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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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O Master e os púlpitos

É público, notório e documentado que o Banco Master surge e se expande a partir de relações profundas com setores do bolsonarismo

Fabiano Zettel e Tarcísio de Freitas (Foto: Reprodução/YouTube/Martha Leonardis | Pablo Jacob/Governo de São Paulo)

Os bolsonaristas decidiram agir como kamikazes. Na questão do pedido de CPI do Banco Master, não há ingenuidade, zelo institucional ou preocupação republicana. Há espetáculo. Há jogo para a plateia. E há uma tentativa deliberada de dividir o ônus de um escândalo que tem endereço político, ideológico e financeiro muito bem definido.

É público, notório e documentado que o Banco Master surge e se expande a partir de relações profundas com setores do bolsonarismo: empresários, políticos e lideranças religiosas ligadas ao campo evangélico ultraconservador. O maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas – Fabiano Zéttel, cunhado de Daniel Vorcaro, o CEO do Master - é parte desse ecossistema. Não se trata de coincidência, mas de um arranjo de poder que mistura fé, dinheiro e política.

Ao pedir a CPI, o bolsonarismo não busca esclarecer. Busca arrastar o Centrão para dentro do incêndio, diluir responsabilidades e criar uma confusão calculada: se todos estão na CPI, ninguém é culpado. É o velho truque da lama generalizada. Certa vez ouvi uma frase de um líder do MDB que caracteriza muito bem o movimento feito pelo bolsonarismo neste caso: se estamos sujos com a lama, vamos puxar a todos para rolarmos no chiqueiro. Kamikazes, sim - porque explodem o próprio avião na tentativa de levar junto quem estiver por perto.

Cabe ao Centrão, especialmente às lideranças do Congresso como Davi Alcolumbre e Hugo Motta, agir com o devido cálculo político. O movimento racional, me parece, não é instalar uma CPI contaminada desde a origem, mas frear essa armadilha, manter o tema no âmbito do Judiciário e permitir que as investigações avancem com técnica, seja no STF, seja - o caminho mais adequado – sendo encaminhado para a primeira instância. CPI, neste caso, é palco; Justiça é método.

Já para o campo da centro-esquerda e para os defensores do governo do presidente Lula, há uma tarefa estratégica incontornável: disputar a narrativa na sociedade. É preciso deixar claro como o Banco Master nasce de relações com a Igreja Lagoinha, com figuras como Valadão, com empresários financiadores do bolsonarismo e com políticos que hoje posam de paladinos da moral. As relações do deputado Nikolas Ferreira com esse ambiente não podem ser tratadas como tabu. São fatos políticos que precisam ser debatidos.

Também é fundamental trazer à luz os vínculos que levam ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, à sua vice, Celina Leão, e ao senador Ciro Nogueira. Não para condenar previamente, mas para mostrar quem são os protagonistas desse sistema e impedir qualquer tentativa de empurrar a conta para o governo Lula.

Aliás, é preciso repetir até cansar: foi este governo que, a partir da atuação do Banco Central sob nova direção, com Gabriel Galípolo, investigou, agiu e levou ao fechamento do Banco Master. O Banco Central mo governo Bolsonaro, sob Roberto Campos Neto, escolheu a omissão e fez vista grossa.

Os fatos têm lado. E a verdade também. O resto é encenação - perigosa, ruidosa e cada vez mais desesperada.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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