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Paulo Nogueira Batista Jr

Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS e diretor executivo no FMI pelo Brasil.

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O adversário não pode escalar nosso time

Governo tem de transformar resultados econômicos em força política, analisa o colunista Paulo Nogueira Batista Jr.

Lula (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
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Um tema do momento é a dificuldade de traduzir os resultados econômicos do governo Lula em intenções de voto para outubro. A recente crise da candidatura do principal opositor, Flávio Bolsonaro, tranquilizou os apoiadores de Lula, mas a eleição está longe de ganha, como sabemos, e o problema persiste.

O governo Lula 3 produziu, de fato, resultados razoáveis, até bons, na área econômica – crescimento do PIB (ainda que modesto, próximo de 3% a.a. em média), desemprego aberto em queda (para os menores níveis registrados), inflação controlada (embora com preços elevados de produtos críticos como alimentos), entre outros feitos. É nítida a melhora em relação à situação que vigorava nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Como explicar que a eleição se mostre apertada, com grande parte das intenções de voto direcionada a Flávio Bolsonaro?

But it’s not the economy, stupid! (mas não é a economia, estúpido!), poderíamos dizer, invertendo o célebre chavão oriundo dos Estados Unidos. Fatores não econômicos pesam. E mesmo a economia não está lá essas coisas – vide os juros escorchantes, o elevado endividamento das famílias, as políticas governamentais inibidas pelo arcabouço fiscal, o reduzido investimento público e privado etc. E não vamos perder de vista que a base de comparação Temer/Bolsonaro é bem modesta, para dizer o mínimo.Mas, para além da economia, falta algo fundamental que talvez ajude a entender as intenções de voto – o governo não tem marca, não tem audácia, não tem alma.

Desde o seu início, em 2023, o governo federal e a sua precária base parlamentar estão infestados de pessoas que pouco ou nada têm a ver com a transformação real do país. Temos de tudo: neoliberais, carreiristas, fisiológicos, até sionistas. E, meio perdidos nesse ambiente hostil, uma minoria de brasileiros que lutam dentro do governo para defender e mudar o Brasil.

Não sei se  preciso dar exemplos, mas vamos lá. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), ficou quase totalmente dominado por neoliberais. Uma recente entrevista de página inteira do atual chefe do MDIC, Elias Rosa, ao jornal Valor (4 de maio, p. A6) é sintomática do estado das artes nesse ministério. Rosa foi secretário-executivo durante toda a gestão de Geraldo Alckmin, ele próprio um neoliberal. Na entrevista, o flamante ministro defende o desvantajoso acordo econômico com a União Europeia – no qual abrimos nossos mercados industriais em troca de concessões pequenas e facilmente revogáveis para o setor agroexportador – e se vangloria de ter assinado acordos do mesmo naipe com Singapura e EFTA (European Free Trade Association – a associação de livre comércio que inclui alguns países europeus não-membros da União Europeia). Para completar o quadro, promete um acordo com o Canadá até o final do ano.  Com essa condução da política comercial, o Brasil terminará amarrado a uma teia de acordos de corte neoliberal em que abrimos nossos mercados à competição irrestrita com as empresas de países desenvolvidos, condenando ao fracasso qualquer tentativa de reindustrialização do país. Na verdade, seria melhor passar a chamar o MDIC de Ministério do Subdesenvolvimento e da Desindustrialização.

O Itamaraty, apesar dos esforços de muitos bons diplomatas, ficou prejudicado pela presença insuficiente de quadros ligados à tradição nacional-desenvolvimentista, que já foi tão forte na casa. Isso se reflete na condução das já referidas negociações comerciais externas, que foram levados a cabo principalmente pelo Itamaraty e pelo MDIC. Os diplomatas envolvidos nessa negociação são co-responsáveis pelo desastre.

 No Ministério da Fazenda, também faz falta a presença de quadros menos comprometidos com o neoliberalismo e o carreirismo. Há exceções, notadamente entre os mais jovens da equipe, mas foi fraca a atuação da Fazenda em vários temas candentes – na construção do arcabouço fiscal (que acabou ficando excessivamente ambicioso), na definição da diretoria do Banco Central (com a escolha de nomes que não trazem qualquer perspectiva de mudança) e na quase total omissão nas negociações comerciais externas. Foi fraca, também, a participação do ministério no processo BRICS que o Brasil presidiu em 2025. Juntamente com o Itamaraty e o Banco Central, a Fazenda liderou uma presidência vazia de resultados importantes.

No Ministério do Planejamento, pelos menos no tempo da ministra Simone Tebet que deixou o cargo há pouco, a equipe quase inteira, com poucas exceções, era de orientação neoliberal – e se existe algo que não combina de jeito nenhum com planejamento é precisamente o neoliberalismo. E do Banco Central, bem, deste nem preciso falar mais. Já tratei dele em artigo recente (“A política de juros do Banco Central é um desastre”, 1 de maio de 2026).

Meu pai, que morreu em 1994, costumava dizer: “O problema do Brasil é que deixamos o adversário escalar nosso time.” Esse problema crônico, que se manifestou, em maior ou menor medida, em todos os governos nas décadas recentes, aparece claramente no atual. Um dos maiores diplomatas, se não o maior da sua geração, meu pai era um exemplo notável desse problema. Ele teve carreira brilhante, mas nunca chegou a ser ministro de Estado e nem secretário-geral. E, no entanto, posso dizer com tranquilidade, e sem favor de filho para pai: ele era, como diplomata e homem público, muito superior à maioria dos que exerceram essas funções. Havia um problema, entretanto. A sua nomeação incomodaria os nossos amigos do Norte. Melhor não arriscar, pensaram sucessivos presidentes.

Imagine, leitor ou leitora, quantos brasileiras e brasileiros existem em todas as áreas que têm inclinação para atuar no setor público, que possuem qualidades para tal, mas não são convocados por serem honestos demais, independentes demais, combativos demais! São vetados por políticos venais, por interesses econômicos e por forças estrangeiras e seus aliados domésticos. Refiro-me ao sistema financeiro e outros lobbies empresariais, à mídia corporativa, e a entidades locais que representam ou são controladas por ideologias e interesses estrangeiros. Da Febraban à Conib, da Fiesp à Rede Globo, da CNA à CNI.  Resultado: o time escalado fica, na melhor das hipóteses, repleto de pessoas hábeis, jeitosas, mas sem coragem e imaginação. São poucos os que entram em bola dividida. E há muito cabeça de bagre. No fundo, no fundo, infelizmente, a escalação é a própria imagem do Brasil – país em que sobra jogo de cintura, mas falta espinha dorsal.

Na nossa seleção atual, temos como centroavante, capitão e técnico do time um presidente da República experiente, tarimbado, um jogador de fama internacional. Perde uns gols incríveis, é verdade, mas a sua capacidade é inegável. Eis o problema, porém: a bola chega nele? Ou ele é forçado a voltar à intermediária para buscá-la? A verdade é que o centroavante acaba sem opções de jogo, uma vez que boa parte do resto do time passa a bola para o lado ou para trás – quando não faz gol contra!

Porém, convenhamos, o capitão pode reclamar? Afinal, quem senão ele permitiu que os adversários escalassem a nossa seleção?

E ficamos  assim com um time que joga para o empate ou até para perder de pouco. Com esse tipo de time, claro, não se ganha partida nenhuma e muito menos campeonato.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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