O alarme boliviano ressoa por toda a América Latina
Crise na Bolívia acende alerta na América Latina diante de confrontos, bloqueios e risco de ruptura institucional e social
Os violentos acontecimentos registrados em San Julián, na Bolívia, não deveriam ser lidos como mais uma linha no rosário de crises que assola o continente. Deveriam soar — e soam — como um alarme. O confronto entre policiais, militares e manifestantes que bloqueiam estradas há semanas não é apenas mais um capítulo da crônica boliviana: é a demonstração palpável de que o país vizinho se aproxima, com passos cada vez mais firmes, de um ponto de ruptura institucional e social de proporções imprevisíveis.
A Bolívia vive hoje uma combustão lenta e perigosa. Escassez de combustíveis, inflação corrosiva, desabastecimento de alimentos e medicamentos, bloqueios que paralisam o transporte, uma economia que range sob o peso dos conflitos — e, sobre tudo isso, uma polarização política que não cede nem respira. Em várias regiões, populações inteiras padecem os efeitos concretos de semanas de interrupção no abastecimento. A crise não é abstrata: ela bate à porta, entra pela despensa e se instala à mesa. Mas o que mais inquieta não é apenas a gravidade do quadro. É a gramática com que ele está sendo narrado.
O governo de Rodrigo Paz e seus aliados passaram a classificar os manifestantes como "terroristas" ou agentes de desestabilização — e essa escolha de palavras não é inocente. A história latino-americana tem memória longa e sabe que poucas categorias são tão perigosas quanto o "terrorismo" quando instrumentalizado em conflitos políticos internos. Basta lembrar que, para determinados setores do establishment norte-americano — especialmente aqueles representados pela voz inflexível do secretário de Estado Marco Rubio —, a caracterização de movimentos sociais como terroristas funciona como portão de entrada para pressões diplomáticas, sanções, operações de inteligência ou intervenções indiretas que raramente chegam ao fim que prometem.
Por isso, cada declaração emitida em La Paz precisa ser acompanhada com atenção redobrada em Brasília e em todo o continente latino-americano. O que se diz ali reverbera além das fronteiras andinas.
A situação torna-se ainda mais volátil diante dos rumores sobre a possibilidade de captura e extradição do ex-presidente Evo Morales. Independentemente do julgamento que cada um faça de seu legado, qualquer tentativa de converter a disputa política boliviana em uma operação de perseguição contra adversários teria potencial para incendiar, de vez, um país já tão dividido quanto uma ferida que recusa cicatrizar.
Os fatos de San Julián revelaram ainda outro elemento que merece atenção: após convocações públicas para que a população apoiasse as forças de segurança nos enfrentamentos, surgiram relatos da presença de grupos extremistas de direita oriundos de Santa Cruz — setores que ficaram conhecidos pelos episódios de violência deflagrados durante o golpe de 2019. A reativação dessas forças não é um detalhe periférico. É um sinal de que fantasmas de outrora foram chamados de volta à praça.
O que se torna evidente, com uma clareza cada vez mais dura, é que o acordo político com a sociedade boliviana que levou Rodrigo Paz à Casa Grande del Pueblo, sede do governo, não se consolidou como um consenso social genuíno. Tratou-se, no máximo, de um consenso passivo a partir da exaustão — sustentado pela fadiga de uma população cansada de conflitos e pela esperança, talvez ingênua, de estabilização econômica. Hoje, poucos meses após a posse, esse arranjo já dá sinais inequívocos de esgotamento. As ruas, os bloqueios e os confrontos mostram que a legitimidade formal das urnas não é suficiente, por si só, para edificar uma governabilidade duradoura. Eleições legitimam governos; não constroem, necessariamente, pactos.
A crise boliviana não será resolvida pela repressão nem pela criminalização da dissidência política. Tampouco por aventuras golpistas ou pela tutela confortável de potências estrangeiras que enxergam na instabilidade alheia uma oportunidade conveniente. A única saída que ainda merece o nome de democrática é a construção trabalhosa de um novo pacto nacional — fundado em novas eleições, em um debate amplo sobre o projeto de país e em garantias reais de que todos os atores políticos possam participar do processo sem temer pela própria segurança.
E esse caminho, se existir, precisa ser percorrido sem interferência externa. A Bolívia pertence aos bolivianos. Não ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, não aos interesses empresariais concentrados em Santa Cruz e tampouco às disputas geopolíticas de potências que tratam a América Latina como tabuleiro ou quintal.
O que aconteceu em San Julián é mais do que uma notícia de política externa. É um aviso que percorre o continente inteiro. E a América Latina faria bem em escutá-lo — antes que o silêncio seja preenchido pelo estrondo do que vem depois.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




