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Ruben Bauer Naveira

Ativista, pacifista e autor do livro Uma Nova Utopia para o Brasil: Três guias para sairmos do caos (disponível em: https://www.brasilutopia.com.br/); (contato e pix rjbnaveira@gmail.com)

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No radar geopolítico – EUA x Irã (II)

Delegação norte-americana agiu para inviabilizar um acordo, sugerindo que o verdadeiro objetivo do cessar-fogo era proteger suas tropas para um ataque iminente

Outdoor oficial anuncia negociações entre Irã e EUA no Paquistão (Foto: Reuters)

Do A Terra É Redonda

As negociações fracassaram. As delegações dos Estados Unidos e do Irã já se retiraram de Islamabad, capital do Paquistão. Como esperado, a divergência entre os interesses dos norte-americanos e os dos iranianos era profunda demais para poder ser superada.

O que também se esperava – e que não se verificou – era que os americanos estivessem mais propensos a ceder, porque são, no momento, o lado que teria mais a perder com a continuidade da guerra (mais especificamente, com o prolongamento do fechamento do estreito de Ormuz).

Os EUA são também quem insistentemente pedia um cessar-fogo para negociações; o Irã não queria, somente aceitou porque foi pressionado pela China nesse sentido (e, pela mesma razão, o prolongamento do fechamento de Ormuz prejudicará bastante a economia chinesa).

As negociações se estenderam por 21 horas, por insistência dos norte-americanos (após 14 horas, os iranianos chegaram a divulgar um anúncio de que as negociações parariam para prosseguir no dia de hoje). Não faz sentido tentar arrematar um processo de negociações tão complexo como esse em um único dia.

Ficou parecendo que os americanos “jogaram no impasse” e já chegaram com o projeto de ir embora logo, após terem conseguido “denunciar” a “intransigência” dos iranianos, os quais “não estariam dispostos a negociar” nada de fato. Como os iranianos não morderam a isca e se mantiveram negociando por todo o tempo, os americanos acabaram sendo eles a desistir primeiro.

Os iranianos divulgaram um comunicado final muito interessante, no qual afirmaram que o impasse se deu somente em “dois ou três” (de um total de dez) pontos (dentre eles, Ormuz) e que, em todos os demais pontos, foi possível chegar-se a um denominador comum.

A delegação americana foi chefiada pelo vice-presidente J. D. Vance, juntamente com Steve Witkoff e Jared Kushner (este, genro de Donald Trump), os quais foram os mesmos negociadores das conversações em Genebra, usadas como biombo para distrair os iranianos em meio aos preparativos finais para a guerra (lembrando que, logo no primeiro ataque, foi assassinado o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei).

Steve Witkoff e Jared Kushner têm notórias ligações com o governo israelense, e Larry Johnson diz hoje que seu papel em Islamabad era impedir que J. D. Vance chegasse a um acordo com os iranianos (ele os chama de “agentes sionistas”).

As negociações acabaram, mas o cessar-fogo (cuja razão de ser eram as negociações) continua. Por quê? Pelo lado do Irã, existe uma postura de não romper acordos, e o cessar-fogo foi acordado para durar duas semanas – não serão os iranianos a rompê-lo antes disso. Além do mais, com Ormuz fechado, o tempo joga a favor dos iranianos.

E quanto aos norte-americanos? Essa pode ser uma das chaves do enigma – se os americanos têm urgência na reabertura de Ormuz e, assim, deveriam ter tido interesse em chegar a um acordo em Islamabad, então por que eles insistiram tanto em um cessar-fogo, se não tinham nenhum interesse real em negociações?

A resposta pode ser que o cessar-fogo era, em si, o objetivo último. Os americanos podem estar acreditando que conseguem reabrir Ormuz por meios militares e necessitavam de um cessar-fogo para se preparar para isso, sem que as suas tropas posicionadas para o ataque fossem alvo dos drones e mísseis iranianos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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