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Marcos Coimbra

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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O Febeapá das pesquisas

"A discussão das pesquisas sobre a próxima eleição está cheia de equívocos", escreve Marcos Coimbra

Lula, Bolsonaro, Moro e Ciro (Foto: Stuckert | ABr)

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Ninguém aguenta a quantidade de besteiras a respeito de pesquisas que inunda a imprensa e o debate politico. Um verdadeiro Febeapá. Para quem não sabe, a sigla inventada há muitos anos por Sérgio Porto, que significa “Festival de besteira que assola o país”. 

A discussão das pesquisas sobre a próxima eleição está cheia de equívocos. Para evitá-los, temos que lembrar de quatro coisas.  

A opinião pública não está, por enquanto, interessada na eleição 

A população brasileira não se interessa por política, a não ser perto da eleição. O interesse já foi maior, quando as pessoas estavam mais satisfeitas com o país e suas lideranças, mas, de 2013 para cá, depois que atacar os políticos e a política passou a ser moda, o desinteresse subiu. 

Na mais recente pesquisa Vox Populi, apenas 24% dos entrevistados disseram estar “sempre” ou “na maior parte do tempo” interessados em política. Igual ao que ocorre com as “campanhas e eleições”: 63% responderam que não se interessam por elas. 

Os resultados variam em função da renda: dizem-se interessadas 17% das pessoas de baixa renda e 40% das que ganham mais. Quanto às campanhas e eleições, o mesmo padrão: 50% dos que têm renda maior se interessam e apenas 29% dos de renda menor. 

A esta altura da eleição, a maioria do povo está distante e pouco informada acerca das movimentações de partidos e candidatos. O que quer dizer que, na aferição de oscilações conjunturais (provocadas por declarações, novos apoios ou mudanças de partido, por exemplo), as pesquisas se limitam, na prática, a identificar os sentimentos de menos que 20% do eleitorado. 

Pesquisas remotas são de pequena utilidade  

Pesquisas políticas por telefone ou internet servem para mostrar o que pensam as pessoas que têm telefone ou computador e se interessam o suficiente por esses assuntos para responder a longos questionários, na maior parte das vezes aplicados sem interação pessoal. Como acabamos de ver, essas são poucas e estão concentradas nas camadas de renda mais elevada.

Depois que voltamos a fazer pesquisas presenciais, à medida em que a pandemia amainou, vimos um retrato da próxima eleição completamente diferente do que tínhamos. Lula ficou maior, Bolsonaro menor e os demais candidatos diminuíram de tamanho. A razão é óbvia: quando o método de pesquisa é adequado, mais gente do povo é ouvida. Seus candidatos ficam maiores, enquanto os das classes médias se apequenam. 

Pesquisas remotas ajudam pouco a entender a maioria do eleitorado. 

Em 2022, faremos nossa nona eleição moderna

Nove eleições não é tanto, mas não é pouco. Há o que aprender com nossa experiência, se a olharmos direito.  

A próxima eleição não está “mais indefinida” ou com “menos votos na espontânea” que as anteriores. A rigor, a um ano das eleições de 2006, 2010 e 2014, o total de respostas nominais à pergunta de voto sem apresentação de listas pouco passava de 35%, de acordo com levantamentos do Datafolha. No mesmo instituto, em setembro último, chegava a 52% e o espaço para o crescimento de novas candidaturas era significativamente menor.  

Lula não está “grande demais”, por se contrapor a um desclassificado como Bolsonaro. De 2002 para cá, ele nunca teve menos que 40% das intenções estimuladas de voto, no primeiro turno, em nenhuma eleição, incluindo as duas que venceu, as duas que não disputou porque não quis e aquela em que foi impedido por uma sucessão de atos de força. 

Podemos ler as pesquisas atuais torcendo pelo candidato que preferimos. O que não podemos é reescrever o passado.  

Levar em conta as pesquisas implica respeitar seus números 

A elite e a grande imprensa são tão antilulistas que só veem aquilo que querem nas pesquisas. Quando se metem a fazer contas, ignoram a aritmética da escola primária. Andam tão encantadas com o heroizinho que inventaram que o único que fazem atualmente é especular a respeito do “potencial de Moro”. 

Esse cidadão, em pesquisas presenciais, tem algo abaixo de 10%. É “bem conhecido” por 60% das pessoas e apenas 20% dizem não conhecê-lo. Entre os 80% que têm alguma informação a seu respeito, 54% dizem que não votariam nele “de jeito nenhum”. Quando o capitão não está na lista, cresce modestos 5 pontos. Em qualquer critério, é um candidato fraco, com apelo limitado a setores da classe média (na pesquisa Vox mais recente, obtém 2%, quase traço, entre os mais pobres). 

Pode crescer? Claro, pois quem é pequeno sempre tem espaço para melhorar. Mas só com muita torcida é possível imaginá-lo disparando para tirar o capitão do páreo. Quanto a Lula, continuará lá na frente, como favorito. 

O povo pode ter pouco interesse no dia a dia da politica, até porque sua vida concreta é muito difícil, mas tem lado. As pesquisas mostram qual.   

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