O Imperador sem roupas e sem cartas
A Xangai empresarial não está exatamente impressionada com a chegada do Imperador da Barbária
Xangai – A casa de força da China dispara como um vertiginoso veículo elétrico. A atmosfera é elétrica. Em um jantar de negócios em um emblemático restaurante cantonês, a visita de Trump à China, pelo menos, propele a conversa em uma direção mais tangível: os caminhos conflitantes para as futuras gerações do Ocidente e do Oriente.
A Xangai empresarial não está exatamente impressionada com a chegada do Imperador da Barbária. Mesmo que todas as variáveis geoeconômicas possíveis estejam em jogo naquela que talvez seja a reunião diplomática mais importante do Ano de Guerra de 2026, cujas possíveis decisões sobre comércio e segurança fatalmente irão afetar todo o Sul Global.
Comecemos com as prosaicas preocupações estadunidenses. Como Mestre na Arte da Empatia Zero, Trump, ao menos, talvez tenha entregue todo o jogo com suas vociferações: “Eu não penso na situação financeira dos americanos. Eu não penso em ninguém”.
No entanto, ele está aterrorizado com a possibilidade de vir a se tornar um pato manco e gordo depois das eleições de meio de mandato. Ele, portanto, irá pressionar Pequim a comprar mais soja – para pacificar seus eleitores do Meio Oeste – e mais Boeings. Ele irá pressionar Pequim a exportar terras raras – para pacificar o complexo industrial-militar.
E, é claro, ele irá exercer sobre Xi pressão máxima para que ele force Teerã a abrir o Estreito de Ormuz para que os preços do petróleo caiam, para que a inflação baixe e para que o Fed reduza as taxas de juros.
Trump não tem nenhuma carta nas mãos para alcançar essa agenda. Quanto à guerra tecnológica, sua pressão máxima só fez com que a China, de forma espetacular, abandonasse seus fornecedores estadunidenses, vez após vez. Quanto à guerra comercial, a China diversificou amplamente suas exportações e conseguiu até mesmo um superávit comercial recorde.
O Irã, é claro, é o ponto chave – e não apenas por escancarar a todo o planeta os mega buracos existentes na estrutura da “nação indispensável”. O que Trump fará? Ameaçar Xi porque o Irã vem usando o sistema de satélites chinês BeiDou, que de fato reduziu todo o Oeste da Asia à condição de casa de vidro para os mísseis balísticos iranianos?
O Irã nunca perdeu seu corredor de conectividade com a China quando o Imperador da Barbária inventou o tal “bloqueio”. O fluxo continua por meio da rede de petroleiros fantasmas que navegam próximo às águas territoriais iranianas e paquistanesas, das transferências de navio a navio, de cargas disfarçadas e, agora, com Pequim dizendo aos refinadores chineses que absorvam os riscos das sanções.
Essa não é uma luta que se desenrola apenas em termos talassocráticos, mas também em termos do interior da Eurásia – em termos do corredor ferroviário eurasiano, os trens que vão de Xian a Teerã e vice-versa. Talvez as ferrovias ainda não igualem o volume das exportações marítimas, mas, estrategicamente, elas são absolutamente cruciais, demonstrando que a pressão marítima é completamente diferente do estrangulamento econômico terrestre.
A “brilhante” ideia estadunidense de sufocar a cadeia de suprimentos de petróleo chinesa – da Venezuela a Ormuz – e também de aplicar sanções às pequenas refinarias independente chinesas conhecidas como as refinarias bules-de-chá, só fizeram com que a China surgisse como um dos principais mediadores de fato durante o (constantemente quebrado) cessar-fogo, juntamente com a Rússia.
Todo o jogo de Ormuz, jogado à perfeição pelo Irã, teve muito pouco impacto sobre as importações chinesas, tanto quanto a restrição das exportações de Nvidia H100 e H200 a fim de “controlar” a IA chinesa teve impacto zero. Na verdade, a China ignora a Nvidia. O modelo DeepSeek V4 usa chips locais. E o H200 não é vendido na China.
Xi nem precisará dizer cara-a-cara a Trump que se ele insistir em empregar a guerra financeira fechando as instituições financeiras por trás das refinarias bule-de-chá, Pequim não terá problema algum em desencadear uma guerra econômica total.
Taiwan não é a única carta restante. Taiwan sequer é uma carta. Taiwan é uma questão de segurança interna para Pequim. Tudo o mais é pura invencionice. Talvez Pequim invista em convencer Trump a anular a venda de armas no valor de onze bilhões de dólares a Taiwan, incluindo destróiers equipados com Aegis, F-35s (ineficientes), mísseis Patriot e aeronaves E-2D Hawkeye para sinais de alerta precoces. Mas até isso é periférico.
Então, o que resta após toda a (reduzida) pompa e circunstância? Na melhor das hipóteses, o atual e muito precário status quo.
O plano chinês para a guerra tecnológica
Resumindo, o jogo de Trump é forçar Xi a aplicar pressão diplomática sobre o Irã para que aquele país aceite os termos da Barbária para o fim da guerra. O que não tem a menor chance de sucesso em aspecto algum.
Mesmo que isso viesse a acontecer, Trump poderia oferecer em troca relações comerciais Estados Unidos-China estáveis, extensões de tréguas comerciais e concessões quanto aos controles tecnológicos. Xi não se deixa impressionar com nada disso – por saber, seguindo a máxima de Lavrov, que os Estados Unidos não são “capazes de honrar acordos”.
A tão queimada marca BRICS talvez nem ao menos figure nas discussões. A China tratará separadamente de seus graves desafios internos, na reunião de Chanceleres a ter lugar na Índia quase que simultaneamente ao encontro Trump-Xi em Pequim.
Xi, além disso, talvez suspeite que os verdadeiros manipuladores de Trump – o Tecnofeudalismo, os Grandes Bancos e os diversos rebentos do Sionismo S.A. – urdiram uma guerra mundial sistêmica e sequenciada que já vem sendo travada, de agora até cerca de 2040, tendo como alvo a infraestrutura global essencial, o comércio e a energia, destinada a colapsar a velha ordem e instalar um verdadeiro Grande Reset, em termos muito mais lucrativos.
Esse é o exato, direto e bruto oposto da política chinesa oficial, que busca formar uma comunidade direcionada a um futuro compartilhado para a humanidade. Xi não se desviará um milímetro dessa política, que na verdade é a sua política, para aplacar o descomunal e patológico ego de um narcisista psicopata.
Xi já vem se concentrando nas 141 páginas do Plano Quinquenal revelado em março, que faz mais de cinquenta referências à IA, mira uma penetração de mais de 70% da IA na economia chinesa por volta de 2027 e se compromete com redes de comunicação quântica entre o espaço e a Terra, linhas do tempo para a fusão nuclear e interfaces cérebro-computador.
O Plano Quinquenal também declara “medidas extraordinárias” para a autossuficiência em terras raras e semicondutores – fortalecendo uma cadeia de suprimentos sem a qual as forças armadas dos Estados Unidos simplesmente pereceriam.
O plano chinês prevê a implementação de IA por toda a economia, a robótica como a espinha dorsal da indústria, infraestrutura espacial, computação quântica e total fortalecimento do domínio no processamento das terras raras.
Chame-se a isso um verdadeiro plano bélico chinês – no nível de uma prioridade de segurança nacional – em confronto direto com os Estados Unidos. Acreditar que Trump seria capaz de alterar qualquer parte desse plano com uma pilha de promessas vazias é para lá de ingênuo.
Os registros históricos serão escritos. O que já é certo é que a idiotice de tentar manter o domínio global estrangulando a superpotência emergente que é a China por meio do “bloqueio” dos portos iranianos e do Estreito de Ormuz, ateando fogo em todo o Oeste Asiático ao mesmo tempo em que levam à falência sua própria economia irá figurar como uma das Três Maiores da longa lista de idiotices produzidas pelo profundamente iludido Deep State dos Estados Unidos.
Tradução de Patricia Zimbres
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




