Carol Dartora: “Sofro terrorismo racial e de gênero desde que entrei para a política”
Deputada federal relata ameaças de morte, estupro e racismo e diz que violência mira mulheres negras em espaços de poder
247 - A deputada federal Carol Dartora (PT-PR) afirmou que vive sob ameaça desde que ingressou na vida pública e definiu a escalada de ataques que sofre como uma prática sistemática de intimidação contra sua atuação parlamentar. Em entrevista ao programa 22 horas, da TV 247, a parlamentar disse que sua experiência revela como a violência política de gênero e raça continua operando como mecanismo de exclusão no Brasil.
Ao detalhar o caso mais recente, Carol Dartora relatou ao 22 horas, da TV 247, que recebeu por e-mail ameaças explícitas de estupro e morte, acompanhadas de ofensas racistas, misóginas e LGBTfóbicas. Segundo a deputada, o episódio não pode ser lido como um ataque isolado, mas como parte de uma ofensiva ligada diretamente à sua atividade política e à presença de mulheres negras em cargos de representação.
“Sofro terrorismo racial e de gênero desde que entrei para a política”, declarou a parlamentar, ao afirmar que a violência dirigida contra ela ganhou frequência desde sua entrada na política institucional. Carol também disse estar entre as parlamentares mais ameaçadas do país e revelou que integra o Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, além de já ter sido alvo de “mais de 80 ameaças de toda a espécie”.
Durante a entrevista, a deputada evitou detalhar o conteúdo integral da ameaça mais recente, explicando que o caso já foi encaminhado aos órgãos competentes. Ainda assim, deixou claro que identifica motivação política no episódio. De acordo com a petista, o ataque ocorre no momento em que ela apresenta, na Câmara dos Deputados, um projeto de lei voltado ao combate aos discursos de ódio contra mulheres nas redes sociais.
Para Carol Dartora, a violência que recai sobre mulheres em posições de liderança não atinge apenas indivíduos, mas o próprio regime democrático. “Esse ataque é um ataque à própria democracia”, afirmou. Na avaliação da deputada, a presença de mulheres negras no Parlamento altera prioridades, amplia o alcance da legislação e desloca o olhar do Estado para temas historicamente negligenciados.
A parlamentar também afirmou que a tentativa de silenciamento segue um padrão recorrente. “O conteúdo dessa ameaça repete um padrão conhecido. Tentar nos reduzir ao corpo, sexualizar, desumanizar e, por fim, ameaçar, eliminar fisicamente quem ousa existir e disputar o poder”, disse. Para ela, a violência opera como uma reação à ocupação de espaços institucionais por grupos antes sistematicamente excluídos.
Carol Dartora associou esse ambiente ao avanço de grupos organizados nas plataformas digitais. Segundo a deputada, essas redes passaram a funcionar como terreno de articulação de ataques misóginos, racistas e violentos. “Hoje a gente tem grupos de ódio que se organizam via plataformas digitais para promover essa violência contra mulheres”, declarou. Em sua avaliação, mulheres em cargos políticos e mulheres negras aparecem entre os principais alvos dessas estruturas.
A deputada afirmou ainda que esses grupos agem como “organizações criminosas” e criticou o modelo de funcionamento das big techs. “As plataformas digitais, elas lucram, elas ganham dinheiro com discurso de ódio contra mulheres”, disse. Na entrevista, ela argumentou que a circulação contínua desse conteúdo ajuda a alimentar a violência concreta e fortalece uma cultura de agressão que extrapola o ambiente virtual.
Em outro momento da conversa, Carol Dartora relacionou o tema ao crescimento dos feminicídios no país e à naturalização da misoginia. “É uma vergonha pro nosso país que nós sejamos um dos países que mais mata mulheres no mundo”, afirmou. A deputada sustentou que a escalada de violência contra mulheres não pode ser separada da expansão de discursos de ódio nas redes e de uma reação conservadora diante dos avanços das pautas feministas.
A parlamentar também apontou que a crise social e econômica tem sido capturada por discursos regressivos, que tentam responsabilizar o avanço das mulheres pela piora das condições de vida de parte da população masculina. Em sua leitura, há uma “nostalgia equivocada” de valores do passado, explorada por movimentos misóginos que transformam frustrações sociais em agressão política e simbólica contra mulheres.
Ao tratar da resposta institucional ao problema, Carol Dartora defendeu medidas de proteção mais robustas para parlamentares ameaçadas e disse trabalhar na formulação de propostas nesse sentido. “Sou propositora de um projeto que cria um protocolo de proteção a parlamentares ameaçados”, afirmou. Segundo ela, ainda há despreparo das instituições para lidar com casos que envolvem violência política de gênero e raça, o que agrava a sensação de abandono e sobrecarga.
A deputada também defendeu que o enfrentamento ao problema exige uma transformação mais profunda, baseada em educação e letramento digital. “Essa sociedade precisa de paz, precisa aprender a conviver”, declarou. Para Carol, a superação desse quadro passa por educação para as relações de gênero e para as relações étnico-raciais, além de regulação eficaz sobre as plataformas e combate à disseminação organizada do ódio.
Mesmo ao relatar a gravidade das ameaças, a parlamentar encerrou sua participação com uma mensagem de resistência. “É possível sim a gente construir uma cultura de paz, uma sociedade boa para se viver”, disse. Na mesma linha, afirmou que a reação coletiva à violência é decisiva para impedir que os agressores imponham o medo como método de exclusão política. “Esses odiadores não são tudo, e eles vão passar”, concluiu.
