Linhas de Montagem Discursivas
Como o fascismo fabrica kamikazes políticos e os lança contra a democracia — do rádio de Mussolini às redes sociais do MBL e os ataques ao STF
No início dos anos 2000, militares americanos descobriram um problema desconfortável no Iraque: seus inimigos destruíam blindados de dois milhões de dólares com artefatos improvisados que custavam cinquenta. A assimetria não era apenas econômica. Era conceitual. O lado mais caro da equação — o tanque, o helicóptero, a cadeia de comando — tinha história, logística, reputação, regras de engajamento. O lado mais barato não tinha nada disso para perder. Hoje, a mesma lógica governa os campos de batalha da Ucrânia, onde drones de quinhentos dólares derrubam sistemas antiaéreos de vinte milhões. E governa, com precisão assustadora, o campo de batalha da democracia.
O fascismo descobriu esse princípio antes de qualquer general. Descobriu-o com o rádio.
O custo de uma liderança
Antes do rádio, construir uma liderança política com visibilidade nacional era uma operação cara, lenta e trabalhosa. Giovanni Giolitti, o homem que dominou a política italiana por três décadas antes de Mussolini, levou dez anos para ir de deputado novato ao Ministério do Interior, e outros vinte para tornar-se o eixo gravitacional da vida parlamentar do Reino. Friedrich Ebert, que presidiu a República de Weimar e herdou o impossível fardo de salvar a democracia alemã, investiu vinte e quatro anos na militância do SPD antes de alcançar a presidência do partido. Eram trajetórias que exigiam acumulação: acumulação de capital relacional com sindicatos, associações, comunidades religiosas, imprensa local; acumulação de credibilidade em câmaras municipais e regionais; acumulação de dívidas e lealdades que, ao mesmo tempo que constrangiam, criavam o tecido da responsabilidade política.
Esse custo alto tinha uma função democrática crucial. Produzia o que a teoria política chama de “vontade de reeleição” — o incentivo que leva líderes a respeitarem as regras do jogo porque têm algo a perder se as quebrarem. Um político com vinte anos de construção institucional não arrisca tudo por um gesto populista. Tem raízes. Tem compromissos. Tem, em suma, história.
O rádio mudou esse cálculo de forma radical. Em março de 1919, Benito Mussolini fundava os Fasci Italiani di Combattimento com algumas centenas de ex-combatentes radicalizados e um jornal, o Il Popolo d'Italia. Três anos e meio depois, marchava sobre Roma e tornava-se Primeiro-Ministro da Itália. Seus esquadristas — Balbo, Farinacci, Grandi, os chamados ras do fascismo provincial — haviam sido lançados do anonimato ao poder num único ciclo eleitoral. Não tinham história democrática, não tinham compromissos com movimentos sociais, não tinham nada a perder nas instituições que destruíam. Essa era precisamente a condição para destruí-las.
Na Alemanha, o processo foi ainda mais cirúrgico. O partido nazista obteve 2,6% dos votos nas eleições de 1928. Em 1930, com o rádio massificando a voz de Hitler para milhões de lares empobrecidos pela Grande Depressão, chegou a 18,3%. Em julho de 1932, a 37,4%. Em janeiro de 1933, Hitler era chanceler. A aceleração não foi ideológica — ela foi tecnológica. O rádio reduziu a décimos o custo de construir visibilidade política de massa.
A linha de montagem chega ao Brasil
Em 2014, cinco jovens de classe média — Kim Kataguiri, Renan Santos, Alexandre Santos, Frederico Rahu e Gabriel Calamari — fundaram o Movimento Brasil Livre. Nenhum tinha trajetória em movimentos sociais. Nenhum tinha anos de militância em sindicatos, associações de bairro, ligas camponesas ou qualquer das formas de construção política que produzem lideranças enraizadas.
Tinham câmeras de celular, contas no YouTube e Facebook, e uma habilidade nascente de produzir conteúdo provocativo que os algoritmos das redes sociais premiavam com visibilidade.
Os resultados foram espantosos na sua velocidade. Em 2015 — um ano após a fundação — a revista Time incluía Kim Kataguiri na lista dos vinte adolescentes mais influentes do mundo. Fernando Holiday, que sonhava ser o “Felipe Neto da política”, tornou-se vereador de São Paulo em 2016, apenas dois anos depois de surgir nas redes. Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, foi eleito deputado estadual em 2018, quatro anos após sua estreia no YouTube. Filipe Barros chegou à Câmara Federal e depois ao Ministério da Educação. A revista Exame comparou o MBL a uma “startup que nasceu para fazer protestos”. Era mais preciso do que imaginavam: uma startup produz em escala industrial. O MBL era uma linha de montagem de lideranças descartáveis.
A descartabilidade não é um efeito colateral. É a característica central do modelo. Lideranças descartáveis não têm nada a perder nas instituições democráticas. Por isso podem — e são treinadas para — arremeter contra elas.
O caso de Arthur do Val é exemplar na sua perfeição trágica. Construído em menos de quatro anos, projetado como candidato ao governo de São Paulo, Do Val foi destruído em questão de dias quando um áudio de suas declarações misóginas, durante visita à Ucrânia em guerra, foi vazado. O MBL o descartou imediatamente. Seus direitos políticos foram suspensos por oito anos. A pergunta que essa história levanta não é sobre o caráter de Do Val — é sobre a lógica do sistema que o produziu. Um líder com vinte anos de construção democrática teria checagens internas, redes de responsabilidade, o peso de sua própria história. Não existia nada disso para frear o voo do kamikaze.
A função do kamikaze político
É preciso ser claro sobre o que esses líderes fazem — e o que não fazem. Eles não governam. Não constroem políticas públicas. Não articulam consensos legislativos. Sua função, na anatomia do fascismo contemporâneo, é outra: são mísseis de baixo custo lançados contra os componentes caros e difíceis de reconstruir da democracia — os tribunais, as regras legislativas, os acordos institucionais, o próprio vocabulário do regime democrático.
Observe a metodologia do MBL descrita pelo próprio Brasil de Fato: integrantes vão às ruas com câmeras, interpelam adversários políticos, provocam, gritam, aguardam a reação violenta e transformam o conflito em conteúdo de rede social. O objetivo declarado é a “visibilidade”. O objetivo não declarado é a produção de uma narrativa de sistema “degenerado”, de instituições “corruptas”, de uma república que não merece ser defendida. Cada vídeo viral de um juiz “censurando”, de um parlamentar “protegendo ladrões”, de uma universidade “doutrinando” é uma peça de munição disparada contra o que os fascistas históricos chamavam de “sistema podre que precisa ser destruído para que a nação verdadeira possa emergir”.
Hannah Arendt observou que o totalitarismo não precisa de maioria para destruir a democracia — precisa apenas de descrença suficiente nas instituições para que a maioria se recuse a defendê-las quando o momento chegar. Os kamikazes políticos são o instrumento dessa produção de descrença em escala industrial.
Do rádio ao STF: o tribunal do povo se instala
Na Alemanha nazista, a destruição do Reichstag como espaço de deliberação democrática foi seguida pela criação do Volksgerichtshof — o Tribunal do Povo — onde o direito era substituído pela fidelidade ideológica e os réus, em julgamentos-espetáculo presididos por Roland Freisler, eram humilhados antes de serem condenados à morte. O tribunal não era um instrumento de justiça. Era um instrumento de legitimação da ruptura com o Estado de Direito.
Os ataques ao Supremo Tribunal Federal brasileiro seguem o mesmo roteiro com precisão inquietante. Não se trata de crítica jurídica legítima às decisões do STF — isso é tanto possível quanto necessário numa democracia. Trata-se da construção sistemática de uma narrativa que apresenta o STF como ilegítimo em sua origem, como órgão de opressão política, como inimigo da “nação real”. Alexandre de Moraes é transformado em personagem de tribunal-espetáculo, suas decisões são contextualizadas não como atos jurisdicionais, mas como perseguições políticas, e o vocabulário constitucional é progressivamente substituído pelo vocabulário da guerra civil.
Ontem, Kim Kataguiri fez um vídeo viral afirmando que vai “prender Alexandre de Moraes e Dias Toffoli”. É o kamikaze político arremetendo contra as instituições que ainda seguram um fiapo de democracia no país. Esse movimento, contudo, não é fruto de uma conjuntura específica ou de uma cruzada do MBL agora em favor do justo e do correto. É o resultado previsível de anos de produção discursiva realizada por lideranças sem custo, sem história democrática, sem nada a perder nas instituições que atacavam. A linha de montagem havia feito seu trabalho.
A lógica do drone e o preço da defesa
A analogia militar com a qual comecei não é retórica. É estrutural. O drone é barato porque é descartável. A defesa antiaérea é cara porque precisa ser confiável, durável, integrada em sistemas complexos. A assimetria favorece o atacante não porque ele seja mais forte, mas porque o defensor precisa acertar sempre, e o atacante precisa acertar apenas uma vez.
A democracia é a defesa antiaérea. Seus componentes — a independência do Judiciário, a separação de poderes, as regras do processo legislativo, a liberdade de imprensa — são sistemas caros, lentos para construir e rápidos para destruir. O fascismo digital descobriu que pode produzir drones políticos em série, lançá-los contra esses sistemas e, quando um drone é abatido — como Arthur do Val foi abatido —, simplesmente produz outro. Fernando Holiday migra para o PL de Bolsonaro. Filipe Barros usa o Ministério da Educação para censurar livros. Novos nomes emergem das academias digitais do MBL.
A questão para a democracia brasileira não é se o próximo kamikaze será abatido. É quantas vezes a defesa antiaérea pode ser acionada antes de se exaurir — e o que permanece de pé depois dos ataques, enquanto a linha de montagem fascista nunca para.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



