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Marcela Canéro

Jornalista formada pela FACHA, com Especialização em Movimentos Sociais pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ. Áreas de atuação: Cultura, Políticas Públicas e Direitos Humanos.

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Muito além do show: Shakira e a força política da cultura latina

Milhares de pessoas reunidas não participam apenas de um espetáculo. Participam de um processo de reposicionamento

Cantora colombiana Shakira durante apresentação no Centro Carson, Califórnia. 10/05/2014. REUTERS/Mario Anzuoni (Foto: MARIO ANZUONI)

Quem ocupa o imaginário coletivo ocupa também o poder de definir referências, desejos e horizontes. Durante décadas, a América Latina assistiu aos grandes shows à margem. Importávamos artistas, consumíamos tendências produzidas em lugares distantes da nossa realidade e identidade e organizávamos nosso calendário cultural a partir de agendas que não nasciam em terras reconhecidas como nossas. Pagávamos caro para celebrar referências impostas por indústrias de entretenimento hegemônicas. A confirmação do show gratuito de Shakira em Copacabana precisa ser lida como parte de um deslocamento dessa lógica.

Não que Shakira precise da Cidade Maravilhosa, mas a América Latina precisa da força das artes no enfrentamento aos avanços conservadores. O que está em curso é uma inversão de fluxo simbólico. A cultura latina passa a ocupar a centralidade. Não apenas exporta música, mas exporta linguagem, estética, identidade e visão de mundo. Isso é soft power. Não como algo excêntrico, mas como capacidade real de moldar percepções mundiais, inclusive mantendo o espanhol como língua principal nas apresentações, não o inglês, condição até então dos grandes eventos internacionais. Essa é a primeira camada.

A segunda é a disputa por hegemonia simbólica. Hegemonia essa que define o que é referência, o que é universal, o que é tendência. Durante muito tempo, essa autoridade esteve concentrada fora da latinidade, do tal molho. Ao ocupar o centro da indústria cultural global a partir de suas próprias narrativas, a América Latina passa a disputar com força esse poder. Não é só sobre música. Trata-se da estrutura que organiza o campo cultural: quem cria, quem lucra e quem controla a narrativa.

A terceira camada é histórica. As culturas latino-americanas sempre foram atravessadas por resistência. Resistência indígena à colonização. Resistência negra à escravidão. Resistência feminina às estruturas patriarcais. Resistência cultural às ditaduras. Resistência territorial das periferias urbanas. E as artes da América Latina para o mundo contam essas histórias.

É nesse ponto também que a dimensão feminista da trajetória de Shakira ganha densidade política. Ao transformar uma experiência íntima de ruptura em afirmação pública de independência e autonomia emocional, ela não produziu apenas um episódio de grande repercussão midiática. Produziu discurso que dialoga com uma longa história de resistência das mulheres latino-americanas.

Em um continente marcado por desigualdades estruturais de gênero, afirmar autonomia como valor central reorganiza o imaginário coletivo. Essa camada dialoga com outra, representada por artistas como Bad Bunny, cuja projeção mundial valoriza a origem, a raiz, a identidade, as superações e as lutas. A cultura latina deixa de pedir validação externa e passa a narrar massivamente a própria história.

Tudo isso converge em um contexto político específico. Nos últimos anos, alguns países latino-americanos viveram ofensivas da extrema direita contra o campo cultural. Na Argentina, cortes atingiram instituições históricas. No Peru, artistas e coletivos culturais foram impactados pela repressão às mobilizações sociais. Na Colômbia e no México, lideranças culturais vivenciaram ameaças. No Brasil, a guerra cultural do desgoverno de direita chegou a extinguir o Ministério da Cultura, em um episódio que simbolizou essa disputa. A disputa não é apenas institucional. É disputa de narrativa, de memória, de identidade e de imaginário. Projetos autoritários tentam estreitar horizontes simbólicos. A cultura, ao contrário, amplia-os.

Copacabana transforma o show em convergência dessas camadas. Ali estão a inversão do fluxo cultural, a afirmação feminista, a resistência histórica e a referência simbólica. Milhares de pessoas reunidas não participam apenas de um espetáculo. Participam de um processo de reposicionamento. Shakira no Rio não é apenas entretenimento, é evidência de que deixamos de ocupar exclusivamente a margem do sistema cultural global. É soft power latino em ação. É disputa por centralidade simbólica. É a transformação do imaginário coletivo em praça pública.

E, no mundo contemporâneo, quem disputa o imaginário disputa o futuro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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