Lula em Évian: quando a política externa também entra na disputa eleitoral
Existe uma percepção bastante difundida de que política externa não influencia eleições. A experiência histórica sugere o contrário
Enquanto boa parte do debate político brasileiro permanece absorvida pelas disputas cotidianas de Brasília, uma cena ocorrida a milhares de quilômetros do país merece atenção. Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Évian, na França, para participar da reunião ampliada do G7, grupo que reúne as principais economias desenvolvidas do Ocidente.
O Brasil não é membro do G7. Ainda assim, foi convidado a participar das discussões em um momento particularmente delicado para a economia e para a geopolítica mundial. A guerra na Ucrânia continua sem solução. O conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos mantém elevada a tensão no Oriente Médio. As disputas comerciais entre Washington e Pequim se aprofundam. O avanço da inteligência artificial redefine estratégias industriais. E a própria ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial atravessa um período de transformações profundas.
Nesse cenário, a presença de Lula não é apenas um gesto protocolar. Ela reflete uma realidade que vem se consolidando desde o início de seu terceiro mandato: o retorno do Brasil aos grandes fóruns internacionais.
Entre 2019 e 2022, o Brasil trocou uma das diplomacias mais respeitadas do Sul Global por uma política externa errática, frequentemente guiada por afinidades ideológicas e disputas culturais importadas do ambiente político norte-americano. O governo Bolsonaro acumulou atritos com parceiros históricos, afastou-se de importantes fóruns multilaterais, enfraqueceu sua liderança regional e viu a imagem internacional do país deteriorar-se em razão da condução da política ambiental e dos frequentes ataques às instituições democráticas. Um país que durante décadas havia sido reconhecido por sua capacidade de construir pontes passou a ser visto, muitas vezes, como fonte de instabilidade e imprevisibilidade.
O contraste com o momento atual é evidente.
Hoje, o Brasil participa simultaneamente dos BRICS, do G20, das negociações climáticas, dos fóruns de governança global e dos encontros promovidos pelas economias centrais. Poucos países possuem capacidade semelhante de dialogar ao mesmo tempo com Estados Unidos, Europa, China, África, Oriente Médio e América Latina.
Essa posição confere ao país uma relevância que vai além de seu peso econômico.
Um mundo em transição
Para compreender plenamente o significado da presença de Lula em Évian, é preciso lembrar o que representa o próprio G7. O grupo surgiu em meados da década de 1970 reunindo Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e, posteriormente, Canadá. Durante décadas, essas economias concentraram a maior parte da produção mundial, do comércio internacional, da inovação tecnológica e do poder financeiro. Em muitos momentos, as decisões tomadas pelo G7 influenciavam diretamente os rumos da economia global.
O cenário atual, porém, é muito diferente daquele que deu origem ao grupo. A ascensão da China, o crescimento acelerado da Índia e o fortalecimento de diversas economias emergentes reduziram significativamente o peso relativo das potências tradicionais. Se no passado o G7 representava mais da metade da economia mundial, hoje sua participação é consideravelmente menor. Ao mesmo tempo, fóruns como os BRICS ganharam relevância política e econômica, refletindo a emergência de um mundo mais multipolar e menos concentrado no Atlântico Norte.
A reunião de Évian ocorre justamente quando o próprio G7 enfrenta uma espécie de paradoxo histórico.
Por décadas, o grupo funcionou como principal centro de coordenação política e econômica do planeta. As maiores economias estavam ali representadas. As decisões tomadas por seus integrantes influenciavam diretamente os rumos do comércio, das finanças e da segurança internacional.
Mas o mundo mudou.
A ascensão da China, o crescimento da Índia, a expansão dos BRICS e o fortalecimento de diversas economias emergentes reduziram o peso relativo do grupo. O centro dinâmico da economia mundial desloca-se gradualmente para a Ásia. Novos polos tecnológicos surgem. O Sul Global ganhou voz própria.
É justamente por isso que países como o Brasil passaram a ser convidados para reuniões desse tipo.
Não porque pertençam ao círculo tradicional das potências ocidentais, mas porque se tornaram interlocutores indispensáveis em uma ordem internacional cada vez mais multipolar.
Lula chega a Évian ocupando exatamente esse espaço.
Não representa apenas o Brasil. Representa, em alguma medida, a visão de um conjunto de países que reivindicam maior participação nas decisões globais, reformas nas instituições internacionais e relações menos assimétricas entre Norte e Sul.
Existe uma ironia histórica nesse processo. Lula participa de uma reunião que continua sendo uma das mais importantes instâncias de coordenação do Ocidente justamente porque o mundo deixou de ser exclusivamente ocidental. O Brasil não está em Évian porque integra o clube das grandes potências tradicionais. Está em Évian porque se tornou uma ponte entre diferentes polos de poder. Dialoga com Washington e Pequim, participa dos BRICS e do G20, mantém relações estreitas com Europa, África e América Latina. Em um sistema internacional cada vez mais fragmentado, essa capacidade de interlocução tornou-se um ativo estratégico.
A incógnita chamada Trump
No Brasil, grande parte das atenções concentra-se na possibilidade de um encontro entre Lula e Donald Trump. Até o momento, não há confirmação oficial de uma reunião bilateral. Ainda assim, a simples especulação revela muito sobre a importância política do encontro.
As divergências ideológicas entre ambos são conhecidas. Mas a política internacional raramente se move por afinidades pessoais. O que importa são os interesses concretos dos Estados.
Brasil e Estados Unidos possuem uma relação econômica robusta. O comércio bilateral movimenta centenas de bilhões de dólares. Os dois países compartilham interesses em áreas como energia, segurança alimentar, minerais estratégicos e investimentos.
Além disso, a recente ameaça de novas tarifas americanas contra produtos brasileiros tornou inevitável algum tipo de diálogo.
Caso ocorra uma conversa entre os dois presidentes, os temas centrais dificilmente serão ideológicos. O foco estará nas relações comerciais, nos investimentos, na reorganização das cadeias produtivas globais e no papel que o Brasil pode desempenhar em um contexto de crescente rivalidade entre Estados Unidos e China.
Mesmo sem uma reunião formal, o fato de Lula participar do mesmo espaço de negociação ocupado pelas principais lideranças mundiais já produz efeitos políticos relevantes.
A política externa também vota
Existe uma percepção bastante difundida de que política externa não influencia eleições. A experiência histórica sugere o contrário.
Os eleitores avaliam resultados econômicos, renda, emprego e qualidade dos serviços públicos. Mas também observam atributos de liderança, prestígio, experiência e capacidade de representação internacional.
Nesse aspecto, a viagem de Lula possui uma dimensão política impossível de ignorar.
Enquanto o presidente brasileiro discute comércio, segurança internacional, tecnologia e governança global ao lado de líderes das principais economias do mundo, parte significativa da oposição permanece concentrada em disputas judiciais, crises internas e controvérsias domésticas.
A comparação tende a favorecer Lula.
Não porque viagens internacionais produzam votos automaticamente, mas porque ajudam a reforçar uma imagem que o presidente cultiva há décadas: a de um líder reconhecido internacionalmente e capaz de representar o país em ambientes complexos.
Essa percepção ganha importância adicional em um momento em que a disputa presidencial de 2026 começa a tomar forma.
A eleição não será apenas uma escolha entre programas econômicos ou propostas administrativas. Será também uma disputa sobre qual projeto possui melhores condições de conduzir o Brasil em um mundo cada vez mais instável e competitivo.
Nesse terreno, a experiência internacional de Lula continua sendo um ativo político considerável.
Entre Évian e Brasília
O significado mais profundo da presença brasileira no G7 talvez não esteja nos comunicados finais da reunião nem mesmo na possibilidade de um encontro com Donald Trump. Está na mensagem transmitida ao mundo e ao próprio país. O Brasil voltou a ser ouvido.
Depois de anos de isolamento e irrelevância diplomática, o país recuperou capacidade de interlocução em praticamente todos os grandes fóruns internacionais. Voltou a participar dos debates sobre clima, desenvolvimento, comércio, tecnologia e governança global.
Isso não resolve automaticamente os problemas nacionais. Não reduz a inflação, não melhora os serviços públicos nem elimina as desigualdades que continuam marcando a sociedade brasileira.
Mas reposiciona o país em um cenário internacional que se torna cada vez mais decisivo para o crescimento econômico, os investimentos e as oportunidades de desenvolvimento.
Quando Lula participa de uma reunião como a de Évian, não está apenas representando o Brasil perante o mundo. Está também mostrando aos brasileiros que a política externa pode ser um instrumento de desenvolvimento, projeção internacional e defesa dos interesses nacionais.
Há um contraste simbólico difícil de ignorar. Enquanto o G7 discute como se adaptar a um mundo em que já não detém sozinho o comando da economia global, o Brasil comparece representado por um presidente que fez da defesa do multilateralismo e da autonomia diplomática uma das marcas de sua trajetória. Em certa medida, a disputa eleitoral brasileira também passa por essa escolha: entre um país capaz de dialogar com todos os centros de poder ou um país novamente reduzido a alinhamentos automáticos e dependências ideológicas.
Em um mundo marcado por guerras, disputas tecnológicas e transformações geopolíticas aceleradas, essa talvez seja uma das questões mais importantes que estarão, direta ou indiretamente, em disputa nas eleições de 2026.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



