Paulo Gala avatar

Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

35 artigos

HOME > blog

IPCA de fevereiro surpreende para cima, mas inflação em 12 meses melhora

Inflação mensal acima do esperado aumenta cautela sobre corte de juros, apesar da queda do IPCA em 12 meses e de sinais de melhora no quadro inflacionário

Alunos em sala de aula no Centro Integrado de Educação Pública (CIEP) 001, no Catete, na zona sul da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

O IPCA de fevereiro divulgado agora pelo IBGE veio acima do esperado, registrando 0,7%, enquanto as projeções do mercado estavam entre 0,55% e 0,6%. Houve também uma aceleração em relação a janeiro, quando o índice foi de 0,33%. Na prática, esse resultado já era parcialmente antecipado, porque o IPCA-15 havia vindo perto de 0,8%, sinalizando um mês mais pressionado.

A boa notícia aparece na comparação em 12 meses. A inflação caiu de 4,44% para 3,81%, principalmente porque saiu da base de comparação um IPCA muito alto de fevereiro do ano passado, que havia sido próximo de 1,7%. Janeiro, fevereiro e março costumam ser meses difíceis por causa da sazonalidade, especialmente em alimentos. Assim, essa queda da inflação acumulada em 12 meses é um sinal positivo. Com 3,81%, o índice está bem abaixo do teto da meta, lembrando que a meta central é de 3%, com banda de tolerância.

Nos dois primeiros meses de 2026, o IPCA acumulado já está em 1,03%, o que mostra como o início do ano costuma ser inflacionário. A difusão inflacionária também melhorou um pouco, caindo de 63,9% para 61,3%, indicando que o aumento de preços ficou um pouco menos espalhado pela economia.

Entre os principais destaques, o grande vilão foi educação, que tradicionalmente sobe muito em fevereiro por causa dos reajustes de mensalidades escolares. Outro ponto de pressão foram as passagens aéreas, que subiram 11,4%. Além disso, os serviços em geral continuam rodando acima de 1% ao mês, o que segue sendo um ponto de atenção para o Banco Central.

Portanto, o quadro é misto: por um lado, a inflação em 12 meses melhorou; por outro, o resultado mensal veio acima do esperado, o que torna o cenário um pouco mais desafiador. Para quem quer levar a inflação para 3%, começar o ano com dois meses acumulando cerca de 1% já mostra o tamanho da dificuldade.

Outro fator importante no cenário é o conflito no Oriente Médio, que continua bastante grave. O petróleo voltou a se aproximar de US$ 100, com novos ataques na região e declarações de autoridades iranianas indicando a continuidade das tensões e bloqueios no Estreito de Ormuz. Um petróleo acima de US$ 90 tende a ser inflacionário para os Estados Unidos, para o Brasil e para a economia global.

Na semana que vem, teremos reunião do Copom, e o mercado já começa a considerar um primeiro corte de juros de 0,25 ponto percentual. O varejo divulgado ontem veio um pouco mais forte que o esperado, sugerindo alguma resiliência da atividade econômica. Ao mesmo tempo, o cenário externo ficou mais complicado, com o petróleo pressionado.

Assim, o mais provável é que o Banco Central inicie o ciclo de afrouxamento monetário de forma bastante gradual, começando com passos de 0,25 ponto, após o IPCA de hoje ter vindo acima do esperado.

Por fim, vale notar que o real tem se comportado relativamente bem, em parte porque o Brasil acaba se beneficiando de preços mais altos do petróleo. O país produz hoje quase 4 milhões de barris por dia e se tornou um dos cinco maiores produtores do mundo. Nos anos 1990, o Brasil era praticamente irrelevante no mercado global de petróleo, e a combinação de Petrobras e pré-sal mudou completamente essa posição.

Portanto, o conflito no Oriente Médio tem efeitos inflacionários, mas também traz benefícios para o Brasil, como maior arrecadação, melhora na balança comercial e ganhos para o setor de petróleo. É um cenário com dois lados da moeda.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados