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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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O papel do pensamento crítico no governo Lula

O sociólogo Emir Sader aponta caminhos estratégicos para um possível novo ciclo político

Presidente Lula (Foto: Ricado Stuckert / PR)

A nova vitória do Lula é também uma vitória do pensamento crítico. Da crítica ao neoliberalismo, ao bolsonarismo, à direita brasileira. 

Chegando Lula a seu terceiro mandato e se candidatando ao quarto mandato, qual a função do pensamento crítico brasileiro? 

O objetivo central é ajudar na definição dos objetivos do provável próximo mandato do Lula. Fazer um balanço da situação do país, do terceiro mandato do Lula, para construir os objetivos centrais de um quarto mandato. 

O objetivo histórico fundamental da esquerda é derrotar definitivamente o neoliberalismo e construir o que pode ser o pós-neoliberalismo. Para derrotar definitivamente o neoliberalismo, a primeira tarefa é resolver a questão das taxas de juros altas, que defendem a economia da inflação, mas, ao mesmo tempo, limitam a capacidade da economia brasileira de ingressar a um novo ciclo longo expansivo da economia. 

Sem resolver essa questão, o crescimento econômico será limitado, não se sairá do círculo vicioso entre a defesa da inflação e o crescimento limitado da economia. 

A provável reeleição do Lula e a possibilidade que ele logre, como fez anteriormente, eleger seus sucessores, colocam para a esquerda, incluindo o pensamento crítico, o desafio de formular um projeto estratégico de futuro para o Brasil, mais além da simples luta contra o neoliberalismo. Definir, antes de tudo, qual o período histórico que sucede a era liberal. 

Definir o que significa a indispensável democratização do Estado. 

Formular políticas que permitam a esse Estado enfrentar a questão da violência organizada, provavelmente a questão mais grave e de mais difícil solução. Até porque sua resolução supõe uma polícia de outra ordem, não comprometida com a violência contra a população e nem penetrada pela corrupção. Existe uma polícia democrática, que trabalhe pela construção da democracia? Senão, a questão da segurança pública não tem solução. Reformular as polícias é elemento essencial da democratização do Estado. 

Mas o objetivo da esquerda e do pensamento crítico tem que ir muito além disso. É repensar a dinâmica da história contemporânea, que teve uma virada conservadora com a hegemonia neoliberal e agora requer uma virada progressista. Mas, em que direção? 

A centralidade da luta contra o neoliberalismo foi uma passagem a uma posição defensiva, em que a iniciativa estava em mãos da direita, que concentrou na desqualificação e luta contra o Estado e as regulações econômicas os temas centrais. 

O surgimento dos Brics foi um avanço importante, mas requer a formulação dos projetos dessa nova forma de organização do Sul Global. Qual a alternativa à declinante hegemonia mundial norte-americana? Quais suas características? Para onde deveria caminhar o mundo na primeira metade do século XXI? 

O papel do pensamento crítico é o de dar continuidade à luta ideológica, à luta de ideias, ao combate aos valores neoliberais, ainda predominantes no “modo de vida norte-americano”. Não somente luta contra, mas também amadurecer a proposta de um outro mundo possível, justo, solidário, humanista.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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