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Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

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Luta de classes

Um poema engajado

Desigualdade (Foto: Rovena Rosa/ABr)

Um douto professor
expert em ideologia
me garantiu
que há luta de classes
até na poesia

“Eu vou lhe explicar,
já que sozinho não descobre:
na poesia
há uma guerra fria
entre a rima rica e a rima pobre”.

“A rima rica — não se engane —
lê James Joyce no original,
só anda de Rolls-Royce,
só usa terno Armani”.

“Acorda ao meio-dia
em seu triplex no Leblon,
e a sua governanta
traz o cardápio
de tudo o que é bom”.

“Não faz nenhum esforço
para ganhar o copyright,
tem à sua disposição
um exército de ghostwriters”.

“A rima pobre
acorda às 4, sem que a chamem,
e prepara a marmita,
que é sempre miojo lámen,
e mal engole a gororoba fria,
sai correndo pro metrô,
enquanto a estação está vazia”.

“A rima pobre
não tem dicionário,
não tem diploma,
só fez o curso primário;
não usa o Google
porque não tem notebook,
procura inspiração
no Domingão do Huck”.

“A rima rica,
quando encontra a pobre,
dá risada:
‘você é uma fraude,
você não vale nada,
ninguém te aplaude’
e atravessa a calçada”.

“A rima rica
tem fardão
e lugar na Academia;
a rima pobre
vive de alucinação,
acredita na utopia”.

Ouvi o mestre
assim falar
com tanta sabedoria,
não tive como replicar,
sou fraco em filosofia.

Mas, depois de
um instante refletir,
não me dei por satisfeito;
com todo o respeito
ao mestre e demais estetas,
aqui vou dizer e repetir:
nenhuma rima é pobre,
pobres somos nós, poetas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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