O fim da ambiguidade
O Japão que emerge das urnas e o preço da neutralidade brasileira em 2027
Isto não é uma análise de conjuntura. É um alerta de risco estratégico. No domingo, 8 de fevereiro de 2026, o Japão saiu das urnas com um mandato amplo para uma agenda de segurança econômica e defesa — e, com ele, cristalizou um conjunto de sinais que encarece a ambiguidade para países intermediários. O Partido Democrático Liberal (LDP) obteve 316 das 465 cadeiras na Câmara — com o parceiro de coalizão, o governo chegou a 352, assegurando uma supermaioria que amplia o espaço para decisões estruturais no campo militar, tecnológico e industrial.
O ponto relevante não é a personalidade da premiê Sanae Takaichi. É o mandato. Quando uma potência tecnológica decide tratar cadeias de suprimento como assunto de segurança nacional, ela reorganiza compras, padrões, regras de origem, triagem de investimentos e alianças. A política industrial deixa de ser um tema “econômico” e passa a ser uma extensão da política externa. Em 2026, esse deslocamento não é retórico: ele se materializa em contratos, compliance e restrições.
Esse novo Japão se conecta a outra peça do tabuleiro: o arranjo econômico-industrial Japão-EUA, que envolve um plano de US$ 550 bilhões em investimentos direcionados a projetos nos Estados Unidos, com instrumentos como participação acionária, empréstimos e garantias — em torno do Banco Japonês para Cooperação Internacional (JBIC) e do Seguro Japonês de Exportação e Investimento (NEXI). O essencial é entender que isso não funciona como “um cheque” — funciona como mecanismo de integração produtiva: selecionar setores, amarrar capacidade e reduzir dependências.
A implicação para Pequim é óbvia: quanto mais o eixo Tóquio-Washington trata a China como risco sistêmico — e não como “parceiro competitivo” — mais a disputa migra para os instrumentos que doem de verdade: tecnologia, origem, padrões, financiamento, seguros, controles de exportação. E, quando esse jogo endurece no Pacífico, ele tende a se refletir no Atlântico. O Hemisfério Ocidental, as rotas logísticas e os recursos estratégicos deixam de ser periferia e tornam-se espaço sensível de disputa regulatória.
O que muda aqui não é “a retórica americana do dia”. É o fato operacional de que cadeias “confiáveis” passam a ser uma condição de acesso — a crédito, a tecnologia, a mercado. E a China, pressionada em frentes asiáticas e industriais, responde como potência madura. Ela não precisa escalar para “guerra total” para impor custo. Basta acionar incerteza, risco e restrições seletivas.
Um exemplo dessa lógica apareceu em janeiro, quando Pequim anunciou a proibição de exportações de itens de uso dual para fins militares ao Japão. O detalhe importa: dual-use é o território cinzento onde cabem materiais e componentes críticos — inclusive insumos associados à base industrial. A mensagem não é um blefe. É a lembrança de que a interdependência pode virar instrumento.
É aqui que o Brasil entra — e entra do jeito mais desconfortável. No debate doméstico, tende a haver uma leitura quase automática: “se Japão e Ocidente buscam reduzir dependência da China, isso é bom para o Brasil, porque exportaremos mais”. Essa frase pode ser verdadeira na margem, no curto prazo. Mas ela perde a essência do tabuleiro: em ambientes de blocos e controles, exportar não é apenas vender; é expor-se. O risco brasileiro não é ser “convidado” a escolher lado. É ser empurrado para escolhas ruins por falta de arquitetura.
Três riscos se destacam para 2027.
O primeiro é o de compliance cruzado e sanções indiretas. Cooperar em segmentos sensíveis — minerais críticos, telecomunicações, portos, defesa, dados, infraestrutura digital — pode acionar exigências e restrições de um lado e de outro. O custo aparece como financiamento mais caro, seguro mais difícil, barreiras por regras de origem, limitações tecnológicas ou embargos informais. O Brasil pode descobrir, tarde, que o preço do “pragmatismo” aumentou.
O segundo é o risco de lock-in (armadilha) tecnológico e logístico. A dependência do século XXI não chega com ocupação. Vem com contrato: hardware, software, manutenção, padrões proprietários, governança de dados e interoperabilidade. A infraestrutura “chave na mão” pode acelerar cronogramas, mas pode também transferir o núcleo do controle para fora. E, uma vez instalado, o sistema vira caminho sem volta.
O terceiro é o risco da “fazenda global 2.0” — uma reprimarização sofisticada. Não é apenas vender soja e minério. É vender recursos estratégicos sem capturar o miolo do valor: refino, materiais avançados, certificação, engenharia, patentes e software industrial. É tornar-se peça útil, mas substituível: fornecedor de entrada, importador de complexidade.
A boa notícia é que esse ambiente também abre espaço para barganha. Só que barganha exige método. Em vez de perguntar “com quem o Brasil deve se alinhar”, a pergunta útil é: o Brasil já precificou corretamente o próprio trunfo?
Há ao menos três caminhos pró-Brasil — sem moralismo e sem binarismo.
O primeiro é tratar segurança mineral e logística como moeda de negociação por capacidade verificável. Se o Japão e seus parceiros buscam “cadeias confiáveis”, a contrapartida não pode ser apenas preço por tonelada. Deve ser domínio do meio do caminho: refino, separação, metalurgia avançada, laboratórios, certificação, engenharia de materiais e formação de fornecedores. Segurança mineral sem industrialização vira depósito vigiado.
O segundo é praticar uma neutralidade ativa, contratual — não a neutralidade passiva do “amigo de todos”. Isso significa operar com salvaguardas: interoperabilidade, governança de dados, transparência e auditabilidade de software industrial, exigências de transferência de know-how operacional e redução de dependência em peças críticas. Não é discurso; é cláusula.
O terceiro é construir uma plataforma nacional de capacidade — com BNDES e Finep como núcleo de indução. O banco entra como articulador de financiamento de longo prazo e condicionalidades; a Finep entra como motor da camada de P&D aplicada: laboratórios, testes, certificação, interoperabilidade, cibersegurança, engenharia de processo e formação de ecossistema. O objetivo é simples: criar um placar que responda, sem retórica, quanto do “meio do caminho” ficou no Brasil.
O mundo não acabou e o Brasil não está condenado. Mas o custo da improvisação aumentou. A partir de 2027, o problema não é “tomar partido”; é transformar vantagem em contrato. Em um tabuleiro de cadeias e padrões, a ambiguidade passiva vira vulnerabilidade. A alternativa é a arbitragem ativa: usar o momento para comprar capacidade — e não apenas vender recursos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



