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Heba Ayyad

Jornalista internacional e escritora palestina-brasileira

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Negociações em Islamabad: o papel do Paquistão e dos países árabes

Washington e Teerã entendem que qualquer acordo exige o envolvimento dos principais Estados árabes

Negociações entre Irã e EUA no Paquistão (Foto: Reuters)

Washington e Teerã reconhecem que qualquer acordo precisa contar com os principais Estados árabes, especialmente no que diz respeito à segurança marítima no Golfo e no Mar Vermelho.

O papel do Paquistão como mediador fundamental entre o Irã e os Estados Unidos decorre de uma combinação de poderio militar, localização geográfica e relações equilibradas com ambos os lados. Além disso, possui um peso estratégico que faz com que negociar com ele não seja percebido como uma concessão ou rendição por parte do Irã.

O país é mais independente do que qualquer Estado árabe ou regional, pois não abriga bases estadunidenses em seu território, e a estreita relação entre o chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desempenha um papel fundamental no fortalecimento dessa posição.

Islamabad exerce um papel de liderança na Organização de Cooperação Islâmica (OCI), encabeçando esforços diplomáticos em questões como Palestina, Caxemira e o combate à islamofobia. Atualmente, o Paquistão enfrenta um desafio complexo ao tentar equilibrar sua aliança estratégica com a China e seu desejo de fortalecer os laços com o Ocidente, em meio a desafios econômicos internos e conflitos políticos que o governo busca superar para alcançar uma estabilidade duradoura. Nesse contexto, o país se posiciona como um parceiro confiável e trabalha para apoiar as negociações.

O Paquistão também tem suas próprias razões, sendo a mais importante delas o receio de que um colapso no Irã possa levar à sua fragmentação e alimentar movimentos separatistas na província paquistanesa do Baluchistão. O país busca proteger sua segurança nacional das repercussões dessa possível fragmentação e também evitar uma grave crise econômica que poderia resultar do fechamento do Estreito de Ormuz. Além disso, procura obter apoio financeiro e investimentos de aliados como a Arábia Saudita e os Estados Unidos, bem como contrabalançar a influência indiana. Embora o Paquistão esteja na vanguarda das negociações, há um papel árabe “invisível” que as apoia logística e politicamente, com algumas capitais árabes atuando nos bastidores para garantir o sucesso da mediação paquistanesa.

O papel árabe e sua importância

Washington e Teerã entendem que qualquer acordo exige o envolvimento dos principais Estados árabes, particularmente no que se refere à segurança marítima no Golfo Pérsico e no Mar Vermelho. Não está claro se os Estados árabes oferecerão pacotes de estímulo econômico ao Paquistão, caso o acordo seja bem-sucedido, ou mesmo ao Irã, como compensação em termos de infraestrutura. Os Estados árabes estão trocando informações com Islamabad, com três países se destacando como atores-chave nessa coordenação.

A Arábia Saudita, onde há uma coordenação de alto nível entre a liderança saudita e a liderança militar paquistanesa, é o maior financiador do Paquistão e considera a estabilidade do Irã um fator importante para reduzir a escalada regional e proteger seus projetos de desenvolvimento, como a “Visão 2030”.

Quanto ao Catar, o país tem um longo histórico de mediação entre Teerã e Washington e atualmente atua como “consultor técnico” do Paquistão na elaboração dos termos complexos do acordo. O Catar tem sediado reuniões paralelas secretas para aproximar os pontos de vista antes das rodadas oficiais em Islamabad.

Já os contatos entre Cairo e Islamabad estão relacionados a questões de segurança marítima, visto que o Egito se preocupa com a segurança do Canal de Suez, diretamente afetada por qualquer tensão no Estreito de Ormuz. Esse papel árabe representa a “espinha dorsal” sobre a qual o Paquistão se apoia. Sem o apoio do Golfo e do Egito, a mediação paquistanesa perderia grande parte de sua importância econômica e regional.

Os Estados árabes estão pressionando pela inclusão de “garantias de segurança abrangentes” que vão além de um mero cessar-fogo direto, algo fundamental para o Egito e os Estados do Golfo. Eles querem obter um compromisso oficial do Irã de não atacar navios comerciais nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb, em troca de um compromisso estadunidense de suspender o “bloqueio naval” e facilitar a passagem de petroleiros.

A proposta defende a suspensão do enriquecimento a 5% e a colocação do estoque atual, enriquecido a 60%, sob estrito controle internacional ou sua transferência para um terceiro país, sem exigir o desmantelamento imediato dos reatores, a fim de evitar o colapso das negociações.

Os países árabes propuseram alternativas à exigência iraniana de compensação financeira direta pelos ataques dos Estados Unidos. Essas alternativas incluem a criação de um fundo de investimento regional, com contribuições dos países do Golfo, para financiar projetos de infraestrutura no Irã; a substituição da compensação por uma suspensão gradual das sanções aos setores de aviação e farmacêutico; e, por fim, a redução da influência dos aliados do Irã.

A Arábia Saudita insiste, em particular, em uma cláusula que obrigue o Irã a interromper o fornecimento de drones e tecnologias de mísseis balísticos a grupos armados no Iêmen, no Líbano e na Síria, como pré-requisito para garantir a estabilidade regional a longo prazo.

Está em discussão uma proposta para formar um comitê composto por Paquistão, Catar, Arábia Saudita e Egito, com a finalidade de monitorar a implementação de qualquer acordo alcançado, garantindo um fiador regional confiável tanto para Washington quanto para Teerã. Teerã continua rejeitando a cláusula de “monitoramento” envolvendo seus aliados, enquanto Washington se recusa a fornecer qualquer assistência financeira antes de observar progressos concretos na questão nuclear.

O presidente Donald Trump, por outro lado, adota uma posição que combina “otimismo excessivo” e “pressão militar máxima” em relação às propostas apresentadas nas negociações de Islamabad.

“O garante regional” e a posição iraniana

O Paquistão assume o controle militar da fronteira compartilhada para impedir qualquer infiltração de grupos armados que possam sabotar o acordo.

A Arábia Saudita e o Catar estão criando um fundo financeiro para reconstruir a infraestrutura iraniana em troca de uma “mudança estratégica” na política regional de Teerã. Trump quer assinar o acordo antes do fim de abril, enquanto o Irã exige um cronograma preciso para o levantamento das sanções antes de entregar seu estoque de urânio.

O destino do estoque de urânio do Irã continua sendo o obstáculo mais complexo nas negociações de Islamabad. O Irã se recusa, até o momento, a abrir mão dele completamente, enquanto Washington insiste em sua remoção do país para garantir que Teerã não atinja o limiar nuclear. Teerã rejeita a ideia de enviar o estoque para o exterior, considerando-o um ativo nacional e uma linha vermelha ligada à sua soberania. Em vez disso, propõe uma alternativa: diluir o urânio altamente enriquecido dentro do próprio Irã, tornando-o inutilizável para fins militares, mas mantendo-o sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica.

Durante sua visita a Teerã, o marechal de campo Asim Munir tentou promover uma solução de “compromisso”: transferir o arsenal para um território neutro, talvez o próprio Paquistão ou o Catar, sob supervisão internacional conjunta, para garantir que ele não fosse utilizado pelo Irã, evitando, ao mesmo tempo, seu “confisco” permanente por Washington. Resta saber se o Paquistão e os Estados árabes terão sucesso nisso.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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