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Marcelo Zero

É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado

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O dia em que o futebol-arte salvou um punhado de brasileiros

O Brasil, com certeza, não se curvará a pressões vindas de gente como Darren Beattie, o enviado de Trump

Darren Beattie (Foto: Departamento de Estado)

Meu irmão, Paulo Zero, cinegrafista e editor de imagens, tem vasta experiência internacional.

Já viajou praticamente o planeta inteiro fazendo reportagens e imagens sensacionais.

Ele tem, obviamente, um grande estoque de histórias interessantes para contar.

Mas há uma que é a minha preferida.

Logo após a revolução do Irã, em 1979, ele fez parte de uma pequena equipe da TV Globo que foi a Teerã fazer uma reportagem “in loco”, ainda no calor dos acontecimentos.

Foram bem recebidos. Conseguiram até a proeza, obviamente negada a jornalistas estadunidenses e europeus, de entrar na Embaixada dos EUA no Irã, tomada por estudantes e guardas revolucionários, para fazer entrevistas.

Um êxito.

Tudo ia muito bem até que, no finalzinho da viagem, resolveram fazer umas imagens externas já perto do aeroporto de Teerã, numa área que o regime considerava “de segurança”.  

Rapidamente apareceu uma equipe fortemente armada de guardas revolucionários que os prenderam e os levaram a um lugar reservado.

Situação muito tensa. Os guardas estavam visivelmente irritados e achando que se tratava de gringos espiões, que buscavam descobrir fragilidades militares do regime. 

O grande problema era a barreira do idioma. Os guardas só falavam e entendiam farsi. Não entendiam nada de inglês ou francês e, muito menos, de português.

Não compreendiam as explicações que a equipe de brazucas procurava dar.

A tensão ia se avolumando, até que alguém da equipe, não me lembro quem, começou a gritar: “Brasil! Pelé! Pelé!”

Os guardas ficaram paralisados por alguns momentos até que um deles bateu com força na perna esquerda e exclamou a plenos pulmões: “Rivelino!!”

Alívio geral.

Os guardas revolucionários simplesmente sabiam de cor toda a escalação da Seleção brasileira de 1970, inclusive os suplentes.

Ainda crianças ou adolescentes tinham assistido, mesmerizados, àquela equipe de um país considerado “inferior” pelos “Ocidentais”, como o deles era e é, triturar (Trump diria obliterar), com elegância, criatividade e beleza, toda a suposta superioridade de países desenvolvidos e colonialistas. 

Aquela equipe foi salva por nosso futebol-arte, fruto direto da nossa cultura singular, diversificada e inclusiva.

O ponto aqui é que não se pode subestimar o impacto da nossa cultura, futebol incluso, na imagem e projeção de nosso país, em nível mundial. 

Nosso famoso soft power não advém apenas de uma diplomacia muito competente. Tem fundamentos sólidos em nossas manifestações culturais e esportivas, que projetam a imagem de um povo alegre, inteligente, criativo, cordial, apesar de todos os nossos grandes e numerosos problemas sociais. 

Ninguém descreveu isso melhor do que Nelson Rodrigues, é claro.

Escreveu ele: “Observem agora o que o escrete fez por nós. Há pouco tempo o brasileiro tinha uma certa vergonha de ser brasileiro. Agora não. Agora acontece essa coisa espantosa. Todo mundo quer ser brasileiro.  As mulheres estão mais lindas, os homens mais fortes, e há uma bondade difusa, volatizada, atmosférica. Jamais nos cumprimentamos tanto. E como sorrimos uns para os outros”. 

Aqueles guardas revolucionários viam os jogadores brasileiros, mestiçados e de origem humilde, como seus iguais e semelhantes. Iguais e semelhantes que os vingavam, com habilidade inacreditável, das humilhações coloniais do “Ocidente”. 

Quando há beleza e criatividade, todos se curvam. 

Hobsbawn escreveu que quem viu a seleção de 70 jogar entendeu que o futebol pode ser uma forma de arte. Algo de uma beleza profunda, pois, como bem disse Nelson Rodrigues, até a mais modesta pelada tem uma complexidade shakespeariana.

É uma marca indelével. Afinal, como escreveu outro britânico, John Keats, "A thing of beauty is a joy forever".

Os dribles inacreditáveis do Garrincha (feitos com a confiança de quem achava que Pau Grande, seu povoado, era mais importante que toda a Europa), a genialidade do Pelé, os chutes bombásticos do Rivelino, os passes milimétricos do Gérson talvez que tenham feito mais pelo Brasil que todos nossos embaixadores somados.

Infelizmente, essa forma de arte anda um pouco esquecida, maltratada.

Mas nossa cultura segue forte.

O cinema brasileiro, tão vilipendiado até pouco tempo, anda “fazendo bonito”. “Fazendo bonito” fazendo bonito.

Wagner Moura, Fernanda Torres, Kleber Mendonça Filho, Walter Salles etc. estão fazendo muito pelo Brasil e por nossa democracia ao expor, com grande talento, nossas vísceras esquecidas nos cantos podres do olvido reacionário. 

Com ou sem Oscar, já ganharam o único grande prêmio que realmente importa: os corações e as mentes dos espectadores. Conquista eterna. 

São os novos “pelés” e “garrinchas” resgatando um país maravilhoso chamado Brasil. País que não é quintal de ninguém e de nada.

País que, com certeza, não se curvará a pressões vindas de gente como Darren Beattie, o enviado de Trump, que quer se intrometer em nossos assuntos internos, visitando um golpista encarcerado e querendo forçar o Brasil a classificar grupos de traficantes como “terroristas”, com a finalidade óbvia de fazer intervenções em solo brasileiro. 

O mesmo Darren Beattie que, em outubro de 24, tuitou: "Homens brancos competentes devem estar no comando se você quiser que as coisas funcionem. Infelizmente, toda a nossa ideologia nacional se baseia em mimar os sentimentos de mulheres e minorias e em desmoralizar homens brancos competentes.
O mesmo Beattie que defendeu, por diversas vezes, a esterilização em massa do que ele chama de "lixo de baixo QI". Ou seja, de gente como nós. 

Vai “quebrar a cara”. 

Numa carta à esposa de um oficial alemão que fora derrotado pelos pracinhas na Itália, há uma grande frase. Escreveu ele: “Os brasileiros lutam sem raiva, nunca vi isso em exército algum”. 

Lutam sem raiva e ganham.

Obviamente, Beattie nunca ouviu falar de Garrincha e de Pau Grande.

Não adivinha o tamanho do QI.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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