O blackface não é experimento social — é violência epistemológica
Não há distanciamento analítico, mas uma encenação e o poder sendo exercido sobre corpos que não foram consultados
Quando a deputada Fabiana Bolsonaro pinta o próprio rosto numa encenação de blackface — ao mesmo tempo em que ataca mulheres trans no plenário — o que se produz ali não é polêmica. É um curto-circuito entre violência simbólica, ignorância histórica e instrumentalização política do corpo do outro.
A cena ocorrida na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo não pode ser lida como excesso retórico isolado. A reação anunciada por Ediane Maria, com representação na Comissão de Ética e acionamento do Ministério Público, sinaliza exatamente isso: não se trata de opinião divergente, mas de possível quebra de decoro e de produção ativa de violência racial e de gênero no interior de uma instituição que deveria proteger ambas.
O gesto não comporta suavização por que não há ética. Não há distanciamento analítico, mas uma encenação e o poder sendo exercido sobre corpos que não foram consultados.
O problema do verbo
Nomear essa prática como “travestir-se” não é apenas imprecisão conceitual — é violência encadeada, conforme tenho escrito reiteradamente nos últimos anos. Ao mobilizar a travestilidade como metáfora de disfarce, reforça-se um imaginário que nos reduz à ideia de fingimento, de farsa, de identidade ilegítima. Como “travestis” não somos recurso retórico disponível para ilustrar fraudes alheias. Somos sujeitos políticos, epistêmicos, históricos — e reivindicamos esse estatuto inclusive na linguagem.
O problema do “experimento”
Experimentos sociais pressupõem rigor metodológico, protocolo aprovado por instância ética, mediação institucional e, fundamentalmente, uma posição enunciativa que não coincida com a própria estrutura que se pretende analisar. Produzem-se em universidades, em centros de pesquisa, sob escrutínio de pares — não em plenários legislativos, como recurso de debate.
Uma parlamentar que se posiciona ativamente contra políticas de ação afirmativa não observa o sistema a partir de fora. Ela o sustenta. Ela é parte da engrenagem que produz e reproduz a desigualdade que finge examinar. Não há pesquisa possível quando o sujeito que enuncia coincide com a estrutura que deveria ser objeto de análise. O que se vê, portanto, é má-fé revestida de argumento epistemológico — e isso, por si só, já deveria ser suficiente para desautorizá-la.
O que o blackface produz
Não há alegoria possível nesse gesto uma vez que éle opera em três planos simultaneamente:
Silencia — ao sugerir que o racismo é uma experiência temporária, descartável, que se lava ao fim do dia. Como se a dor estrutural coubesse numa encenação de algumas horas.
Nega — ao pressupor que a experiência da mulher negra é acessível por performance, e não por escuta qualificada, por política pública e por reparação histórica efetiva.
Legitima — ao mobilizar a imagem do corpo negro como argumento retórico enquanto se combate, no campo institucional, as políticas que poderiam garantir às mulheres negras acesso real aos espaços de poder que ela já ocupa.
Lélia Gonzalez nos ensinou que o racismo brasileiro opera pela denegação e aqui caberia até o próprio Freud— ele se esconde enquanto se reproduz, sorri enquanto fere. Aqui, contudo, há uma camada adicional quando se encena por que teatraliza. Ele se apresenta como método para escapar da responsabilidade que o método exige. Assim não há experimento, mas um espetáculo.
E o que está em jogo não é apenas o erro de uma deputada, mas como tenho dito, é a autorização histórica que certos corpos recebem para errar publicamente, performaticamente, impunemente — enquanto outros seguem sendo reduzidos a objeto de prova, argumento de bancada ou caricatura de plenário.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


