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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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O jovem Lula

“A presidente da UNE diz que Lula não tem nem celular para se comunicar melhor com os estudantes. O que mudaria se tivesse?”, pergunta Moisés Mendes

Bianca Borges (Foto: UNE)

Se nem celular tem, como o presidente Lula pode querer entender os jovens? Como poderá enfrentar Nikolas Ferreira, que domina o celular e as redes sociais? Esse é um resumo possível de uma das pautas da presidente da UNE, Bianca Borges, em entrevista ao Estadão.

Já sabemos que os jovens, as abelhas e os tico-ticos despareceram da cena pública. E agora se sabe que Lula pode até se comunicar bem com os bichos, mas não com os jovens. Porque não capta os sons dos jovens, também por não ter celular.

Essa é a frase de Bianca: “De um lado, o Lula que não tem nem celular; do outro, o Nikolas Ferreira, que caminhou mil quilômetros outro dia só para ir gravando stories e fazer cortes para as redes sociais”. 

Lula talvez seja o mais jovem presidente que o Brasil já teve desde o golpe que instalou a República. Um jovem agora com 80 anos. Tem vitalidade física, vigor retórico e dedicação intensa, desde o primeiro governo, às demandas dos jovens. Alguém falará do jovem Collor, mas esse era apenas um maratonista.

Lula tem atrevimento, atitudes, espírito de jovem. Mas não tem celular, e esse detalhe pode ser parte do diagnóstico. Nikolas filma o que faz ou simula fazer, em caminhadas, enchentes em Minas e aglomerações. É o que a direita faz melhor do que a esquerda. Principalmente para produzir mentiras e ódio.

Num cenário em que as pesquisas indicam o aumento do reacionarismo entre os jovens, Lula está perdendo apoio porque o mundo mudou e as conversas, os dilemas e os sonhos são outros. Toda a esquerda perdeu, também pela incapacidade de renovação de quadros, fala e ações, que o próprio Lula já abordou.

A direita tem, além do deputado transfóbico bem celularizado, muitos outros exemplos de jovens lideranças, com ou sem mandato, com poder de fala e de síntese. Todos com celulares de última geração, alguns com dezenas celulares.

A UNE hoje liderada por Bianca foi uma entidade de combate antes e depois da ditadura, e muitos nomes das esquerdas ascenderam como líderes estudantis. Lindberg Farias e Orlando Silva foram os últimos a ganhar mandato e projeção nacional. Ninguém mais com expressão política e voto veio depois. 

Há muito tempo a União Nacional dos Estudantes não tem a mesma relevância como trincheira de luta. É provável que a UNE tenha envelhecido mais do que Lula, porque os estudantes já não se agrupam, nem em uniões estaduais e municipais de secundaristas, nem nos DCEs das universidades, com a mesma força que tiveram até as manifestações pelo impeachment de Collor em 1992.

Como, nesse ambiente, querer mais conexão do poder com os jovens? Comprar um celular e treinar Lula com um pau de selfie? Reduzir a dependência que Lula tem do seu fotógrafo Ricardo Stuckert, para que o presidente se vire sozinho com um celular Huawei Mate XT Ultimate Design, considerado uma Ferrari perto do iphone 16 da Apple?

Pode ajudar, mas não vai resolver. Em artigo recente na Folha, a jornalista Lúcia Guimarães, que mora em Nova York, escreveu sobre a ausência dos jovens americanos nas ruas. 

As manifestações, informa Lúcia, têm cada vez mais gente de mais idade. São pessoas já perto dos 50 anos. Os jovens não lutam mais, contra as guerras e contra o fascismo, como lutaram por tanto tempo e chegaram a lutar até contra Trump.

Lúcia escreveu: “Uma professora universitária (Dana Fisher) que monitora o perfil demográfico do No Kings registrou que a idade média da manifestação de junho de 2025 foi de 36 anos; a de outubro passado foi de 44 anos; e o protesto recordista de 28 de março de 2026 foi o mais grisalho, com idade média de 48 anos”. 

A jornalista pergunta: por que os jovens sumiram? As respostas tentadas são: pela clausura das telas e das redes, por desencanto com as instituições, por desprezo pelos partidos e pelos políticos e por medo da polícia.

Na Argentina, uma tradição dos anos 90, que parou por alguns anos e voltou com força no governo de Milei, são as manifestações de rua das quartas-feiras. Promovidas por idosos. 

Todas as quartas eles caminham em direção ao Congresso ou à Casa Rosada, levam bordoadas da polícia e retornam na outra quarta. Há jovens nas caminhadas contra o governo do gângster da criptomoeda, mas os atos são essencialmente uma luta de velhinhos e velhinhas.

Os jovens estão mais no celular do que nas ruas, não só em Buenos Aires. E as ruas sempre foram deles desde o dia em que começaram a atirar paralelepípedos na polícia em Paris, lá em 1968.

Bianca tem 26 anos, é militantes do PCdoB e está preocupada com a pouca conexão dos jovens com a memória e com a História e com a desconexão do governo e de Lula com os jovens. O que está acontecendo também no Brasil?

E aí surgiu o celular na pauta da sua entrevista. Mas o celular, como diria o ferreiro sabido, é uma ferramenta. Que põe os jovens em conexão e, ao mesmo tempo, convida jovens, adultos maduros e idosos a ficarem em casa. Um celular na mão de Lula talvez não mude quase nada.

Mas é certo que a situação poderia ser melhor se tivéssemos mais jovens nas ruas para defender os idosos que um dia foram à guerra. Mas aí é preciso sair um pouco do celular. E as ruas terão que ter de novo algum sentido.    

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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