Muito além do show: Shakira e a força política da cultura latina
Milhares de pessoas reunidas não participam apenas de um espetáculo. Participam de um processo de reposicionamento
Quem ocupa o imaginário coletivo ocupa também o poder de definir referências, desejos e horizontes. Durante décadas, a América Latina assistiu aos grandes shows à margem. Importávamos artistas, consumíamos tendências produzidas em lugares distantes da nossa realidade e identidade e organizávamos nosso calendário cultural a partir de agendas que não nasciam em terras reconhecidas como nossas. Pagávamos caro para celebrar referências impostas por indústrias de entretenimento hegemônicas. A confirmação do show gratuito de Shakira em Copacabana precisa ser lida como parte de um deslocamento dessa lógica.
Não que Shakira precise da Cidade Maravilhosa, mas a América Latina precisa da força das artes no enfrentamento aos avanços conservadores. O que está em curso é uma inversão de fluxo simbólico. A cultura latina passa a ocupar a centralidade. Não apenas exporta música, mas exporta linguagem, estética, identidade e visão de mundo. Isso é soft power. Não como algo excêntrico, mas como capacidade real de moldar percepções mundiais, inclusive mantendo o espanhol como língua principal nas apresentações, não o inglês, condição até então dos grandes eventos internacionais. Essa é a primeira camada.
A segunda é a disputa por hegemonia simbólica. Hegemonia essa que define o que é referência, o que é universal, o que é tendência. Durante muito tempo, essa autoridade esteve concentrada fora da latinidade, do tal molho. Ao ocupar o centro da indústria cultural global a partir de suas próprias narrativas, a América Latina passa a disputar com força esse poder. Não é só sobre música. Trata-se da estrutura que organiza o campo cultural: quem cria, quem lucra e quem controla a narrativa.
A terceira camada é histórica. As culturas latino-americanas sempre foram atravessadas por resistência. Resistência indígena à colonização. Resistência negra à escravidão. Resistência feminina às estruturas patriarcais. Resistência cultural às ditaduras. Resistência territorial das periferias urbanas. E as artes da América Latina para o mundo contam essas histórias.
É nesse ponto também que a dimensão feminista da trajetória de Shakira ganha densidade política. Ao transformar uma experiência íntima de ruptura em afirmação pública de independência e autonomia emocional, ela não produziu apenas um episódio de grande repercussão midiática. Produziu discurso que dialoga com uma longa história de resistência das mulheres latino-americanas.
Em um continente marcado por desigualdades estruturais de gênero, afirmar autonomia como valor central reorganiza o imaginário coletivo. Essa camada dialoga com outra, representada por artistas como Bad Bunny, cuja projeção mundial valoriza a origem, a raiz, a identidade, as superações e as lutas. A cultura latina deixa de pedir validação externa e passa a narrar massivamente a própria história.
Tudo isso converge em um contexto político específico. Nos últimos anos, alguns países latino-americanos viveram ofensivas da extrema direita contra o campo cultural. Na Argentina, cortes atingiram instituições históricas. No Peru, artistas e coletivos culturais foram impactados pela repressão às mobilizações sociais. Na Colômbia e no México, lideranças culturais vivenciaram ameaças. No Brasil, a guerra cultural do desgoverno de direita chegou a extinguir o Ministério da Cultura, em um episódio que simbolizou essa disputa. A disputa não é apenas institucional. É disputa de narrativa, de memória, de identidade e de imaginário. Projetos autoritários tentam estreitar horizontes simbólicos. A cultura, ao contrário, amplia-os.
Copacabana transforma o show em convergência dessas camadas. Ali estão a inversão do fluxo cultural, a afirmação feminista, a resistência histórica e a referência simbólica. Milhares de pessoas reunidas não participam apenas de um espetáculo. Participam de um processo de reposicionamento. Shakira no Rio não é apenas entretenimento, é evidência de que deixamos de ocupar exclusivamente a margem do sistema cultural global. É soft power latino em ação. É disputa por centralidade simbólica. É a transformação do imaginário coletivo em praça pública.
E, no mundo contemporâneo, quem disputa o imaginário disputa o futuro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



