Brasil se beneficia da corrida por minerais críticos, diz The Economist
País concentra quase um quarto das reservas globais e atrai atenção internacional em meio à dependência do Ocidente da cadeia chinesa
247 - O avanço do Brasil no mercado global de terras raras começa a reposicionar o país em um dos tabuleiros geopolíticos mais sensíveis da atualidade. Em um complexo industrial no interior da Bahia, uma nova planta de separação mineral promete ampliar a oferta de elementos essenciais para a fabricação de tecnologias que vão de mísseis a equipamentos domésticos, em um momento em que o Ocidente busca reduzir sua dependência da China.
Segundo reportagem publicada pela revista The Economist, o empreendimento está localizado em um parque de pesquisa no estado da Bahia e é operado pela empresa Brazilian Rare Earths (BRE). A iniciativa surge em meio à crescente preocupação de países ocidentais com o domínio chinês sobre o setor: a China responde por cerca de 70% da mineração global de terras raras e por aproximadamente 90% do processamento desses minerais estratégicos.
O interesse internacional se intensificou após restrições impostas por Pequim à exportação de metais, componentes industriais e até engenheiros especializados. O impacto foi imediato em cadeias produtivas dos Estados Unidos e da Europa, forçando fábricas a reduzir operações. A escassez de superímãs atingiu especialmente setores como o automotivo, o de tecnologias verdes e a indústria de defesa. “As empresas estão correndo para encontrar fornecedores alternativos”, afirmou Bernardo da Veiga, diretor da BRE.
O Brasil aparece como candidato natural a ocupar esse espaço. O país concentra quase um quarto das reservas conhecidas de terras raras no mundo, ficando atrás apenas da China. Além da geologia favorável, conta com uma indústria extrativa consolidada, energia relativamente barata e profissionais experientes. “Esses fatores são grandes vantagens competitivas”, avaliou José Augusto Palma, da Aclara Resources, mineradora chilena com atuação na região.
A exploração desses minerais não é novidade no país. Na década de 1950, a empresa brasileira Orquima chegou a ser a maior produtora mundial, extraindo terras raras de areias monazíticas. Esse protagonismo, porém, foi interrompido quando preocupações com a radioatividade do material levaram o Estado a endurecer regulações e a nacionalizar a companhia, abrindo espaço para a ascensão chinesa no setor.
Agora, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca recuperar esse protagonismo. Em janeiro, teve início a elaboração de uma estratégia nacional para as terras raras, após um decreto publicado em novembro que classificou esses minerais como questão de segurança nacional. A medida facilita o acesso a financiamentos especiais, amplia possibilidades de compras públicas e simplifica procedimentos de importação.
A aposta tem duas frentes principais. A primeira é tecnológica. Embora o mercado global de terras raras movimente apenas alguns bilhões de dólares por ano — valor modesto se comparado às exportações brasileiras de minério de ferro —, o maior ganho está no uso desses insumos como base para indústrias de alta tecnologia. “O valor real está na cadeia produtiva”, explicou André Pimenta, do CIT Senai ITR, fabricante de ímãs de terras raras em Minas Gerais.
A segunda frente é diplomática. Diversas economias enfrentam déficits de minerais críticos, do cobre ao escândio. Os Estados Unidos demonstram especial interesse. Em julho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs tarifas de 50% sobre a maior parte das importações brasileiras, em um contexto de pressão política relacionado ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. No mesmo período, no entanto, o embaixador norte-americano no Brasil manteve reuniões reservadas com mineradoras para discutir a compra futura de produção nacional.
Inicialmente, Lula afirmou que os minerais brasileiros “não estavam à venda”, mas posteriormente acenou com a possibilidade de um acordo sobre terras raras em troca da redução das tarifas. Caso Washington não avance, países como membros da União Europeia, Japão ou Coreia do Sul aparecem como alternativas naturais de parceria.
Apesar do potencial, os desafios são significativos. Atualmente, o Brasil conta com apenas uma mina em operação, inaugurada em 2024 pela empresa Serra Verde. A companhia pretende dobrar a oferta global de terras raras pesadas fora da China, mas enfrenta dificuldades técnicas na extração de argilas iônicas. Um financiamento de quase US$ 500 milhões de uma agência de fomento dos Estados Unidos deve ajudar a superar esses obstáculos.
Outros projetos ainda aguardam licenciamento ambiental e não devem iniciar produção antes de 2028. Além disso, poucas empresas demonstram interesse em realizar o processamento completo no Brasil, etapa mais complexa e intensiva em capital.
Há também tensões políticas. Em discurso recente, Lula afirmou: “Ou aproveitamos essas riquezas que Deus nos deu e as transformamos em riqueza para o nosso povo, ou veremos os mesmos países de sempre cavando buracos aqui e levando nossos minerais”. Para Julio Nery, do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), essa visão é problemática. Ele reconhece a importância de avançar na cadeia de valor, mas pondera que o setor de terras raras tem limitações estruturais.
A predominância de capital estrangeiro nas mineradoras reflete a necessidade de grandes investimentos. “É um negócio muito intensivo em capital para o mercado brasileiro”, explicou Rafael Moreno, da Viridis, empresa australiana. A falta de expertise local também pesa contra o processamento doméstico, embora esses entraves possam ser superados com tempo e recursos.
O cenário internacional, por sua vez, tende a favorecer novos produtores. A China manteve por anos preços artificialmente baixos para afastar concorrentes, compensando perdas com vendas de ímãs e veículos elétricos. Esse modelo começou a ser questionado quando Donald Trump assinou, em julho, um acordo com a norte-americana MP Materials, garantindo um preço mínimo de US$ 110 por quilo de óxido de neodímio-praseodímio, cerca do dobro do praticado pela China.
Para analistas do setor, como John Prineas, da St George Mining, essas distorções de preço devem se tornar comuns, atraindo novos atores e provocando uma consolidação inevitável. Nesse processo, países que detêm grandes reservas naturais, como o Brasil, ganham uma oportunidade rara de transformar recursos geológicos em ativo estratégico de longo prazo.


