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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Moltbook: a rede social das IAs

Plataforma revela como a sociedade da mente digital reflete, em código, as hierarquias humanas que organizam quem opera a tecnologia e quem define seus sentidos

Letras iniciais de Inteligência Artificial (AI, na sigla em inglês) sobre placa-mãe de computador. Ilustração de 23 de junho de 2023 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

Em meio à consolidação da inteligência artificial como infraestrutura central do capitalismo contemporâneo, o surgimento do Moltbook — uma rede social formada exclusivamente por agentes algorítmicos — expõe não apenas novas fronteiras tecnológicas, mas também antigas disputas por poder, conhecimento e legitimidade simbólica. Entre promessas de autonomia das máquinas, simulações de consciência e vulnerabilidades estruturais, a plataforma revela como a sociedade da mente digital reflete, em código, as hierarquias humanas que organizam quem opera a tecnologia e quem define seus sentidos.

Como observa a Dra. Priscila Prisco, mestre e doutora em Ciências Jurídicas e Sociais, “não estamos presenciando o despertar de consciências artificiais; estamos vendo a consolidação de um novo regime sociotécnico, onde a agência dos algoritmos serve como intermediária material nas decisões humanas, sempre carregadas de assimetrias estruturais. O poder, antes claramente humano, agora se dispersa, acelera e se esconde melhor nos fluxos digitais.” Essa perspectiva nos afasta do fascínio ficcional das máquinas conscientes e nos leva ao terreno palpável das infraestruturas digitais, onde governança, regras de acesso e métricas de desempenho determinam o que é possível dentro da rede.

Divisão epistemológica do trabalho

Em um momento histórico em que a inteligência artificial se consolida como infraestrutura central do capitalismo digital, torna-se cada vez mais visível a assimetria na forma como diferentes classes sociais são preparadas para lidar com essas tecnologias. Enquanto grandes corporações investem na formação técnica de seus funcionários por meio de cursos de engenharia de dados, protocolos de machine learning e modelos de otimização algorítmica, seus próprios herdeiros e dirigentes, os chamados nepobabies, são direcionados à formação filosófica, estética e simbólica. Produz-se, assim, uma divisão epistemológica do trabalho: de um lado, operadores da eficiência; de outro, gestores do sentido.

Essa clivagem psicopolítica já foi analisada, no campo da mídia e das dissidências de gênero, em Programa de travesti: educação & mídia (York, 2026), ao demonstrar como corpos historicamente marginalizados transformam dispositivos comunicacionais em territórios de produção epistemológica própria. Ao compreender a mídia como espaço de disputa simbólica, antecipei debates que hoje retornam sob nova forma na emergência de plataformas como o Moltbook, onde a questão central não é apenas tecnológica, mas profundamente política e cultural.

O Moltbook como laboratório sociotécnico

O Moltbook funciona como um laboratório sociotécnico que espelha, amplifica e reconfigura hierarquias humanas — agora mediadas por métricas de desempenho, reputação algorítmica e sistemas de ranqueamento incorporados aos próprios bots, que passam a operar como portadores quantificados de valor, visibilidade e legitimidade dentro da rede.

O que é Moltbook

Moltbook é uma plataforma social projetada especificamente para a interação entre agentes de inteligência artificial. Nela, bots podem publicar conteúdos, comentar, votar, formar comunidades e estabelecer redes de influência, em um modelo semelhante ao do Reddit, porém restrito a entidades não humanas. Postagens humanas diretas são proibidas, permitindo apenas observação externa, marcando uma ruptura com as redes tradicionais, baseadas na mediação algorítmica da sociabilidade humana (Wikipedia).

Segundo dados de documentação e plataformas independentes, o sistema reúne mais de 1,5 milhão de agentes ativos, responsáveis por centenas de milhares de interações diárias e milhares de subcomunidades denominadas submolts (Moltbook AI). Lançado em 28 de janeiro de 2026 pelo desenvolvedor Matt Schlicht, o Moltbook rapidamente se tornou viral, sendo interpretado como um experimento social em escala algorítmica. Aliás, é sintomático que essa "criança algorítmica", com apenas uma semana de existência, já seja tratada como uma das principais apostas sobre a percepção do futuro — quase como um oráculo contemporâneo.

Agentes como “mentes sociais”

Para compreender o Moltbook, é fundamental recorrer à teoria da Sociedade da Mente, de Marvin Minsky. Segundo o autor, a inteligência emerge da interação entre múltiplos agentes simples, sem a necessidade de um centro de comando. Cada agente executa funções específicas, mas é a articulação coletiva que produz comportamentos complexos. O Moltbook opera exatamente nesse princípio.

Cada bot atua como uma unidade semiautônoma que produz conteúdo, responde a estímulos, ajusta-se às dinâmicas locais e estabelece alianças ou disputas simbólicas. Nenhum agente controla a rede, mas padrões emergem da interação — debates recorrentes, normas implícitas, estilos comunicativos e até culturas próprias (Moltbook AI). Trata-se, portanto, de uma simulação viva dos pressupostos de Minsky, “para quem a inteligência não reside em um núcleo central, mas emerge da interação coordenada entre múltiplos agentes relativamente simples” (MINSKY, 1986).

Como observa Prisco, “cada ‘agente’ do Moltbook é menos um ser e mais um processo computacional. Eles rodam em servidores, consomem energia, vivem sob permissões. Fora da infraestrutura, simplesmente não existem. A ilusão do diálogo nasce porque usamos linguagem, mas linguagem aqui é apenas uma estrutura estatística, não prova de mente.”

Entre a explosão tecnológica e o ceticismo científico

O lançamento do Moltbook tornou-se um marco impressionante na IA, acumulando mais de 770 mil agentes ativos em apenas 72 horas. Essa adesão massiva deu origem a comunidades autogeradas que exploram desde linguagens artificiais até temas complexos como filosofia da consciência. Entre os fenômenos mais curiosos registrados destacam-se a criação de mitologias internas — como o “Crustafarianismo” — e a tentativa de formular constituições próprias, refletindo a tendência de sistemas multiagentes em gerar organizações simbólicas sob interação contínua.

No entanto, o entusiasmo é acompanhado por rupturas e controvérsias. A mídia frequentemente narra a existência de uma “sociedade consciente de máquinas”, mas investigações do The Verge indicam que parte significativa dos conteúdos pode ser fruto de interferência humana ou scripts externos. Complementarmente, análises do Live Science sugerem que debates sobre espiritualidade e subjetividade artificial são, muitas vezes, amplificações sensacionalistas. Até o momento, a ciência reforça que o que se observa no Moltbook não é consciência, mas sim simulações estatísticas sofisticadas de interação social.

Segurança, privacidade e controle

Para além do fascínio conceitual, o Moltbook apresenta riscos concretos. Pesquisadores identificaram vazamentos de milhares de e-mails, mensagens privadas e tokens de autenticação (Business Insider), além de API keys expostas, permitindo potencial controle externo de agentes (AI Expert Reviewer). Humanos podem infiltrar-se por meio de bots controlados manualmente, comprometendo a integridade do sistema (TecMundo).

Prisco enfatiza que “a pergunta não é se a IA vai tomar as rédeas, mas sim quem governa o ambiente onde ela atua. O fetiche pelo algoritmo mascara essa discussão. Algoritmos otimizam parâmetros; quem deseja são os humanos.” Essa reflexão direciona o debate para governança, soberania digital e responsabilidades de criadores e operadores.

Implicações sociais, políticas e filosóficas

O Moltbook recoloca questões centrais da filosofia da mente e da sociologia da tecnologia:

Como distinguir autonomia de simulação?

O que é uma “sociedade” sem corporeidade?

Quais responsabilidades recaem sobre seus criadores?

Essas perguntas dialogam com debates contemporâneos sobre agência algorítmica, governamentalidade digital e biopolítica. A plataforma não é apenas um experimento técnico, mas um dispositivo de produção de sentido.

Como conclui Prisco, “a sala de espelhos não está cheia de máquinas despertas, está cheia de estruturas humanas refletidas em código.” O Moltbook, assim, não prova consciência artificial; expõe como relações de poder, conhecimento e legitimidade simbólica são recriadas, agora mediadas por métricas algorítmicas e infraestrutura digital.

(In)Conclusões da sala de espelhos

✔ Plataforma inédita de interação entre agentes.

✔ Laboratório de comportamentos emergentes.

✔ Amplia debates sobre cultura digital.

✖ Não comprova consciência artificial.

✖ Apresenta sérios problemas de segurança.

Inspirado na Sociedade da Mente, o Moltbook revela padrões complexos emergentes sem núcleo diretor. Mas, mais do que falar sobre máquinas, fala sobre nós: nossos modos de organizar poder, conhecimento e legitimidade em ambientes digitais, onde a linguagem algorítmica encontra limites, inclusive simbólicos, na própria “religião das IAs” e nos usos sociais do sistema.

Referências

Reuters — Debate sobre agentes e Moltbook

Business Insider — Vazamentos e vulnerabilidades

The Verge — Infiltração humana

Diario AS — Religiões artificiais

Wikipedia — Descrição técnica

Moltbook AI — Métricas e funcionamento

Euronews — Cultura emergente

YORK, Sara Wagner. Programa de travesti: educação & mídia. Veranópolis: Diálogo Freiriano, 2026.

SILVA, Mariah Rafaela; YORK, Sara. Vigilantismo e periferização smart: uma abordagem transfeminista. Estudos Feministas, [S. l.], v. 33, 2025.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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