O passeio dos fariseus
Enquanto os participantes marcham com ares de devoção e poses de martírio, a PF, bem menos inclinada à encenação, segue investigando fatos bem concretos
A recente caminhada promovida por figuras ligadas à Igreja Batista da Lagoinha jamais será confundida com um ato de fé. Trata-se menos de uma peregrinação espiritual e mais de um desfile coreografado, um grande passeio “dominical”, cujo objetivo, de fato, é levantar poeira suficiente para que ninguém enxergue o tamanho do buraco aberto pelo escândalo do Banco Master. Onde alguns tentam ilusionar oração, o que se vê é fumaça. E não é incenso.
Enquanto os participantes marcham com ares de devoção e poses de martírio, a Polícia Federal, bem menos inclinada à encenação, segue investigando fatos bem concretos. No âmbito da Operação Compliance Zero, vieram à tona indícios robustos de crimes financeiros envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso em 2025. O banco, vale lembrar, não foi vítima de perseguição espiritual, mas liquidado pelo Banco Central diante de suspeitas de gestão fraudulenta, organização criminosa e emissão de títulos fictícios, que podem ter causado prejuízos bilionários. Milagre nenhum resolve isso.
No meio desse enredo pouco edificante, surgem personagens que transitam com desenvoltura entre o altar e o mercado financeiro. O empresário e pastor da Igreja Lagoinha, a mesma do deputado Nikolas Ferreira, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas, com R$ 5 milhões, foi alvo de prisão temporária ao tentar deixar o país. Já na CPMI do INSS, aparecem citações a nomes como André Valadão e outros líderes da denominação, em supostas conexões com estruturas financeiras ligadas à igreja, como o Clava Forte Bank. A igreja nega, claro. Negar, afinal, também é uma forma de liturgia.
É nesse contexto que o apelido “passeio de fariseus” cai como uma luva. Em vez de defender princípios cristãos básicos - ética, verdade, responsabilidade, cuidado com o próximo -, o que se vê é uma romaria política, cercada de aliados convenientes e discursos ensaiados, destinada a desviar o foco, relativizar acusações e transformar investigados em supostos perseguidos. E tudo isso se aproveitando da prisão de um senil ex-atleta e ex-imbrochável. Não é fé em movimento; é marketing em marcha lenta.
O deboche é inaceitável. Os mesmos que hoje caminham supostamente em defesa de um personagem que atentou contra a democracia, posando de guardiões da liberdade, seriam os primeiros a não poder caminhar coisa alguma se estivéssemos sob uma ditadura real. Paradoxalmente, usam a democracia - que desprezam quando lhes convém - para tentar blindar quem a atacou. É a liberdade servindo de escudo para o autoritarismo, temperada com versículos escolhidos a dedo.
Que fique claro: a liberdade de expressão é um direito sagrado na democracia. O que não é sagrado é usar a fé como biombo, a igreja como esconderijo e fiéis como figurantes de uma farsa moral.
Por isso, é imperativo que as investigações sobre o Banco Master avancem até o fim, sem reverências e sem medo de tocar nos intocáveis. Todos os envolvidos devem responder por seus atos, especialmente aqueles que transformaram a fé alheia em mercadoria e tentam vender redenção como se fosse ativo financeiro. Que os vendilhões da fé descubram, finalmente, que a justiça não aceita dízimo - apenas provas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



