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Mário Maurici

Jornalista, ex-vereador e ex-prefeito de Franco da Rocha, ex-vice-presidente da EBC e ex-presidente da Ceagesp. Atualmente, deputado estadual e primeiro secretário da Assembleia Legislativa de São Paulo.

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Nosso problema não é o povo

O verdadeiro problema do país, a verdadeira chaga, é a desigualdade, em todas as suas dimensões, mas sobretudo no que tange à distribuição da riqueza

Manifestação pelo fim da escala de trabalho 6x1 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Às vezes, a gente tem que chamar a Casa Grande pelo nome. O texto “Brasileiro trabalha menos que a média mundial”, publicado pela Folha de S.Paulo, no dia 21 de fevereiro de 2026, mostra que a elite brasileira mudou muito pouco desde o século XIX. 

Ao resgatar uma tradição ultrapassada de interpretação do país, a qual já não dispõe de nenhuma credibilidade científica, mas que tem inegável utilidade prática para fins de justificar a desigualdade e a injustiça social, o jornal foi criticado pelos próprios leitores. Ao atribuir os problemas econômicos do Brasil à falta de apego do brasileiro pelo trabalho, o texto se filiou a uma visão tradicional e preconceituosa, segundo a qual os problemas estruturais do país seriam o resultado da indolência, do misticismo e da malandragem do povo brasileiro.

Essa interpretação, embora hoje em dia procure disfarçá-lo, deita profundas raízes racistas e eugenistas. Segundo essa interpretação, o povo brasileiro seria o resultado de uma mistura de “raças inferiores”: o português (considerado um europeu inferior, que prefere o comércio à produção), o indígena e o negro.

É possível aferir que, longe de ser uma excrescência, essa tenha sido uma explicação hegemônica do país até o final de nosso último período ditatorial. Recentemente, causou polêmica a revelação de trechos de uma carta, escrita em 1938, de Monteiro Lobato para o amigo Godofredo Rangel. Neles, o escritor tece elogios à organização racista americana Ku Klux Klan por “manter o negro em seu lugar”. Para Lobato, “a mestiçagem do negro” seria a grande responsável por destruir “a capacidade construtiva” do povo brasileiro.

Embora houvesse à época quem combatesse esse tipo de concepção (algumas das melhores páginas da vertente mais crítica de nosso modernismo, na produção de um Mário de Andrade ou de um Oswald de Andrade, consistem na valorização irônica da malandragem, da preguiça e do messianismo popular), Monteiro Lobato não era o único a pensar assim, naquele final da década de 1930.

Basta lembrar que, entre o final do século XIX e começo do século XX, o Estado brasileiro criou uma série de políticas de “branqueamento”, com a intenção de "europeizar" a população brasileira por meio da imigração massiva de brancos, acreditando que as características negras e indígenas, responsáveis por nosso atraso, desapareceriam em poucas gerações.

Após o final da Segunda Guerra Mundial, os herdeiros dessa ideologia eugenista trocaram a palavra “raça” pela palavra “cultura”, mantendo intocada a estrutura do argumento. Em agosto de 2018, o general Mourão, então candidato à vice-presidência do Brasil, afirmou publicamente que o Brasil havia herdado “a indolência, que vem da cultura indígena”, e a “malandragem, oriunda do africano”. Ele também associou a “herança de privilégios” à colonização portuguesa.

Retomando a mesma tradição interpretativa, o texto da Folha de S.Paulo publicado no dia 22 de fevereiro de 2026 alega que a suposta preferência do povo brasileiro pelo “lazer” em detrimento do trabalho seria um traço “cultural”. Nas palavras do próprio texto: “o que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural” —explica o especialista consultado pelo jornal— “uma preferência por maior quantidade de lazer”.

Como já fazia Arthur de Gobineau, o pai do racismo científico, o texto publicado pela Folha de S.Paulo procura ocultar seu preconceito com uma armadura tecnicista. Não se trataria de opinião do jornal ou do jornalista, mas da mera divulgação objetiva dos resultados de uma pesquisa. O levantamento foi realizado pelo economista Daniel Duque, do FGV Ibre, a partir de um banco de dados global de horas trabalhadas de autoria dos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.

A premissa do levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo é bastante discutível: em linhas gerais, o economista conclui que quem é menos produtivo, caso do Brasil, deve trabalhar mais. Em vários momentos o jornal se refere à baixa produtividade do trabalhador brasileiro e chega a insinuar que a produtividade deriva direta e exclusivamente da habilidade individual ou do esforço de cada trabalhador individual, o que é um erro crasso de interpretação.

Em seu clássico A Riqueza das Nações (1776), Adam Smith utiliza o exemplo de uma fábrica de alfinetes para ilustrar como a divisão do trabalho aumenta drasticamente a produtividade. Smith constata que um artesão isolado, ainda que extremamente habilidoso, mal produz um alfinete por dia, enquanto dez trabalhadores especializados, sem o mesmo conhecimento do artesão individual, dividindo o processo em cerca de 18 tarefas diferentes e repetitivas, podiam produzir até 48 mil alfinetes por dia.

Ou seja, já na segunda metade do século XVIII se sabia que a organização do trabalho e o desenvolvimento técnico eram as chaves para o aumento da produtividade, e não apenas a habilidade individual de cada trabalhador. Um país que formasse profissionais altamente qualificados e que, por ter se desindustrializado, por exemplo, não fosse capaz de criar produtos complexos e de alto valor agregado, veria esses profissionais irem embora do país (fenômeno conhecido como “fuga de cérebros”) ou ocuparem empregos que não demandassem nenhuma expertise técnica, com menor remuneração. 

Talvez devido ao pragmatismo da cultura anglo-saxã, que impede a reflexão aprofundada sobre os fenômenos sociais, a pesquisa estadunidense não contabilizou como hora trabalhada o tempo que os trabalhadores gastam no deslocamento entre suas casas e o trabalho. Conforme demonstrou o jornalista Luis Nassif, em artigo crítico ao texto da Folha de S.Paulo, quando se contabilizam essas horas gastas no trajeto entre a casa e o batente, constata-se que o tempo despendido pelo brasileiro com o trabalho está no mesmo patamar da média mundial. 

O texto da Folha de S.Paulo tampouco menciona a idade e o tempo de trabalho mínimo para a aposentadoria, certamente outro descuido do levantamento feito pelo economista brasileiro (se causado por indolência ou por inépcia, não se pode dizer com certeza). O texto também insinua que, nos países desenvolvidos, o povo só teria começado a reduzir a jornada de trabalho após enriquecer, mas que, aqui no Brasil, devido à cultura da preguiça e do hedonismo, o povo escolheu abandonar o caminho da virtude e do esforço precocemente, numa espécie de versão econométrica da fábula da cigarra e da formiga. 

Fato é que, já no final do texto, cansado de defender o indefensável, o jornalista finalmente entrega o jogo: trata-se de um alerta sobre as consequências econômicas de uma eventual aprovação do projeto de lei que prevê a redução da jornada de trabalho, com o fim do chamado 6x1, regime de trabalho em que o trabalhador só dispõe de um único dia da semana para ficar com sua família. 

Está cada vez mais difícil para a nossa elite esconder que o verdadeiro problema do Brasil não é a indolência, a malandragem ou o misticismo do povo, mas a concentração de poder, dinheiro e prestígio nas mãos de um pequeno grupo de poderosos. O verdadeiro problema do país, a verdadeira chaga, é a desigualdade, em todas as suas dimensões, mas sobretudo no que tange à distribuição da riqueza.

Não é por acaso que o grande exemplo de trabalho e esforço, segundo o levantamento do economista brasileiro, seriam os Emirados Árabes, país em que um pequeno número de nobres que não trabalham (pois são membros das famílias reais dos diferentes principados) goza dos frutos do esforço de uma multidão de trabalhadores, grande parte deles estrangeiros com o passaporte retido, que não raro se veem submetidos a condições análogas à escravidão.

Quem conhece as agruras dos trabalhadores rurais, que levantam antes do nascer do sol para produzir alimento; quem mora nas periferias das grandes metrópoles brasileiras e já frequentou uma estação de trem ou um terminal de ônibus lotado às 5 da manhã; quem conhece a luta do nosso povo, sabe que o brasileiro não tem medo do batente. Pelo contrário: somos um povo resiliente, criativo e esforçado.

Como escreveu Machado de Assis, “o país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco”. O texto da Folha de S.Paulo, cujo teor de preconceito chega a ser caricato, reveste-se do caráter ridículo dos discursos de personagens da TV brasileira como Odete Roitman e Caco Antibes, e mostra que o vaticínio do bruxo do Catete segue atualíssimo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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