Mauro Vieira defende soberania e diz que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”
Em discurso no Dia do Diplomata, chanceler afirma que o colapso da ordem global impõe ao país uma escolha entre subordinação e soberania
247 – O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, defendeu nesta quarta-feira (29), em Brasília, uma diplomacia brasileira firmada na soberania nacional, no multilateralismo e na rejeição a alinhamentos automáticos. A declaração foi feita durante discurso no Dia do Diplomata, em cerimônia de formatura no Instituto Rio Branco.
Segundo o Itamaraty, Vieira afirmou que o mundo atravessa um novo colapso da ordem internacional e que o Brasil deve responder a esse cenário com autonomia. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém. O povo brasileiro manda em sua própria casa. Não somos nem queremos ser província de nenhuma metrópole”, disse o chanceler, parafraseando o economista Paulo Nogueira Batista Júnior, que publicou livro com este título.
A lição do Barão do Rio Branco
Ao homenagear José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, Vieira ressaltou que sua trajetória permanece atual em um mundo marcado por conflitos, unilateralismo e tentativas de imposição pela força.
“Fazemos questão de celebrar a trajetória de um negociador – quando tantos enaltecem a confrontação – porque o Barão do Rio Branco mostrou que a firmeza diplomática é crucial em épocas seduzidas pelas promessas da força bruta”, afirmou.
O ministro destacou que Rio Branco ensinou que o diálogo é o melhor caminho para a segurança duradoura, mas também advertiu que há limites quando estão em jogo o interesse nacional e a soberania. “A diplomacia não é o acordo a qualquer preço”, disse Vieira.
Crítica ao unilateralismo
Vieira afirmou que o ordenamento internacional construído após a Segunda Guerra Mundial está em crise. Segundo ele, a falência da ordem decorre tanto da resistência a reformas quanto da “tentação montante do unilateralismo”.
O chanceler criticou a substituição do multilateralismo por imposições unilaterais. “Em vez da legitimidade dos interesses, tem-se a arrogância das vontades. Em vez da composição das diferenças, tem-se a imposição das uniformidades”, afirmou.
Para Vieira, uma das expressões mais perigosas dessa lógica é a tentativa de reconstrução de esferas de influência, em prejuízo da independência política e da integridade territorial dos países.
América Latina e memória do autoritarismo
O ministro lembrou que a América Latina conhece historicamente os efeitos da ingerência estrangeira. Ele citou bloqueios, protetorados, ditaduras e violações sistemáticas de direitos humanos como parte de um “triste inventário” regional.
Nesse contexto, Vieira homenageou Esmeraldina Carvalho Cunha, vítima da ditadura e nome da turma formada no Instituto Rio Branco. “É essencial manter viva a memória das vítimas do autoritarismo ao contemplarmos as possíveis repercussões que a desordem mundial pode ter para o Brasil”, afirmou.
O chanceler também vinculou a defesa da soberania externa à preservação da democracia interna. “A ordem democrática e constitucional de um povo dono de seu destino não será subvertida nem por saudosistas do arbítrio, nem por amantes da intervenção estrangeira”, declarou.
Brasil, BRICS e governança global
Vieira afirmou que a política externa do governo do presidente Lula mantém desde 2003 o compromisso com a reforma dos mecanismos de governança global. Segundo ele, o Brasil alertou por anos sobre as fissuras da ordem internacional.
“Nenhum dos grandes problemas da atualidade será resolvido sem que seja ouvida a voz do BRICS, do G20, do G77 – sem que seja ouvido o Brasil”, disse.
O ministro citou a atuação brasileira no G20, no BRICS e na COP30, em Belém, como exemplos de liderança em temas como combate à fome, redução das desigualdades, reforma do Conselho de Segurança da ONU, inteligência artificial, saúde global, energia limpa e preservação das florestas tropicais.
Integração regional e multipolaridade
Vieira defendeu uma multipolaridade sem esferas de influência e afirmou que isso exige coordenação com a América do Sul, o Atlântico Sul, o Caribe e a África. Ele citou a revitalização da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, os acordos do Mercosul com Singapura, EFTA e União Europeia, além da participação brasileira na CELAC.
O chanceler também destacou a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, ressaltando a necessidade de evitar que rivalidades geopolíticas externas contaminem o espaço comum entre América do Sul e África.

Diversificação das parcerias
Na parte final do discurso, Vieira defendeu a diversificação das relações internacionais do Brasil como estratégia de proteção diante das oscilações globais.
Ele mencionou o fortalecimento das parcerias com China, Índia, ASEAN, Coreia do Sul, Japão, Ásia Central e África. Segundo o ministro, essa política prolonga a tradição brasileira de não alinhamento.
“Continuaremos a avaliar as oportunidades para o Brasil em meio à crise, atuando em todas as frentes pela conformação de uma multipolaridade com o sustentáculo do multilateralismo”, afirmou.
O ministro anunciou ainda a criação de uma disciplina permanente de geopolítica no Instituto Rio Branco e defendeu um Itamaraty “mais justo, diverso e inclusivo”, capaz de refletir a pluralidade da sociedade brasileira.



