Juros dos EUA em alta mudam o cenário global e complicam o segundo semestre
Juros dos EUA em alta fortalecem o dólar, pressionam emergentes e aumentam a incerteza sobre inflação, câmbio e Selic no Brasil
Os mercados financeiros mudaram a percepção sobre a política monetária americana. O principal destaque dos últimos dias foi a alta dos juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos de dez anos, que voltaram a se aproximar de 4,5% ao ano, ao mesmo tempo em que o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente às principais moedas desenvolvidas, atingiu o maior nível em cerca de um ano.
O movimento reflete uma mudança importante na leitura do mercado após a reunião do Federal Reserve da semana passada. O comunicado e a coletiva reforçaram a disposição do banco central americano de garantir a convergência da inflação para a meta, mesmo que isso exija uma postura monetária mais restritiva por mais tempo.
Os mercados já precificam praticamente três altas de juros nos Estados Unidos até o final do ano. A expectativa é que a taxa básica americana, atualmente em torno de 3,75%, possa alcançar 4,5%, num cenário bastante diferente daquele que predominava há poucos meses, quando todos apostavam em cortes graduais.
A atenção agora se volta para a divulgação do índice de inflação PCE, indicador preferido do Federal Reserve, prevista para amanhã. A expectativa é de um resultado acima de 4% em termos anualizados, reforçando a percepção de que a inflação americana voltou a acelerar e exigirá uma resposta mais firme da autoridade monetária.
Essa mudança de cenário não decorre mais do conflito no Oriente Médio, que parece caminhar para uma solução e já permitiu uma forte queda do petróleo, com o barril retornando para níveis inferiores a US$ 80. O problema é que os efeitos inflacionários já foram transmitidos para a economia americana. Durante aproximadamente três meses, o petróleo operou próximo de US$ 100 por barril, elevando os preços dos combustíveis e contaminando diversos segmentos da cadeia produtiva.
Muitos analistas consideram que esse episódio representou um erro estratégico da administração Trump, uma vez que o choque de petróleo acabou pressionando justamente a inflação que o Federal Reserve tentava controlar. Com a gasolina chegando a superar US$ 4 por galão durante parte desse período, os impactos sobre o sistema de preços foram significativos e dificilmente desaparecerão rapidamente.
O resultado é que o Fed agora se vê obrigado a adotar uma postura mais dura. A inflação, que já se encontrava em uma zona desconfortável entre 2,5% e 3%, acabou sendo empurrada para patamares mais elevados.
Para os países emergentes, o efeito costuma ser imediato. O fortalecimento do dólar pressiona moedas locais, reduz fluxos de capitais e aumenta a volatilidade financeira. O real voltou para a região de R$ 5,15 a R$ 5,20 por dólar, movimento observado também em diversas outras economias emergentes.
No Brasil, a divulgação da ata do Copom reforçou a mensagem de que os juros permanecerão elevados por um período prolongado. Ainda que haja espaço para algum ajuste pontual ao longo dos próximos trimestres, o quadro geral continua sendo de política monetária bastante restritiva. Com a Selic em 14,25%, a taxa permanece muito acima do juro real neutro estimado pelo próprio Banco Central.
Considerando uma inflação próxima de 5%, uma taxa nominal em torno de 10% já seria compatível com um juro real de equilíbrio. Isso mostra que a política monetária brasileira continua significativamente contracionista e deve permanecer assim até que haja evidências mais consistentes de convergência da inflação para a meta ao longo do horizonte relevante, que hoje já alcança 2028.
O cenário para o segundo semestre tornou-se mais complexo. Além dos desafios domésticos, o Brasil passa a conviver com a perspectiva de juros americanos mais altos, dólar mais forte e condições financeiras globais menos favoráveis.
Outro aspecto interessante dessa nova fase é a mudança de comunicação do Federal Reserve. O presidente da instituição tem adotado uma postura mais sucinta, defendendo que o mercado deve concentrar sua atenção nos dados econômicos, e não em tentativas de interpretar cada palavra do banco central. A ideia é reduzir o excesso de dependência da comunicação oficial e permitir que os preços reflitam mais diretamente a evolução da economia.
Amanhã serão divulgados tanto o PCE nos Estados Unidos quanto o IPCA-15 no Brasil, dois indicadores que terão papel decisivo na definição das expectativas para juros, inflação e câmbio ao longo dos próximos meses.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




