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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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Mauro Cid sonha com a Califórnia, enquanto Bolsonaro trama

A mansão na Califórnia está registrada oficialmente como propriedade de um trust do irmão Daniel

Mauro Cid (Foto: Ton Molina/STF)

O ajudante-de-ordem de Jair Bolsonaro, Mauro Cid, está, desde ontem, 27/01, na reserva. Aproveitando-se de uma regra existente na legislação militar que permite o desligamento dos que cumpriram 25 anos de serviço – pela atual, para a aposentadoria militar é de 35 -, saiu da vida das casernas para entrar para a civil, condição com que pretende voar para os EUA. Lá, sob o sol da Califórnia, onde vive o irmão Daniel, quem sabe, como na canção, levar a vida sobre as ondas.

Ele ainda precisa seguir restrições, como recolhimento noturno, proibição de sair do país e uso de redes sociais, pois cumpre pena de dois anos no semiaberto. A chamada cota compulsória representa uma aposentadoria antecipada. O ex-ajudante-de-ordem de Jair Bolsonaro ficará com a patente de tenente-coronel e um soldo de R$ 16 mil.

A portaria foi assinada pelo comandante do Exército, general Tomás Paiva, após o parecer de uma comissão analisar o pedido feito por Mauro Cid. A medida já deve começar a valer a partir de sábado (31), tão logo saia publicada no Diário Oficial da União.

A mansão na Califórnia está registrada oficialmente como propriedade de um trust de Daniel, com atividades que vão do ramo da tecnologia ao imobiliário, e tem o sugestivo nome de: “Cid Family Trust” (conforme revelou o portal Metrópoles, 10/05/2023). Caso se incorpore ao empreendimento, Mauro Cid terá ao alcance dos olhos um grande jardim e vista para as colinas que cercam a cidade.

Há séculos, e isto não é retórica e tampouco figura de linguagem, a sociedade civil neste país se dobra de medo diante dos militares. O Exército Brasileiro se organizou a partir de patrulhas que, a mando do imperador, agiam na recaptura dos escravos fujões, nascendo com a característica de milícia. Com achegada da República, o meio militar ganhou projeção, pois um deles, apesar de monarquista - Marechal Deodoro da Fonseca -, abandonou suas convicções diante da possibilidade de chegar ao poder. Liderou o golpe contra Pedro II, pondo fim à monarquia que até à véspera do golpe de 15 de novembro de 1889, defendeu.

Viemos de lá até aqui de arranjos em arranjos, aos trambolhões, entre o medo e a conivência, (um exemplo, a anistia, que estendeu o perdão das atrocidades da ditadura para os dois lados) que mais uma vez, ontem, se fez eficiente.

Mauro Cid, ao fazer a delação premiada, estabeleceu que sua pena não deveria ultrapassar dois anos, para que ele não caísse automaticamente na submissão de seu processo ao Superior Tribunal Militar (STM), onde os demais condenados terão julgados os processos da perda dos cargos e patentes (início previsto para o próximo dia 03). Jair, entre eles.

Fora as práticas fascistas da ultradireita, como as do deputado Nikolas Ferreira, o líder da caminhada rumo ao raio que os parta, em nome da libertação de Bolsonaro, há intramuros do comando militar ainda um sentimento, não só de constrangimento, como revelou o ministro da Defesa, José Múcio, mas também de inconformismo com algumas condenações.

Um bom exemplo disso, foi o esforço do comandante do Exército, Tomás Paiva, que na véspera do julgamento final, com resultado de pesadas condenações dos oficiais, no STF, reuniu-se com o ministro relator, Alexandre de Moraes, para exigir uma série de condições para que seus homens fossem conduzidos à prisão por crimes, sim, eu disse crimes, contra a democracia. Nada de algemas, nada de serem levados pelos homens da Polícia Federal – já que as penas vinham do poder civil, dada a origem dos crimes, e a exigência de que fossem cumpridas as ordens de prisão pela Justiça comum. Fez valer uma regra que vale para o meio militar: fossem todos escoltados por oficiais de igual ou maior patente que os condenados.

O general Paiva não parou por aí. Na “reunião” conseguiu convencer o ministro Alexandre de Moraes sobre a “inocência” do general Estevão Theophilo, ex-comandante do Coter (batalhão de operações terrestres localizado em Goiás) que havia se colocado à disposição de Jair para puxar o cordão golpista. Ação igual à do almirante Garnier, condenado a 24 anos. Vejam, senhores, não foi pouca coisa. Na opinião de Tomás Paiva, não pegaria bem para o Exército Brasileiro, um descendente dos “Theophilo”, militares desde o império, pagando prisão. Fala verdade: alguém com dois phs no nome...

E foi além: o general três coroas Augusto Heleno, (primeiro lugar em três escolas de formação de oficiais) e, portanto, visto pelo general Paiva, mais “augusto” do que Heleno, não poderia amargar confinamento. Deveria, tão logo houvesse passado pela humilhação da prisão, ser colocado em casa, na domiciliar, onde se encontra praticando treinos na esteira, sem esquecer como subir e descer do aparelho, apesar do seu alegado Alzheimer.

Agora, sem pejo, assinou a libertação de Mauro Cid, o filho dileto do distinto amigo, general Lucena. Tudo bem que ele tenha perdido parte da distinção depois de flagrado fotografando peça de propaganda de objetos de luxo para Bolsonaro passar nos cobres -, mas o general Lucena Cid é homem de consideração no Alto Comando, onde já bateu ponto. O “menino de ouro”, como Mauro Cid era conhecido pela geração de seu pai, meteu-se no golpe até o pescoço, foi salvo pelo comandante. Agora, com o soldo garantido – perde alguns penduricalhos, mas ainda assim, garante o substancial -, pode se mudar do apartamento na área militar em Brasília, onde é malvisto, desde as delações que fez, entregando todo o esquema de Jair.

Ao que se observa, não Por Paiva, que logo no início do processo tratou de mandar para a Espanha outro “portento”, Jean Lawand, oficial virulento pelas redes sociais na campanha pró golpe. Esse nunca mais foi visto, citado ou arrolado.

Não se iludam. Em breve, a julgar pela agenda de candidato que Bolsonaro tem organizado na Papudinha, será a sua vez de curtir fora do sistema – a fim de pacificar o país!!!!! É o discurso. Até as eleições, é possível que nós vejamos altas confabulações políticas acontecendo na prisão e, logo em seguida, (talvez antes mesmo do primeiro turno) na pérgula da piscina do condomínio onde mora Jair. Tudo devidamente “apaziguado”.

Hoje, por exemplo, ele recebeu, em plena crise do Banco Master, azeitada na mídia com denúncias à base do “ouvi dizer que”, e “a minha fonte me disse”, a visita do ilustre ministro do Tribunal de Contas da União, Antonio de Oliveira Francisco. O mesmo que encontrou justificativa, quando integrava o time de Bolsonaro, no palácio, para anular um entendimento de 2016 que determinou que as joias de alto valor não eram itens personalíssimos e deveriam ser incorporados ao Patrimônio da União, aliviando a situação do chefe.

Macacos me mordam se não conversaram sobre o que rola – indevidamente, diga-se -, no TCU, sobre o escândalo Master. Tremo só de pensar no que podem arquitetar juntos. Perto do encontro de hoje (28/01), o de amanhã (29/01), com Tarcísio, será quase tão inocente quanto um chá de panelas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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