O fantasma de Jango e a muralha de papel
Entre o flerte com Pequim e o medo de uma parceria profunda, o Brasil repete o cacoete da hesitação estratégica
Quando João Goulart esteve na China, em 1961, o gesto ainda parecia maior do que o país estava disposto a suportar. Jango não viajava como revolucionário ou peregrino ideológico. Ia em busca de mercado e relações que eram tão distantes quanto os 22 mil quilômetros que separam Brasília de Pequim.
No Brasil daquela época, aproximar-se de Mao Zedong já bastava para acender o velho alarme das elites, dos quartéis e dos guardiões da ordem. A viagem virou sintoma antes de virar memória. E talvez nunca tenha deixado de ser. Há fantasmas que não saem de Brasília; apenas trocam de roupa.
O mais curioso é que o Brasil de hoje parece muito mais à vontade para falar da China do que para tratá-la como questão de Estado. Lula e Dilma construíram, ao longo dos anos, uma proximidade política rara com Xi Jinping e com a gramática estratégica de Pequim. A sintonia existe, os gestos são públicos, o vocabulário do Sul Global aparece com naturalidade.
O problema começa quando essa afinidade precisa descer do palácio para a estrutura. O discurso avança, mas a arquitetura recua. Brasília evita o tipo de compromisso que poderia transformar boa vontade diplomática em contrapartida material: transferência tecnológica, joint ventures duras, inserção em setores críticos, barganha real em inteligência artificial, semicondutores, baterias e infraestrutura digital. O país flerta com o poder chinês, mas hesita diante da responsabilidade de uma parceria duradoura.
É verdade que a narrativa da China como potência, sobretudo defensiva, tem muito apelo, especialmente entre países que se acostumaram a olhar o mundo a partir das cicatrizes do colonialismo. A Grande Muralha, afinal, nunca foi símbolo de expansão, mas de contenção. A memória chinesa é atravessada por invasões, ocupações e humilhações que ajudaram a moldar sua desconfiança histórica do Ocidente.
Mas o século 21 mudou a natureza do avanço das potências. A China de hoje não precisa agir como os velhos impérios para expandir influência. Não precisa necessariamente invadir. Basta integrar. Pequim avança no mundo oferecendo financiamento, infraestrutura, cadeias produtivas, plataformas tecnológicas, padrões regulatórios, mineração, carros elétricos, baterias, satélites e dependências longas.
A forma de poder é menos espetacular do que a americana, mas nem por isso menos profunda. A muralha, agora, é de outro material. Basta ver o forte movimento das montadoras chinesas, operando dentro de uma estratégia industrial coordenada por Pequim, para direcionar ao Brasil, neste primeiro trimestre, parte do excedente produtivo de veículos elétricos acumulado na China. Um recorde, como registrou o Valor Econômico.
E é justamente nesse ponto que o Brasil se trai. Porque, embora cultive a retórica da multipolaridade e se apresente com gosto como voz do Sul Global, continua evitando o tipo de escolha que poderia converter sua proximidade com Pequim em ganho estratégico real.
Brasília recusou entrar formalmente na Iniciativa Cinturão e Rota e fugiu de um estreitamento diplomático que exigisse contrapartidas industriais mais ambiciosas. Tampouco desenhou um projeto nacional capaz de usar a relação com a China para arrancar transferência tecnológica robusta. A prudência do Itamaraty continua condicionada pelo olhar para Washington.
O Brasil quer os benefícios da proximidade, mas sem assumir os custos da profundidade. Não quer romper com Washington, não quer alarmar a Europa, não quer assustar suas próprias elites e, nessa prudência excessiva, termina barganhando mal com todos. O resultado é um híbrido muito brasileiro e muito pouco eficaz: ideologicamente próximo, economicamente vulnerável. O que Oswaldo Aranha entendia, acima de tudo, era a defesa intransigente dos interesses brasileiros.
Sem projeto nacional, a relação sino-brasileira corre o risco de reproduzir, em chave high-tech, a velha divisão internacional do trabalho. Exportamos minério, soja, proteína, petróleo bruto. Importamos máquinas, eletrônicos, sistemas, baterias, inteligência embarcada.
O valor já não está apenas na carga que cruza o oceano, mas no software, no chip, na propriedade intelectual, na capacidade de comandar a cadeia. E é justamente aí que o Brasil continua chegando tarde. Por isso, a imagem da maquiladora dói tanto, porque contém uma verdade incômoda.
A entrada recente das montadoras chinesas no país foi recebida como sinal de renovação industrial, e em parte é mesmo isso. Mas, sem exigência séria de conteúdo local estratégico, sem fornecedores nacionais robustos, sem coordenação entre Estado, crédito público e pesquisa, o risco é ficarmos com o chão da montagem, enquanto o comando tecnológico permanece do outro lado do Pacífico. A inteligência embarcada, os dados, os sistemas e a lógica tecnológica desses veículos continuam majoritariamente vinculados a centros de decisão em Shenzhen, Xangai ou outras plataformas industriais chinesas.
O avanço chinês não é apenas expressão de poder. É também resposta a um desequilíbrio interno. O excedente produtivo precisa encontrar saída. O Brasil, nesse processo, deixa de ser apenas parceiro comercial e passa a funcionar como válvula de ajuste de um sistema industrial que não pode desacelerar. Seguimos abertos: recebemos produtos, exportamos commodities, mas não ganhamos densidade tecnológica nem avançamos na produção de mercadorias com inteligência embarcada.
Foi exatamente esse tipo de armadilha que Oswaldo Aranha, em outro tempo e sob outras pressões, soube evitar. O chanceler não era um adorador de potência. Era um barganhador na crise. Entendeu que o Brasil só teria alguma dignidade estratégica se convertesse alinhamento em contrapartida material, se transformasse dependência em instrumento de negociação e oportunidade externa em construção interna.
O vaticínio dele era pragmático. Não bastava escolher campo. Foi preciso arrancar siderurgia, base industrial, margem de manobra. A lição que fica não está na nostalgia do personagem — um grande brasileiro, sem dúvida —, mas no método. O Brasil de hoje fala em soberania digital, minerais críticos, neoindustrialização, transição energética e inteligência artificial.
Mas ainda não resolveu a pergunta anterior a todas as outras: o que exatamente quer obter de sua relação com a China? Mercado? Financiamento? Tecnologia? Joint ventures de verdade? Inserção em setores decisivos? Ou apenas mais uma rodada de exportações primárias recobertas pela solenidade diplomática?
É aí que o fantasma de Jango volta a circular pelos corredores de Brasília. Não porque estejamos de novo em 1961, nem porque a Guerra Fria tenha ressuscitado com o mesmo figurino, mas porque persiste entre nós o velho medo de assumir uma escolha com consequência.
Falamos em multipolaridade, elogiamos a ascensão do Sul Global, cultivamos a intimidade política com Pequim, estamos à frente do Banco dos BRICS, mas recuamos sempre que a parceria exige desenho estratégico, ambição industrial e sangue frio diplomático.
A China, por sua vez, segue sendo o que mais impressiona nas potências contemporâneas: previsível em seus interesses, paciente em seu método, implacável na captura de valor. Não se move por simpatia. Move-se por cálculo. E talvez seja justamente por isso que avance tanto.
Sem uma visão como a de Oswaldo Aranha — não de época, mas de método —, continuaremos sem entender quem queremos ser no mundo. O país do futuro, essa velha piada nacional, seguirá sendo o país da carga, da montagem e da hesitação. Só que agora com bateria de lítio, painel digital e software importado.
O problema brasileiro não é se aproximar da China. É se aproximar sem método. Oswaldo Aranha entendia que nenhuma relação com potência vale por si mesma: ela precisa ser convertida em siderurgia, indústria, tecnologia, margem de manobra. Hoje, diante da China, o Brasil parece repetir o gesto diplomático, mas sem reconstruir a lógica da barganha que transforma aproximação em poder. Temos de dar um salto evolutivo.
O futuro, afinal, já não é mais como era antigamente. E soberania, no século 21, não é volume embarcado. É capacidade de processamento, de decisão e de comando. Quem não entender isso corre o risco de virar apenas a estação de montagem da nova Rota da Seda, abastecendo a viagem alheia enquanto continua sem destino próprio. Este é um dos debates que deveriam estar no centro da corrida eleitoral. Ainda dá tempo. O que queremos, afinal, ser no século 21?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



