"Não vamos aceitar que matamos JK"
Segundo Gilberto Natalini, a Comissão Nacional da Verdade foi pressionada pelos radicais das Forças Armadas
“Eu tenho quase certeza de que aquela decisão da Comissão Nacional da Verdade, de assumir que JK morreu num acidente, foi o dedo desses radicais dentro das Forças Armadas, que disseram: ‘Até vocês dizerem que a gente mata terrorista, mata guerrilheiro, a gente aceita, mas dizer que nós matamos um ex-presidente da República, nós não vamos aceitar’. Aí puseram medo, e a Comissão Nacional e o establishment político da época não tiveram coragem de colocar a verdade na praça". Em entrevista ao programa “Cessar-fogo”, da TV 247, o ex-presidente da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, Gilberto Natalini, conta que a comunidade de informações está ativa e sonha com a volta da ditadura.
EU: Como é que vocês chegaram à conclusão de que JK morreu num atentado?
NATALINI: Olha, nós estudamos muito o caso, investigamos bastante, quase que praticamente durante dois anos. A Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, que eu tive a honra de presidir, quer dizer, existiu uma primeira comissão em 2012, presidida pelo vereador Ítalo Cardoso, da qual eu fui vice-presidente. Quando encerrou o prazo daquela comissão, eu propus uma nova reedição da Comissão Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, e aí, normalmente, quem propõe é quem preside. Então, eu fiquei presidente com mais seis vereadores, éramos sete vereadores. E eu busquei o Ivo Patarra, um jornalista investigativo que você conhece, muito combativo, para nos assessorar na comissão. E a comissão fez um estudo grande sobre vários aspectos.
EU: O depoimento que mais me impressionou foi o do ex-agente do SNI e do DOI-CODI Cláudio Antônio Guerra. Você foi até o Espírito Santo para falar com ele?
NATALINI: Até Cariacica. Eu o entrevistei por mais de quatro horas na casa dele. E, no final, foi muito interessante, porque ele... Ele nos disse que estava arrependido do que tinha feito. E ele fez barbaridades, brutalidades enormes a serviço da ditadura. E, no final, ele me disse: “Natalini, eu não quero que você me perdoe, eu não quero que ninguém me perdoe, eu não quero que Deus me perdoe. Eu só quero eu mesmo me perdoar pela maldade que eu fiz na minha vida anterior, na minha vida antepassada”. Aquilo me marcou muito, porque ele estava procurando o próprio perdão para as loucuras que ele fez para o regime militar. Era uma coisa impressionante. Mas nós tivemos o depoimento do Carlos Heitor Cony, nós tivemos o depoimento do próprio motorista da Cometa, o Josias. Nós tivemos o depoimento do doutor Paulo Oliver, que era um advogado que estava sentado no primeiro banco do ônibus da Cometa, que disse que o ônibus não bateu com o carro, não teve batida nenhuma. O carro passou, e o acidente não dependeu do ônibus. Então, foram muitos depoimentos que a gente teve para chegar à conclusão daqueles 114 quesitos que estão lá no capítulo cinco do nosso relatório da Comissão da Verdade, que é sobre Juscelino Kubitschek. E a gente levantou 114 quesitos de suspeitas, indícios e provas de que Juscelino não havia sofrido um acidente. Nós somos a primeira comissão do Brasil, a primeira voz do Brasil, que lançou um relatório dizendo que Juscelino tinha tido morte matada, e não morte morrida. E depois, em seguida, fomos confirmados com outros relatórios, como os da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, da Assembleia Legislativa, e o relatório da Comissão da Assembleia de Minas Gerais, que também chegaram à mesma conclusão. Aí nós pegamos o resultado do nosso relatório e mandamos para a Comissão Nacional da Verdade. Na época existia a Comissão Nacional da Verdade, só que a Comissão Nacional da Verdade teve um entendimento contrário ao nosso. Eles desautorizaram a nossa tese de assassinato e replicaram a tese de acidente que já tinha sido defendida pelos peritos da época da ditadura, do Instituto Carlos Éboli e da polícia da época, que criaram essa narrativa de acidente. Depois, essa narrativa foi confirmada por uma comissão que foi reaberta em 1996, a pedido de Serafim Jardim, que era secretário particular do Juscelino. E depois, no ano 2000, uma comissão externa da Câmara Federal também estudou o caso e, com base nos mesmos laudos, dos mesmos peritos que fraudaram os laudos, que inventaram coisas, que esconderam provas, essa comissão externa também concluiu que Juscelino tinha morrido num acidente. Fomos nós, aqui em São Paulo, na Comissão da Verdade da Câmara, os primeiros a dizer não. Nós já estamos aqui com as provas, a morte foi provocada por um atentado político que ele sofreu na Dutra. Isso está sendo confirmado agora, depois de 50 anos, pela Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério dos Direitos Humanos da área federal, que concordou com a nossa tese. Você sabe que o Sérgio Ejzenberg é um dos maiores peritos de trânsito do Brasil. E ele fez um estudo a pedido de um promotor de Resende, em 2019. Ele fez um estudo detalhadíssimo sobre... O estilo do carro, do sinistro com o carro. E ele mostrou, em 200 páginas de um laudo altamente científico, que aquilo não se tratou de um acidente. Tratou-se de uma coisa provocada, algum problema no carro ou no motorista. Com base nesse laudo, eu e o Ivo Patarra oficiamos a Comissão de Mortos e Desaparecidos, enviamos o laudo e pedimos para que eles estudassem aquele laudo para mudar a versão oficial da morte do Juscelino. Isso foi em 2024. E agora, em 2026, sai o resultado da comissão com seis votos a favor e uma abstenção, comprovando a nossa tese que nós levantamos em 2013, mudando a história do Brasil, com o governo federal aceitando que houve um atentado contra Juscelino.
EU: O que aconteceu no dia 22 de agosto de 1976, no carro Opala, dirigido por um motorista com 30 anos de profissão a serviço de JK?
NATALINI: Juscelino e Geraldo Ribeiro iam de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro. No meio do caminho, eles pararam, no quilômetro 165, no Hotel Fazenda Villa-Forte. Não se sabe bem o que aconteceu no Hotel Fazenda Villa-Forte. O que se sabe é que o Juscelino teria uma reunião com dois emissários do ditador da época, Ernesto Geisel. O Juscelino, evidentemente, estava lutando pelo fim da ditadura, e, supostamente, dois emissários, dois generais, queriam conversar com ele e marcaram nesse hotel. O dono desse hotel era o brigadeiro Nilton Villa-Forte, que foi um dos criadores do SNI, Serviço Nacional de Informações. Um cara da linha dura. E Juscelino foi sozinho nesse encontro, ele e o motorista. Entraram os dois, ficaram ali durante uma hora e meia. E, na saída, o Geraldo Ribeiro sentiu alguma coisa no carro, perguntou para o guardador: alguém mexeu no carro? Evidentemente, o guardador não ia dizer que alguém mexeu no carro. Não, não, ninguém mexeu no carro. Eles saíram, três minutos depois, coisa assim, o carro ficou desgovernado. Há vários depoimentos, inclusive do Paulo Alves, do Paulo Oliver, que viu o carro se desalinhando, coisa que o motorista experiente, o Geraldo Ribeiro, jamais faria, né? E que estava correndo muito etc. E, de repente, ele atravessa na frente do ônibus da Cometa, passa para outra pista... e vai de encontro a uma carreta. E aí pronto, aí deu-se a morte.
EU: O que é importante no depoimento do Cláudio Guerra é que ele diz que era comum o SNI simular acidentes, para não aparecer um atentado. Isso ele diz textualmente, ele também disse na Comissão Nacional da Verdade, por isso que eu achei esquisito a Comissão Nacional da Verdade vir com essa tese do acidente, porque ele mesmo disse, na Comissão Nacional da Verdade, que esse atentado ao Juscelino foi planejado dentro do SNI, mas que ele não participou. Ele não participou, mas ele sabia que aconteceu dentro do SNI. E o depoimento dele também é importante, porque ele conta o caso da Zuzu Angel. A morte de Zuzu Angel aconteceu em abril daquele ano. E o autor desse atentado à Zuzu Angel foi o Fred Perdigão, o capitão Fred Perdigão, que era o chefe do Cláudio Antônio Guerra. E que também participou do atentado no Riocentro, em 1981. Então, me parece que o caso da Zuzu Angel foi um ensaio para o atentado a Juscelino. O que você acha disso?
NATALINI: Eu acho que você tem razão. O Cláudio Guerra é uma testemunha muito importante porque, no arrependimento dele, ele contou coisas do arco da velha sobre a comunidade de informações, a repressão política que tinha na ditadura. Ele conta muito, escreveu um livro sobre isso, “Uma Guerra Suja”, um livro muito interessante. Agora, o Juscelino estava se articulando para concorrer no Colégio Eleitoral, em 1978, à Presidência da República. E, pelas informações que o Carlos Heitor Cony nos deu, ele tinha contabilizado votos que davam chance para ele ganhar a Presidência da República no próprio Colégio Eleitoral da ditadura. Isso é muito interessante, né? Como o Tancredo ganhou depois, né? Então, veja só, ele tinha feito uma aliança política com duas pessoas que não eram aliadas políticas dele, mas que tinham feito uma aliança em nome do retorno da democracia, que eram o João Goulart e o Carlos Lacerda. Eles formaram a chamada Frente Ampla e estavam caminhando, trabalhando para que Juscelino captasse os votos dos membros do Colégio Eleitoral, onde ia disputar contra, provavelmente, um general da ditadura, que no final foi o João Figueiredo, e tinha muita chance de ganhar. Aí os caras decidiram acabar com a brincadeira. Aquilo não foi uma coisa só no Brasil. Existia uma articulação internacional chamada Operação Condor, que era comandada na época pelos Estados Unidos aqui no Cone Sul da América. Então, eles mataram lá no Chile o Orlando Letelier, explodiram ele lá, mataram ele. Eles mataram várias pessoas que tinham relações com o restabelecimento democrático nos países do Cone Sul. E aqui no Brasil, o Juscelino era uma ameaça para a continuidade do regime. Então, tramaram... simularam um acidente de maneira muito interessante. Olha, por exemplo, o Josias, o motorista da Cometa, ele conta para nós, lá no relatório tem o depoimento dele, Alex, dizendo que, alguns dias depois do acidente da Dutra, ele foi acusado de ter batido com o ônibus no carro e tudo, e ele não bateu. Depois, provou que não foi verdade, não teve batida. Ele disse que dois barbudinhos em uma moto procuraram ele na casa dele aqui na Grande São Paulo, com uma mala de dinheiro, oferecendo aquela mala de dinheiro para ele, para ele assumir que ele tinha sido a causa do acidente do Juscelino. Queriam que ele declarasse culpa, mostraram a mala de dinheiro, ele recusou aquele dinheiro, e os caras foram embora, e ele não assumiu. Lá nos 114 quesitos tem várias coisas que a gente mostra lá que tinha uma trama por trás da morte de Juscelino, que culminou com essa batida do carro na Via Dutra, e que o Sérgio Ajzenberg mostrou pela conduta do carro. Ele fez até simulação com vídeo, ele mostrou que a conduta do Opala do Juscelino não era a conduta de um acidente, era a conduta de um carro desgovernado por algum defeito mecânico. Então, é isso. Se o Brasil tiver vontade agora, depois de dizer que Juscelino foi matado, desculpe usar essa palavra popular, é preciso saber como foi que mataram Juscelino. Esses detalhes, embora tenha passado muito tempo da morte, mas ainda há indícios que você pode ir atrás para tentar aproximar-se de que maneira que Juscelino... precisar mais o que causou aquele desastre do carro. Eu acho que esse é o próximo passo, que, se a gente puder, a gente teria que caminhar.
EU: O mais estranho é que todo o inquérito de 1976 foi comandado por um médico, e não um perito, um amigo do general Golbery, foi o que o promotor de Resende disse ao Ivo Patarra, na “Caros Amigos”...
NATALINI: ... que foi quem foi chantagear a dona Sarah... com as páginas do diário de JK, que a dona Sarah começou a gritar que tinham matado o marido dela. Ela começou, se revoltou. E depois ela mudou a conduta, porque, segundo o Carlos Heitor Cony, esse Guilherme Romano foi na casa da dona Sarah, com as páginas do diário, mostrou para ela e disse: “Olha, se a senhora continuar falando isso, nós vamos mostrar o que Juscelino está escrevendo sobre a senhora e sobre o casamento”. E aí ela se amedrontou e mudou a versão. Quem me contou isso foi o Carlos Heitor Cony, na casa dele, no Rio de Janeiro. Isso está gravado na nossa Comissão Municipal da Verdade, a chantagem que eles fizeram, que esse médico fez com a dona Sarah Kubitschek.
EU: Você chegou a ver o diário do Juscelino?
NATALINI: Não, não vi, mas o Carlos Heitor Cony deu detalhes para nós sobre o diário. O Carlos Heitor Cony conhecia o diário, porque ele era muito íntimo do Juscelino. Ele era confidente do Juscelino. E o Juscelino estava sofrendo uma crise na época, uma crise de família e tal, tinha problemas lá de relacionamento, e ele colocava isso no diário. E ele também tinha um caso fora do casamento, e ele colocava no diário. Era esse o conteúdo, segundo o Carlos Heitor Cony me contou, na casa dele, no Rio de Janeiro. Eu fiquei cinco horas entrevistando ele lá, com a TV Câmara, gravando. Ele me contou isso, dizendo que foi uma chantagem feita com essas páginas do diário que esse médico, dez minutos depois que o carro bateu, esse homem entrou, passou a barreira militar, entrou lá, pegou a pasta do Juscelino com essas coisas dentro, levou e usou para chantagear a família do Juscelino a partir da dona Sarah Kubitschek. Então, você vê que o esquema era muito violento, uma coisa muito terrível, né?
EU: Aquele hotel era conhecido como Hotel do SNI, o João Batista Figueiredo era o chefe do SNI, o dono do hotel foi um dos criadores do SNI, e o Golbery foi o primeiro chefe do SNI. E é bom que o público saiba que o SNI não captava só informações. O SNI tinha conexão direta com o DOI-CODI, por isso foi importante o Cláudio Guerra, porque o Cláudio Guerra conta ali no relatório que ele foi convocado, ele era um policial do Espírito Santo, e um promotor é que o levou para ser agente do SNI, e quando ele chega no SNI se apresenta ao chefe dele. O chefe é o capitão Perdigão. O capitão Perdigão era do DOI-CODI. Então, não tinha separação. Era SNI, DOI-CODI, era a mesma coisa. É importante que as pessoas saibam, era a mesma coisa. O Cláudio Guerra, que denunciou, ele contou achando... Enfim, ele queria ser perdoado e etc., né? Essa coisa toda que você está falando. Mas o que é incrível é que ele confessa os assassinatos e está em liberdade. Quer dizer... “Ah, estou arrependido”. E as pessoas que ele matou? E as pessoas que ele matou? Então, o que acontece muito no Brasil, Natalini, eu moro aqui no Brasil há mais de 60 anos. O Brasil é um paraíso para os bandidos. Torturador, nazista, terrorista, tanto faz. Você vê que os torturadores estão todos ali, os que ainda estão vivos. Ah, porque teve o decurso de prazo. Porra, os nazistas no mundo estão sendo procurados. O cara é nazista de 90 anos e está sendo condenado. Não tem esse negócio.
NATALINI: Eu fui preso 17 vezes na ditadura, Alex. A primeira vez que eu fui preso, fiquei quase 50 dias no DOI-CODI, e eu fui torturado pessoalmente pelo coronel Ustra. Pessoalmente. Ele tinha a pachorra de vir pessoalmente torturar a gente. Eu e mais dois colegas da Escola Paulista de Medicina. Eu tinha 19 anos. Estava no terceiro ano da faculdade, da Escola Paulista de Medicina. E eu saí de lá com deficiência de audição nos dois ouvidos, de choque elétrico que aquele monstro deu na minha orelha pessoalmente. Quando ele cansava de bater e torturar, ele mandava os capachos dele fazerem isso. E ele também morreu aí solto. Depois eu o enfrentei na Comissão da Verdade, lá em Brasília. Tive um bate-boca terrível com ele lá. Tem até o vídeo, se você quiser eu te mando, mas eu falei para ele que ele era um... Ele me chamou de terrorista, eu falei: terrorista é o senhor, o senhor é um assassino. Um pouco antes dele morrer, ele já estava com 80 e poucos anos, mas ele morreu livre e solto, não é? Quer dizer, nós somos um país da impunidade, nós não vamos ser uma nação desse jeito. A gente tem que botar a lei para cumprir em defesa dos direitos humanos, em defesa da democracia e também em defesa da moralidade pública, porque não pode, nenhuma democracia se sustenta se todo mundo que está no poder mete a mão no dinheiro do povo. Aí fica difícil. É outra forma de torturar o povo. É roubar o erário da saúde, da educação, da assistência social, como é feito. Então, a gente tem esse conjunto de bandidos livres e soltos no Brasil. Alguns até se candidatam, outros... É uma impunidade brutal. Infelizmente, viu, Alex? Infelizmente, eu vou chegando ao ocaso da minha vida, entristecido...
EU: Ocaso da vida? Quantos anos você tem?
NATALINI: Eu tenho 74 anos.
EU: Você é garoto, você não tem nem o direito de pensar que você está no ocaso. Você ainda tem muita lenha para queimar.
NATALINI: Eu sei, graças a Deus a gente está trabalhando, viu, mestre? Mas trabalhamos muito, viu? Muita gente boa trabalhou, muita gente séria, democratas, autênticos, gente séria. A gente tem uma lista enorme, mas nós estamos um pouco assim hoje, um pouco dispersos. E o Juscelino, eu falo isso aqui, nós vamos ter um ato aqui em São Paulo no dia 10 de agosto, na Câmara Municipal de São Paulo. Um ato que nós estamos organizando. Eu, o Ivo, o presidente da Câmara topou, o vereador Ricardo Teixeira, o Serafim Jardim, o Ronaldo Costa Couto, que foi um grande entusiasta do Juscelino. Tem um grupo de pessoas se organizando para fazer esse ato. O ato terá um caráter duplo, Alex. Primeiro, a gente vai comemorar o resgate da verdade histórica. Isso é motivo de comemoração no Brasil. A verdade histórica sobre a morte de Juscelino foi considerada. Eu quero parabenizar a Comissão de Mortos e Desaparecidos, a relatora do caso, que fez um laudo de 1.000 páginas mostrando o que nós falamos e estudou muito mais ainda. Merece os parabéns. E o outro lado do ato, Alex, vai ser... uma exaltação à figura do Juscelino. Juscelino era um homem de centro, ele conversava com João Goulart, com Leonel Brizola e com Carlos Lacerda, porque ele era um cara da conciliação, ele tentava achar o lugar comum para o Brasil avançar. É o tipo de pessoa que a gente precisa hoje.
EU: Agora, como é que você pode entender um ex-presidente na ditadura... que não tinha seguranças? Ele andava sozinho para lá e para cá, sabia que estava sendo vigiado, sabia que era grampeado, e andava sem seguranças. É impressionante, não é? Talvez convencido daquela máxima: Deus poupou-me do sentimento do medo. Uma frase criada pelo Augusto Frederico Schmidt, que foi também assessor dele, mas que ele assumiu: “Não tenho medo, não tenho medo”. Mas, imagina, um cara vigiadíssimo. Você soube da Operação Juvenal na Paraíba?
NATALINI: Eu soube, nós não nos aprofundamos nisso, mas eu soube.
EU: Essa Operação Juvenal foi o seguinte, ele foi à Paraíba conversar com os correligionários dele. O SNI deslocou dois agentes do Rio de Janeiro para João Pessoa. Esses agentes alugaram um quarto no hotel, ao lado do quarto do Juscelino, colocaram escutas no quarto do Juscelino. Ele descobriu e passou a fazer reunião, sabe aonde? No mar. O SNI vigiou o Juscelino desde o dia da cassação, vigiou na Europa durante o exílio, sabia de tudo, vigiou a Maria Lúcia Pedroso, não podemos nem falar em caso, porque é uma coisa que começou em 1958 e durou até 1976, não era mais amante, era a segunda mulher, e todo mundo sabia, a dona Sarah sabia. Ela ficou sabendo em 1968, quando o próprio marido contou para ela. E, provavelmente, eu desconfio que isso foi coisa do SNI também. Porque, é claro, imagina, o Juscelino ia no apartamento dela. É evidente que ela também era grampeada. Então, o SNI, mais do que ninguém, sabia que ele tinha esse caso com a Maria Lúcia Pedroso. E não há provas, mas eu suspeito que o SNI revelou para o marido dela. E o marido, então, contou para a dona Sarah. Mas, evidentemente, não interessava a ninguém fazer escândalo. Nem à dona Sarah, nem ao Luiz Pedroso, que era assessor do Juscelino. Eu acho que o SNI é que descobriu, é o SNI que criou essa intriga, você não acha, não?
NATALINI: Sim, não tenho a menor dúvida. O serviço de informações da ditadura era muito refinado. Eles sabiam, a ditadura sabia bater até matar, torturar até matar quando queria, mas também sabia ser sutil a ponto de entrar na vida individual, pessoal de cada um, levantando dossiês enormes, chantageando. Era de uma especialização na investigação digna de qualquer serviço secreto de ditaduras e de governos no mundo. Então, foi muito... E o pior, Alex, é que o próprio Cláudio Guerra falou para nós, quando fomos lá, que esse sistema subterrâneo, que ele chama de comunidade, essa comunidade não se desmanchou no Brasil. Ela existe. É claro que não tem o poder, nem tem o aval do governo central, mas ela tem uma articulação entre ela. Muitos já morreram, mas entraram muitos novos. E ela tem uma relação com a direita mais bárbara, mais fascista do Brasil. Eles trabalham juntos no sentido de levantar a vida dos líderes mais de oposição, dos líderes mais democráticos. E estão na vida de todo mundo. Têm equipamentos, têm tudo na mão para poder investigar. É claro que não com o tamanho que tinham... Com o financiamento que tinham na ditadura... Mas essa comunidade de informação... Subterrânea... Embaixo do pano... Que as Forças Armadas tinham... Continua... Isso foi falado por várias pessoas para a gente... Pessoas que até participaram... Como o Cláudio Guerra... E outras pessoas que não vou citar aqui... Que não me autorizaram citar... Mas contam para a gente... Que essa... Se o negócio virar o jogo... no Brasil, a nossa democracia sofrer um colapso, isso sobe imediatamente e começa a prestar serviço como o SNI prestou. A gente tem que se preocupar com isso, entende? Nós que defendemos a democracia no Brasil, liberdades democráticas, bem-estar do povo, temos que nos preocupar com isso, porque estão aí, por baixo do pano, investigando. Eu, você e tantos outros... que têm essa postura mais libertária, vamos dizer assim, entende? Infelizmente, parece que isso é um fato real.
EU: E você sabe que a Maria Lúcia Pedroso era uma mulher... Era não, ela está viva, não é? Maria Lúcia Pedroso está viva também, com 90 anos, por aí. Ela fazia grandes recepções na casa dela, e sabe quem frequentava? O general Costa e Silva. O Costa e Silva frequentava a casa da Maria Lúcia Pedroso. Claro que não na hora em que o Juscelino estava lá, porque o Juscelino não ia às festas, mas o Costa e Silva frequentava a casa da Maria Lúcia Pedroso.
NATALINI: A comunidade está aí, rapaz. Dentro das Forças Armadas tem forças poderosas que estão no subterrâneo. Eles não falam, não vêm à tona, não ficam provocando, porque também não estão com essa força para fazer. Não, eles não são o Estado. E não têm o apoio internacional que tinham na época. Agora, talvez, com o governo americano, eles voltem a ficar assanhados. Mas eles estão aí, eles impedem certas coisas. Eu tenho para mim, eu vou falar uma coisa aqui, com toda a responsabilidade que eu tenho aqui no seu programa, o respeito que eu tenho por você é muito grande. Você sabe disso. Não só eu, como todo mundo. A sua história como jornalista. Agora, eu tenho quase certeza de que aquela decisão da Comissão Nacional da Verdade, de assumir que foi acidente, foi o dedo desses radicais dentro das Forças Armadas, que disseram: “Até vocês dizerem que a gente mata terrorista, mata guerrilheiro, a gente aceita. Mas dizer que nós matamos um presidente da República, nós não vamos aceitar”. Aí puseram medo, e a Comissão Nacional e o establishment político da época não tiveram coragem de colocar a verdade na praça. Como o tempo passou e a conjuntura hoje é outra, eu acho que agora a gente teve mais condição de fazer esse anúncio, e o rapaz das Forças Armadas teve uma conduta de se abster do voto, e foi o máximo que eles fizeram. Não houve nenhuma manifestação, todo mundo está quietinho.
EU: De quem foi esse voto da abstenção na Comissão de Mortos e Desaparecidos?
NATALINI: Eu não lembro o nome, é o representante do Ministério da Defesa na comissão. Eu não me lembro exatamente o nome. Ministério da Defesa. Ele foi nomeado recentemente, porque o anterior... Olha, para você ver, o anterior pediu demissão. O anterior, quando o negócio rolou, pediu demissão. Aí foi nomeado esse agora, e esse que foi nomeado agora, na hora de votar e tal, se absteve. Ele não votou a favor de aprovar o relatório da relatora lá. Então... Essa luta existe por baixo do pano no Brasil. A queda de braço é grande ainda entre o segmento da democracia e as forças que querem fazer a ditadura voltar. Essa luta existe aí no nosso país.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




