Notas sobre estilo, docência e escrita com IA
O problema para quem escreve desde campos crítico é que essa estrutura tende a alisar conflitos
Há algo de reconhecível - quase denunciador - na escrita produzida por inteligências artificiais. Para quem pensa linguagem não apenas como meio, mas como forma de produção de mundo, certos padrões sintáticos se repetem com frequência suficiente para se tornarem indícios de método. Um dos mais recorrentes é a estrutura "não se trata de X, mas de Y". À primeira vista, ela soa elegante, pedagógica, esclarecedora. No entanto, quando aparece reiteradamente em revisões textuais automatizadas, revela uma gramática própria da escrita de IA.
Falo aqui também a partir de um lugar situado, sou professora e uso inteligência artificial como ferramenta de apoio ao trabalho acadêmico. Em processos de revisão textual feitos por IAs - sobretudo quando se pede "clareza", "organização" ou "melhoria do argumento" - essa estrutura emerge quase automaticamente. Ela para além de ser um vício pessoal do autor humano, tornou-se um efeito do modo como os modelos foram treinados a organizar o pensamento escrito.
Do ponto de vista linguístico, trata-se de uma construção de contraste corretivo. A frase nega um primeiro enquadramento para, em seguida, propor outro, supostamente mais preciso. É um recurso altamente eficiente do ponto de vista comunicativo. Tal construção reduz ambiguidade, cria sensação de progresso argumentativo e produz um efeito de autoridade tranquila. A IA "ensina" enquanto escreve. Esse tom professoral não é casual uma vez que ele reflete uma forte presença nos dados de treinamento, de textos acadêmicos, ensaios explicativos e jornalismo interpretativo.
O problema - especialmente para quem escreve desde campos críticos, feministas, decoloniais ou dissidentes - é que essa estrutura tende a alisar conflitos. Ao dizer "não se trata disso, mas daquilo", o texto frequentemente substitui tensões históricas, políticas ou epistemológicas por uma oposição limpa, quase higienizada. O dissenso vira mal-entendido e a disputa vira ajuste conceitual que nem sempre é leal ao que se propõe.
Além dessa fórmula específica, há outros sintagmas e movimentos discursivos que aparecem com frequência em textos revisados por IA e que merecem atenção de quem pensa estilo:
"Mais do que…, trata-se de…" - uma variação que reforça hierarquia conceitual e sugere superação elegante.
"Não apenas…, mas também…" - expansão cumulativa que busca equilíbrio e inclusão, muitas vezes evitando escolhas mais duras.
"Em vez de…, devemos…" - deslocamento normativo com tom prescritivo suave.
"Isso não significa que…, e sim que…" - estratégia de contenção preventiva de críticas.
"Ao mesmo tempo" / "por um lado… por outro" - marcadores de falsa simetria, comuns em tentativas de parecer imparcial.
"É importante destacar que…" / "Vale ressaltar que…" - metadiscursos de ênfase que simulam curadoria intelectual.
Essas formas não são, em si, "erradas". O ponto central é que, quando se acumulam, produzem um estilo reconhecível, excessivamente explicativo, conciliador, pouco situado em conflitos reais. Como professora que trabalha com IA, percebo que o desafio não está em rejeitar essas ferramentas, mas em reintroduzir intencionalmente fricção, historicidade e posição após a revisão automatizada.
Segundo o professor Wallace Almeida (UFRRJ), "a IA deve ser pensada sempre como um dispositivo pedagógico, político e cultural, atravessado por relações de poder, disputas de sentido e condições materiais de acesso. O debate central não é se usamos ou não IA na educação, mas como a usamos, a partir de quais valores e a serviço de quais projetos formativos. Quando incorporada de forma crítica, a IA pode operar como tecnologia de ampliação da docência, especialmente em contextos de acessibilidade. Isso implica reconhecê-la simultaneamente como apoio e como problema: apoio, porque pode reduzir barreiras históricas de acesso e problema, porque tende a reproduzir normatividades linguísticas, epistemológicas e culturais que silenciam diferenças, corpos e modos outros de produzir conhecimento".
Assim, a escrita com IA, deixa de significar o fim do estilo ou da docência, para se tornar um campo fértil de reinvenção. Desde que não nos deixemos levar apenas pela fluidez, pela correção e pelo tom apaziguador dos textos "bem-comportados", mas que assumamos o trabalho pedagógico e político de reinscrever neles conflito, corpo, história e diferença. Aprendendo a desobedecer seus padrões, para que ela não escreva no nosso lugar aquilo que ainda precisamos disputar coletivamente.
Principalmente por que escrever com IA exige uma segunda camada de autoria. Uma autoria de quem sabe identificar quando o texto ficou "correto demais", pedagógico demais, pacificado demais. Pensar estilo, hoje, é também aprender a desmontar essas fórmulas, substituindo-as por construções que assumam o risco do dissenso, da incompletude e da tensão - lugares onde, afinal, o pensamento crítico realmente acontece.
A grandeza deste tempo talvez resida no fato de que a escrita deixa de aspirar à nitidez total para assumir seus rastros: uma escrita implicada, borrada e adensada, porque inseparável dos movimentos (pós-)reflexivos do pensamento. O professor Fernando Pocahy (UERJ), em suas orientações acadêmicas, frequentemente insiste: "deixe o texto dormir!", ecoando a máxima de Stephen King (Sobre a escrita, 2000).
Limpe, mas deixe suas marcas!
Acrescento ainda um ponto que considero fundamental, sobretudo no campo da educação inclusiva e da ética do cuidado é que o uso da IA transformou profundamente minha experiência como pessoa com deficiência e disléxica, tornando o ato de escrever algo genuinamente prazeroso. Por muito tempo, minha atenção era sequestrada pelo erro - pela grafia, pela concordância, pela revisão gramatical incessante - a ponto de eu perder o fio do pensamento, o ritmo do argumento, o sentido mais amplo do texto. A escrita deixava de ser espaço de elaboração intelectual para se tornar um campo de vigilância permanente. Com a mediação da IA, esse peso se desloca: a correção deixa de ocupar o centro da cena e o sentido volta a respirar. Posso me concentrar na ideia, na articulação conceitual, na ética do que escrevo. Nesse aspecto, a IA não empobrece a autoria; ao contrário, ela restitui condições materiais de pensamento, funcionando como tecnologia assistiva que amplia acesso, continuidade cognitiva e prazer na produção intelectual - algo que a pedagogia crítica e a linguística comprometida com a diferença não podem ignorar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




