de arroz do país, a escassez preocupa em plena colheita, que atinge seu pico em março. Segundo a Fedearroz:

“Eventuais impactos na produção podem repercutir no mercado, com possíveis efeitos sobre o preço final do arroz”.

Levantamento da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) aponta que 165 municípios relataram dificuldades no abastecimento de diesel para veículos e máquinas públicas.

Também há impactos em outras cadeias produtivas. No setor de azeite, o produtor Rafael Goelzer relatou aumento significativo nos custos:

“Ainda não tivemos falta de combustível de nossos fornecedores, mas a expectativa é que a crise maior ocorra nas próximas duas semanas”.

No Paraná, o Paranapetro registrou desabastecimentos pontuais, especialmente no interior, impulsionados pela demanda elevada do agronegócio.

Risco para açúcar, etanol e segunda safra de milho

Em São Paulo, maior produtor nacional de açúcar e etanol, o cenário também preocupa. O início da safra 2026/2027 pode ser afetado pela falta de diesel para as colheitadeiras. Segundo Eduardo Valdivia, presidente do Recap:

“Em Ribeirão Preto, várias usinas de cana já estão parando e atrasando a colheita porque há dificuldade no abastecimento. Isso vai gerar impacto no etanol e no açúcar”.

No Centro-Oeste, a situação é crítica devido à simultaneidade de atividades: enquanto caminhões escoam a soja recém-colhida, tratores precisam de combustível para o plantio da segunda safra de milho. Em Mato Grosso do Sul, há movimento de antecipação de compras e formação de estoques.

A Aprosoja-MT destacou que a crise ocorre em um momento delicado para o setor, marcado por altos custos de produção, crédito mais caro e elevado endividamento.

Governo monitora e avalia medidas

Diante do cenário, o governo federal acompanha a evolução do problema. O Ministério da Fazenda anunciou a desoneração de tributos federais sobre o diesel e a concessão de subsídios para produtores e importadores.

Paralelamente, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) iniciará um plantão para apoiar Procons na fiscalização de possíveis abusos nos preços dos combustíveis.

Também voltou ao debate a criação de uma nova fase do programa Brasil Soberano, voltado ao apoio de empresas impactadas por medidas comerciais internacionais, como o tarifaço promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A proposta considera o saldo remanescente da primeira etapa do programa, que disponibilizou R$ 30 bilhões, dos quais cerca de R$ 16 bilhões foram efetivamente utilizados.

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