César Fonseca avatar

César Fonseca

Repórter de política e economia, editor do site Independência Sul Americana

864 artigos

HOME > blog

Nova moeda e novo poder internacional: terras raras

Nasceria, para materializar essa nova etapa, a Organização dos Países Produtores de Terras Raras – OPTERRA

Amostras de materiais de terras raras (Foto: David Becker/Reuters)

Os países detentores e produtores de terras raras – China, Brasil, Venezuela e muitos outros, na África e na América Latina –, que possuem minerais estratégicos, constituem-se o novo alvo dos países imperialistas, porque, na era da transição energética, são os melhores condutores de eletricidade para as indústrias de vanguarda tecnológica: chips de celulares, carro elétrico, indústrias armamentistas, satélites, inteligência artificial etc; a preferência dos consumidores, quanto aos veículos elétricos – pequenos, grandes e gigantes, como na agroindústria, construtoras etc – avança, especialmente, diante do crédito barato chinês, maior produtor mundial; cresce a demanda global, fazendo concorrência acirrada com combustíveis fósseis, poluidores da atmosfera, bombeando desequilíbrio ambiental; nesse sentido, o petróleo diminui o seu horizonte de serventia produtiva em escala mundial, quanto mais avança a consciência coletiva sob o impacto dos desastres ecológicos.

Embora a indústria petrolífera e seus derivados tenham expectativas de vida para os próximos cinquenta anos, no mínimo, o valor relativo do petróleo, atuando como equivalente/lastro monetário – tal como o ouro –, tende a ser substituído pelo seu equivalente tendencialmente superior: as terras raras; quem possui terras raras e tecnologia para manufatura-las, como a China, tem o poder mundial, proporcionalmente, maior que o dos Estados Unidos, dependente total do petróleo; a vantagem monetária comparativa dada pelas terras raras ao valor da moeda, como até agora, historicamente, deu o petróleo, tende, portanto, a ser superior no cenário da competição econômica e financeira internacional.

Não é à toa que os líderes europeus – que acabam de assinar acordo Mercosul-União Europeia – destacam, nesse instante, que se interessam pelas terras raras brasileiras, tanto quanto os Estados Unidos; Washington explicita, claramente, essa preferência, como está fazendo o imperialista, Donald Trump, com toda a agressividade que dispõe o império americano, brandindo Doutrina Monroe; é, portanto, nesse novo contexto mundial da transição energética que o produto primário – terras raras – está se valorizando mais que os produtos industrializados; se quem tem o poder de manufaturar terras raras, como é o caso da China, e, ainda por cima, detém reservas desse produto em quantidade, soma o útil ao agradável. 

OPTERRA: NOVOS RICOS DO MUNDO 

Criam-se os fatores determinantes para que os detentores e produtores de terras raras sejam os novos ricos do mundo, dos quais todos dependem, porque elas correspondem ao novo poder monetário; as cotações monetárias, ancoradas em terras raras, tendem a se valorizarem para quem as possuem; surge, portanto, a oportunidade histórica para os países produtores de terras raras, para que  repitam a história da OPEP – Organização dos Países Produtores de Petróleo – criada no início dos anos 1970, dando novo curso ao desenvolvimento do capitalismo mundial; nasceria, para materializar essa nova etapa, a Organização dos Países Produtores de Terras Raras – OPTERRA –, como novo pólo do poder mundial; as terras raras virarão moeda e seus detentores, a nova força econômica, no ciclo da substituição energética, energia sem poluição, pró-meio ambiente livre do combustível fóssil poluidor.

 ECONOMIA POLÍTICA SOB PETRÓLEO 

Evolução história: a OPEP – Organização dos Produtores de Petróleo – nasceu  para valorizar o preço do óleo, ouro negro, do qual todos dependem, no mundo industrializado; os preços, até então, estavam deprimidos, na casa dos 12 dólares/barril, sob pressão dos consumidores poderosos, especialmente, os países industrializados; o choque o petróleo, em 1973, mudou o mundo capitalista, desde então: o preço pulou para 35 dólares, imediatamente, e nunca mais parou, chegando, 40 anos depois, a 150 dólares, caindo e subindo nas crises anticíclicas, mas, voltando, sempre, a valorizar-se.

Com a alta dos preços, a inflação subiu e os importadores, especialmente, os países subdesenvolvidos, entraram em crises de balanço de pagamentos, devido ao aumento das dívidas externas; no Brasil, o governo partiu para a busca de petróleo, de forma mais decisiva; a ditadura, então no poder, intensificou discurso nacionalista.

O general Geisel(1974-79), por exemplo, fortaleceu a indústria petrolífera e de defesa nacional, numa linha política getulista, acelerando estatizações; afinal, ele era remanescente da Revolução de 1930, tenentista de carteirinha, adepto do Estado forte, centralizado, como fez Getúlio Vargas; seu sucessor, general Figueiredo(1979-85), com Delfim Netto, nacionalista, no comando da economia,  alavancou o Proálcool, e, aos poucos foi acontecendo substituição de importações, enquanto a Embrapa, criada por Geisel, foi modernizando a agricultura, então, comandada pelo, também, nacionalista, Alisson Paulinelli; era o novo mundo.

PETRODÓLAR FICOU FICA PARA TRÁS

 A crise do petróleo, com a OPEP, levou os Estados Unidos ao Petrodólar; o secretário de Estado dos EUA, Henri Kissinger, e os Sheiks da Arábia Saudita, em 1974, firmaram o Acordo de Jeddah, válido por 50 anos, até 2024; nesse período, o petróleo passou a ser, na prática, a moeda mundial, tendo o dólar como representação; a moeda americana, lastreada no petróleo, virou petrodólar, e todos os países entraram na nova ordem mundial: comprar títulos da dívida americana em dólar, lastreado no ouro negro; durante 50 anos, esse foi o jogo do imperialismo americano, até que o Acordo de Jeddah se expirou em junho de 2024; os árabes saíram do petrodólar e intensificaram e diversificaram sua mercadoria, o petróleo, com outras moedas; especialmente, aumentaram trocas comerciais em yuan, moeda chinesa, na velocidade do crescimento da economia da China, maior do mundo na atualidade em paridade do poder de compra.

Na guerra na Ucrânia(2022) a Rússia, ameaçada pela OTAN – Estados Unidos e Europa unidos – migrou suas relações para a China, diante das sanções comerciais de Washington; China e Rússia aumentaram comércio bilateral via trocas de moedas – yun por rublo, deixando o dólar de lado, enfraquecido com o fim do acordo de Jeddad, que pôs fim ao petrodólar; dava início, na Guerra da Ucrânia, à desdolarização; a Índia, da mesma forma que a Rússia, que lhe fornece petróleo, aumentou comércio com os russos e chineses mediante troca de moedas; nesse cenário, ganhou dimensão internacional o BRICS, do qual fazem parte China, Rússia e Índia, que fortalecem a narrativa econômica favorável às trocas comerciais em moedas locais.

 REAÇÃO IMPERIALISTA AMERICANA

 Os Estados Unidos ficaram relativamente vulneráveis, no plano econômico, embora, imbatíveis, ainda, no plano militar; porém segue seu curso incontrolável e explosivo o crescimento da desdolarização; tal tendência levou ao acirramento do imperialismo, agora, dobrando aposta na Doutrina Monroe, para dominar o petróleo na América Latina, onde a Venezuela é maior produtora do mundo, tendo, ainda, Brasil e México como grandes produtores; Washington atacou a Venezuela para salvar o dólar, garantindo lastro de sua moeda no petróleo venezuelano; Trump derrubou o presidente Nicolás Maduro, levando-o preso para os Estados Unidos, e, a partir de então, intensificou o discurso de intervenção e anexação de territórios e países, passando, com rolo compressor, sobre soberanias nacionais, deixando o mundo à beira da Terceira Guerra Mundial; o objetivo trumpista, agora, são, ao lado da dominação do petróleo, as terras raras; o mesmo acontece com a União Europeia, que acaba de fechar acordo com o Mercosul; ambos, Europa e Estados Unidos tentam negociar terras raras com o Brasil, fazendo pressão sobre o Governo Lula; tal investida, no entanto, produz efeito de maior aproximação do Brasil e América Latina, possuidores de terras raras, a dispor da força de negociação, que se expressa em poder monetário, por elas se constituírem em valor monetário, tal como aconteceu, nos anos 1970, com o petrodólar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados