Luta de classes
Um poema engajado
Um douto professor
expert em ideologia
me garantiu
que há luta de classes
até na poesia
“Eu vou lhe explicar,
já que sozinho não descobre:
na poesia
há uma guerra fria
entre a rima rica e a rima pobre”.
“A rima rica — não se engane —
lê James Joyce no original,
só anda de Rolls-Royce,
só usa terno Armani”.
“Acorda ao meio-dia
em seu triplex no Leblon,
e a sua governanta
traz o cardápio
de tudo o que é bom”.
“Não faz nenhum esforço
para ganhar o copyright,
tem à sua disposição
um exército de ghostwriters”.
“A rima pobre
acorda às 4, sem que a chamem,
e prepara a marmita,
que é sempre miojo lámen,
e mal engole a gororoba fria,
sai correndo pro metrô,
enquanto a estação está vazia”.
“A rima pobre
não tem dicionário,
não tem diploma,
só fez o curso primário;
não usa o Google
porque não tem notebook,
procura inspiração
no Domingão do Huck”.
“A rima rica,
quando encontra a pobre,
dá risada:
‘você é uma fraude,
você não vale nada,
ninguém te aplaude’
e atravessa a calçada”.
“A rima rica
tem fardão
e lugar na Academia;
a rima pobre
vive de alucinação,
acredita na utopia”.
Ouvi o mestre
assim falar
com tanta sabedoria,
não tive como replicar,
sou fraco em filosofia.
Mas, depois de
um instante refletir,
não me dei por satisfeito;
com todo o respeito
ao mestre e demais estetas,
aqui vou dizer e repetir:
nenhuma rima é pobre,
pobres somos nós, poetas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



