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Heba Ayyad

Jornalista internacional e escritora palestina-brasileira

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Negociações EUA-Irã: otimismo cauteloso

O obstáculo mais significativo que poderia dificultar as negociações é o Líbano

O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif (à direita), reúne-se com o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, antes das negociações de paz entre os EUA e o Irã, em Islamabad, Paquistão -11 de abril de 2026 (Foto: Reuters)

Todas as atenções estão agora voltadas para Islamabad, capital do Paquistão, onde as negociações entre os EUA e o Irã estão programadas para começar, sob os auspícios e a mediação do Paquistão, lideradas pelo primeiro-ministro Shehbaz Sharif e pelo chefe do Exército, general Asim Munir, que desempenhou um papel fundamental na intermediação de um cessar-fogo após quarenta dias de intensos combates entre os dois lados.

Um sentimento de expectativa, cautela e incerteza prevalece nos meios de comunicação e nos círculos políticos, bem como nos centros de tomada de decisão regionais e internacionais. Isso é compreensível, dado o nível que a guerra atingiu em todas as frentes geográficas e militares e considerando experiências passadas em que os Estados Unidos e seu aliado, Israel, recorreram à sabotagem da diplomacia, lançando duas guerras contra o Irã durante as negociações — uma em Omã e a mais recente em Genebra, mediada por Omã, que produziu resultados positivos, como reconhecido pelo ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr al-Busaidi. Essa situação é ainda agravada pelo contínuo aumento da presença militar dos EUA na região e por relatos de intensificação dos voos de carga militar dos Estados Unidos.

Contudo, não é totalmente correto exagerar essa visão pessimista das negociações, mesmo reconhecendo suas dificuldades. A situação atual pode ser avaliada como mais próxima de um otimismo cauteloso do que de um pessimismo excessivo. Esse otimismo cauteloso pode ser justificado com base em inúmeros fatores e dados, ditados pelas verdadeiras causas deste conflito e pelos resultados da recente guerra de quarenta dias.

A guerra como meio de negociação

As guerras sempre terminam em negociações, por mais intensas que sejam, desde que nenhum dos lados consiga uma vitória clara, decisiva e absoluta. No caso do conflito EUA-Irã, deve-se notar que uma vitória decisiva tornou-se praticamente impossível, especialmente porque o agressor, representado pelos Estados Unidos e por Israel, percebeu sua incapacidade de destruir os elementos da força e da continuidade militar iraniana, principalmente suas capacidades de mísseis e drones. Além disso, embora tanto os EUA quanto o Irã tenham se engajado em uma política de risco, cada um manteve aberta a possibilidade de resolução, abstendo-se de cruzar linhas vermelhas que, se ultrapassadas, poderiam ter levado a uma guerra irreversível e devastadora. Essas linhas vermelhas incluem, principalmente, recursos de combustíveis fósseis e energia elétrica, instalações químicas e nucleares e, adicionalmente, a segurança de cabos de Impasse militar

Os quarenta dias de guerra que antecederam o cessar-fogo demonstraram que os Estados Unidos foram incapazes de alcançar os objetivos declarados para o conflito, após o fracasso do elemento surpresa. O Irã conseguiu impor equações de dissuasão tática durante a batalha, que contribuíram para conter a agressão e controlá-la em eixos equilibrados e opostos. Estabeleceu uma dissuasão correspondente a cada ataque, com impacto equivalente em nível regional e efeito global, que variava desde instalações de energia até assassinatos em empresas de tecnologia.

Após ficar claro para seus adversários que o Irã era capaz de prolongar a guerra em ritmo acelerado por um longo período, para o qual se preparara durante décadas, relatórios de inteligência ocidentais indicaram que o país ainda possuía milhares de mísseis balísticos e dezenas de milhares de drones, além de sua elevada capacidade de fabricar plataformas de lançamento de mísseis.internet globais que atravessam as águas do Golfo, além de empresas de tecnologia globais e outros ativos.

Representação nas negociações

O nível de representação escolhido por ambos os lados para as negociações indica um desejo genuíno de alcançar resultados positivos. O vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, chefiará a delegação de seu país, enquanto o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, liderará a delegação iraniana. Anteriormente, reportagens da imprensa indicavam a preferência de Washington por Ghalibaf para chefiar a delegação iraniana, bem como o desejo do Irã de negociar com o vice-presidente Vance. Isso reflete a receptividade de ambos os lados aos interesses um do outro, com o objetivo de alcançar resultados positivos.

Vale ressaltar que Ghalibaf, além de seu papel e posição representativa dentro da liderança iraniana, é um economista com quem Washington prefere negociar. Quanto a Vance, sua suposta oposição à ideia de guerra, antes de Trump recorrer a essa opção, provavelmente o tornou mais credível para o lado iraniano nessas negociações.

A composição das duas delegações também indica seriedade mútua, visto que a delegação iraniana deverá incluir o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, além de autoridades militares, jurídicas e econômicas, enquanto a delegação estadunidense contará com Steve Wittkopf, Jared Kushner e autoridades militares.

Pré-negociações

Apesar da escalada da retórica durante a guerra e após o cessar-fogo, o último dia antes das negociações apresentou uma diminuição notável no nível de tensão política e um desejo mútuo de alcançar resultados positivos. Ao chegar ao Paquistão, o presidente do Parlamento iraniano, Qalibaf, expressou a boa vontade de seu país, afirmando: "Se os Estados Unidos tiverem a genuína intenção de conceder ao povo iraniano seus direitos nas negociações, verão, de nossa parte, uma prontidão para concluir o acordo".

Enquanto isso, o presidente dos EUA adotou um tom equilibrado ao delimitar o principal problema para seu país ao fato de o Irã não possuir armas nucleares, afirmando: "No que diz respeito a um bom acordo, antes de tudo, é não ter armas nucleares, e isso constitui 99% deste acordo". Essas declarações trocadas, independentemente de sua precisão em refletir o curso das negociações, demonstram um desejo de evitar que elas descarrilhem antes mesmo de começarem. Além da troca de declarações, os Estados Unidos responderam às exigências iranianas de pressionar Israel a cessar sua agressão contra o Líbano. Os ativos iranianos congelados no Catar e na Coreia do Sul também foram liberados, medida que reflete o desejo dos EUA de iniciar as negociações.

O conteúdo das negociações

Sem dúvida, a maioria, senão todos, os pontos de negociação já foram acordados. Sem esse entendimento prévio, um cessar-fogo e a definição de uma data para as negociações não teriam sido possíveis. Independentemente da ambiguidade em torno desses pontos — seja em relação ao plano estadunidense de 15 pontos, rejeitado por Teerã, seja ao plano iraniano de 10 pontos, que foi divulgado e no qual o cessar-fogo se baseou, apesar da negação de Washington —, é possível delinear o que poderá ser negociado com base nas declarações de ambos os lados.

Em relação à questão nuclear, é improvável que ela represente um obstáculo às negociações, visto que ambas as partes já realizaram diversas rodadas de discussões sobre o tema e obtiveram resultados positivos nas negociações de Genebra, conforme declarações do ministro das Relações Exteriores de Omã, como mencionado anteriormente. Trump pode, inclusive, utilizar esse argumento para promover um possível acordo com o Irã, considerando que a posição iraniana é clara quanto à ausência de armas nucleares. Em segundo lugar, há a questão da compensação exigida pelo Irã. Trata-se de um tema importante, para o qual uma solução de compromisso poderia ser alcançada, seja por meio da liberação de ativos iranianos congelados no exterior, seja pelo levantamento das sanções. Esses são, naturalmente, pontos que podem ser acordados sem que as negociações fracassem. No entanto, isso pode não ser suficiente para o lado iraniano.

Diante disso, Teerã vem levantando a questão do Estreito de Ormuz como um ponto de negociação, o que representa uma preocupação para Washington. Essa questão poderia ser transformada de um obstáculo em uma solução mutuamente aceitável. O Irã propõe receber taxas pela gestão da navegação no Estreito de Ormuz, que se encontra dentro de suas águas territoriais, e já iniciou medidas legais no parlamento iraniano a esse respeito.

Se Washington cedesse a essa exigência iraniana, estaria, na prática, oferecendo uma alternativa à demanda por reparações de guerra do Irã. As declarações de Trump sobre esse tema, no entanto, parecem contraditórias. Em alguns momentos, rejeita a ideia de o Irã receber taxas de navegação pelo Estreito de Ormuz; em outros, expressa o desejo de que o país participe dessa questão. Possivelmente, Trump busca sinalizar que o tema permanece aberto à negociação e que espera contrapartidas.

Na realidade, o que mais importa para Washington são dois pontos: primeiro, o interesse em investir nos recursos energéticos iranianos; segundo, garantir que o Irã não integre uma aliança hostil aos Estados Unidos. Assim, Washington considera o Irã uma das fontes de energia mais importantes do mundo e reconhece sua relevância geopolítica.

Diante disso, ciente da improbabilidade de o Irã se tornar um aliado direto, os Estados Unidos buscam estabelecer acordos de parceria econômica com o país, ainda que de forma parcial. Esses acordos funcionariam como uma garantia de que o Irã não se alinhará a blocos hostis, além de assegurar uma participação nos investimentos em energia. Trata-se, portanto, de um tema aberto à discussão com Teerã durante as negociações, desde que não infrinja a soberania iraniana nem comprometa seus interesses, posição e papel.

O possível impasse

O obstáculo mais significativo que poderia dificultar as negociações é o Líbano. A questão libanesa está diretamente relacionada à sua posição regional. Nem o Irã aceitará sua inclusão em um eixo alinhado a Israel, nem os Estados Unidos aceitarão sua inclusão em um eixo alinhado ao Irã. A questão central é: será possível encontrar um meio-termo por meio de negociações?

A abertura de uma via de negociação entre Líbano e Israel pode fazer parte desse contexto. Apesar do acordo sobre essa iniciativa entre o governo libanês e Washington, seus resultados permanecem condicionados ao desfecho das negociações entre os EUA e o Irã no Paquistão. No mínimo, qualquer acordo entre Líbano e Israel mediado por Washington será insuficiente sem levar em consideração o principal aliado de Teerã, o Hezbollah.

Em conclusão, é preciso reconhecer que as negociações dificilmente serão fáceis e podem se prolongar por um longo período, com possíveis violações do cessar-fogo ao longo do processo. Ainda assim, trata-se da única opção viável para o governo Trump. Ao que tudo indica, Trump, que iniciou sua ofensiva contra o Irã com base na lógica de obter o máximo possível, parece ter reconhecido a impossibilidade de alcançar esse objetivo, passando a considerar que o melhor resultado possível pode ser aquele mínimo viável.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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