Com estrela, Lula chega a Evian no momento da paz
Presidente brasileiro participa pela décima vez da cúpula do G7, em meio ao acordo entre EUA e Irã
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à cúpula do G7, em Evian, na França, em um momento de forte simbolismo internacional: logo após o anúncio do acordo entre Estados Unidos e Irã, que abriu caminho para a reabertura do Estreito de Ormuz e para uma nova rodada de negociações sobre paz e segurança no Oriente Médio.
As informações sobre a agenda brasileira no encontro foram detalhadas pelo secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, embaixador Philip Fox-Drummond Gough, em coletiva de imprensa na quinta-feira (11). Segundo ele, a cúpula tem sete textos em negociação, todos ainda em aberto, e o Brasil enviou contribuições para cada um deles.
Convidado pela presidência francesa, Lula participa do encontro nos dias 16 e 17 de junho. É a décima vez que o presidente brasileiro comparece à reunião das sete maiores economias do mundo — feito que o coloca entre os líderes com maior número de participações no evento, embora o Brasil não integre o G7 como membro pleno.
Além do Brasil, foram convidados Índia, Quênia, Coreia do Sul e Egito, assim como instituições como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, o Banco Africano de Desenvolvimento e a OCDE.
Brasil defenderá desenvolvimento e reforma da governança global
A agenda de Lula está concentrada em duas sessões abertas a países convidados. Na terça-feira (16), o tema será parcerias internacionais para o desenvolvimento, o primeiro dos sete pontos em discussão na cúpula.
Segundo o embaixador Philip Fox-Drummond Gough, o contexto dessa discussão é a queda substancial dos montantes de ajuda oficial ao desenvolvimento, conhecida pela sigla ODA. A mensagem central do Brasil será a preocupação com a redução desses recursos.
O governo brasileiro pretende alertar que o setor privado e os orçamentos dos próprios países em desenvolvimento não são capazes de suprir a lacuna deixada pela retração da ajuda oficial. A posição dialoga diretamente com a defesa feita por Lula, em fóruns multilaterais, de uma ordem internacional menos desigual e mais comprometida com o financiamento ao desenvolvimento.
Na quarta-feira (17), a sessão tratará de crescimento econômico equilibrado, segundo tema da pauta. O Brasil dará ênfase à necessidade de reforma das estruturas de governança global, com destaque para a Organização Mundial do Comércio e a Organização das Nações Unidas.
Questionado sobre o tema, o embaixador observou que o unilateralismo e as medidas unilaterais — como tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos — devem aparecer de forma transversal nessa discussão, ainda que não exista uma sessão específica sobre o assunto.
Evian reúne debates sobre paz, comércio e energia
A chegada de Lula a Evian ocorre em meio a um ambiente internacional marcado pelo acordo entre Estados Unidos e Irã, saudado por lideranças globais como passo importante para reduzir tensões no Oriente Médio e reabrir o Estreito de Ormuz, rota essencial para o comércio global de petróleo e gás.
O tema deve atravessar as discussões do G7, especialmente depois das manifestações internacionais em defesa da liberdade de navegação, da estabilidade regional e da diversificação das rotas de abastecimento energético. A crise mostrou, mais uma vez, como gargalos estratégicos podem ser instrumentalizados em disputas geopolíticas.
Nesse cenário, Lula chega ao encontro em uma posição favorável para defender a diplomacia, o multilateralismo e a reforma das instituições globais. O Brasil tem insistido na necessidade de soluções negociadas para conflitos internacionais e na ampliação da voz dos países em desenvolvimento nos espaços de decisão.
Sete textos em negociação na cúpula
De acordo com o Itamaraty, a cúpula tem sete textos em negociação. O Brasil enviou contribuições para todos eles, mas, por ser convidado, não participa integralmente das negociações finais, reservadas aos membros plenos do G7.
O primeiro texto trata de parcerias internacionais para o desenvolvimento. O segundo aborda crescimento econômico equilibrado. O terceiro tem como tema a proteção online de menores.
Gough destacou que o Brasil está na vanguarda desse debate, após a aprovação, em setembro do ano passado, do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, que entrou em vigor recentemente. O tema ganhou centralidade global diante da crescente preocupação com os impactos das plataformas digitais sobre crianças e adolescentes.
O quarto ponto em negociação é o combate ao narcotráfico, com foco na cooperação entre os países do G7 e as nações convidadas. O objetivo é aperfeiçoar as condições de enfrentamento ao crime organizado transnacional.
Câncer, migração e minerais críticos também estarão na pauta
O quinto texto aborda a luta contra o câncer, com ênfase no câncer pediátrico e em outros tipos da doença. O embaixador lembrou que a saúde foi uma das prioridades do Brasil durante a presidência do BRICS no ano passado.
O sexto ponto trata do combate ao contrabando de migrantes. Segundo Gough, esse é um dos temas mais delicados da cúpula, pois há visões divergentes mesmo entre os próprios membros do G7, o que dificulta a construção de consenso.
O sétimo texto é dedicado aos minerais críticos, tema que já havia sido objeto de declaração na cúpula do G7 do ano passado. A posição brasileira é centrada na agregação de valor no próprio local de extração, uma bandeira que Lula tem levantado em diversas ocasiões.
“O ponto central nosso com minerais críticos é processamento e ganho de valor agregado no próprio país”, afirmou o embaixador.
A posição brasileira busca evitar que países ricos em recursos naturais permaneçam apenas como fornecedores de matérias-primas, sem desenvolver cadeias produtivas próprias, tecnologia, empregos qualificados e maior participação no valor final dos produtos.
Lula participará de almoço sobre inteligência artificial
Além das sessões de trabalho, Lula participará, no dia 17, de um almoço sobre inteligência artificial. Esta será a última atividade oficial do presidente brasileiro na cúpula.
Na ocasião, Lula fará uma exposição sobre as oportunidades e os riscos da tecnologia. O tema tornou-se central nas discussões globais por seus impactos sobre emprego, educação, soberania digital, concentração econômica, privacidade e regulação das grandes plataformas.
A comitiva brasileira contará com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Os demais integrantes ainda serão definidos pelo Palácio do Planalto.
Bilaterais com Macron e Japão estão em negociação
Sobre reuniões bilaterais, o embaixador Philip Fox-Drummond Gough confirmou que estão em negociação encontros de Lula com o presidente francês, Emmanuel Macron, anfitrião do evento, e com a primeira-ministra do Japão.
As possibilidades de diálogo com os Estados Unidos e com a União Europeia permanecem em aberto. No caso europeu, Gough afirmou que o tom de uma eventual conversa seria de “preocupação” com os últimos desdobramentos comerciais, incluindo medidas que afetam as exportações brasileiras de carne.
A pauta comercial tende a ganhar peso no encontro, em um cenário internacional marcado por disputas tarifárias, pressões protecionistas e tensões sobre cadeias globais de abastecimento.
Lula reforça papel do Brasil como voz do Sul Global
A presença de Lula em Evian reforça a tentativa do Brasil de se consolidar como interlocutor relevante entre as grandes potências e o Sul Global. Ao participar pela décima vez da cúpula do G7, o presidente brasileiro leva ao centro do debate temas como desenvolvimento, reforma da governança internacional, soberania econômica, tecnologia, energia e agregação de valor aos recursos naturais.
O momento internacional favorece essa agenda. O acordo entre Estados Unidos e Irã, a perspectiva de reabertura de Ormuz e a discussão sobre segurança no Oriente Médio recolocam a diplomacia no centro da cena global. Para Lula, que tem defendido a negociação política como saída para crises internacionais, Evian será uma vitrine para reafirmar a posição brasileira em favor do multilateralismo.
Com estrela, o presidente brasileiro chega à França no momento da paz — e em uma cúpula na qual os países em desenvolvimento tentarão ampliar sua influência diante das maiores economias do mundo.



