Negócio da China
"A China, ao flexibilizar vistos, não é altruísta; é estratégica", escreve a colunista Sara York
Por uma estranha ironia histórica, a expressão “negócio da China” voltou a circular não como ditado folclórico, mas como diagnóstico político do nosso tempo. No dia 14 de janeiro de 2026, Donald Trump anunciou a suspensão do processamento de vistos de imigrantes de 75 países, sob a justificativa de que esses corpos “extraem riqueza do povo americano”. Quase em espelho, a China estendeu até o fim de 2026 a isenção de visto para brasileiros — turismo, negócios, visitas, trânsito — por até 30 dias. De um lado, a fronteira como suspeita; de outro, a fronteira como convite.
A palavra negócio ajuda a entender o que está em jogo. Vinda do latim negotium — nec (não) + otium (ócio) —, ela nomeia aquilo que *nega o tempo livre, o tempo da contemplação, da política, da educação do espírito. Para romanos e gregos, *otium era o tempo nobre; negotium, o tempo das obrigações. O capitalismo inverteu os polos: transformou o ócio em culpa e o negócio em virtude. O tempo deixou de ser vivido para ser administrado.
É nesse ponto que a política migratória vira pedagogia do mundo. Quando o Estado norte-americano declara que o imigrante é um custo — alguém que “extrai riqueza” —, ele ensina uma lição: vidas valem pelo saldo que produzem. Hannah Arendt já havia alertado para essa redução do humano ao animal laborans, quando o trabalho — e não a ação política — se torna a medida de todas as coisas. O que Trump faz é radicalizar essa lógica: a cidadania como planilha.
Byung-Chul Han chamaria isso de sociedade do desempenho, agora convertida em geopolítica do desempenho. Só entra quem promete render. Só permanece quem não “pesa”. A educação, nesse cenário, também é reconfigurada: deixa de ser otium formativo para virar treinamento de produtividade. Aprende-se para competir, não para pensar.
A China, ao flexibilizar vistos, não é altruísta; é estratégica. Mas sua estratégia revela outra racionalidade do tempo, circulação, encontro, trânsito. Michel Foucault nos ensinou que o poder moderno opera menos pela proibição explícita e mais pela gestão dos fluxos — de pessoas, saberes, afetos. Abrir ou fechar fronteiras é governar o tempo dos outros: quem pode circular, por quanto tempo, sob quais condições.
Na educação, essa disputa é decisiva. Quando tratamos estudantes — sobretudo migrantes — como “custos”, ensinamos exclusão. Quando reconhecemos a circulação como valor, ensinamos política. O verdadeiro “negócio da China” talvez não seja econômico, mas temporal, recuperar o otium como direito educativo, como tempo de formação crítica, em um mundo que insiste em converter tudo — inclusive pessoas — em transação.
No fim, a pergunta não é quem dá mais lucro, mas que mundo estamos ensinando a desejar. Se a educação continuar a negar o ócio e a naturalizar o negócio, a fronteira deixará de ser geográfica: passará a atravessar o próprio sujeito, aliás para alguns de nós isso já é ,concreto!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



